Em defesa da língua portuguesa

A presença da língua portuguesa na Internet é já uma realidade clara. Contudo, é premente continuar a trabalhar no sentido de promover a utilização de domínios de Topo na língua de Camões e é neste contexto que surge a LusNIC, Associaçao de ccTLDs de língua portuguesa. A Revista Pontos de Vista conversou com Marta Moreira Dias, Presidente do Conselho Diretivo da entidade, que nos falou sobre as expectativas de uma equipa que pretende não apenas divulgar a língua, mas a própria CPLP.

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Marta Moreira Dias

A 23 de setembro do presente ano constituía-se a LusNIC, Associação de ccTLDs de língua portuguesa. É possível fazer um balanço do que foi já estruturado nesta primeira etapa?
O processo de constituição da LusNIC foi moroso e difícil, não por falta de interesse dos players que tinham sido convidados a juntar-se à iniciativa, mas pelas questões associadas às formalidades inerentes à constituição de uma organização internacional onde apenas um dos cinco fundadores é português.
Neste momento ainda estamos numa fase inicial e só depois da Assembleia Geral, que irá decorrer no início do ano em São Tomé e Príncipe, definiremos em concreto o nosso plano de ação. Antes disso qualquer balanço seria precoce.

As expectativas são muitas e têm bem delineado o plano de trabalhos no sentido de promover os domínios de Topo de língua portuguesa. No entanto têm encontrado obstáculos na missão de desenvolver esta área de atuação em que se inserem?
Ainda não encontrámos grandes obstáculos, o que não quer dizer que os não devamos antecipar. A considerável dispersão geográfica dos associados e o desequilíbrio, que obviamente tentaremos diminuir, em termos de recursos ao dispor de cada associado podem vir a constituir-se como obstáculos. Porém, estamos aqui para ultrapassar barreiras e criar valor, é nisso que apostaremos.

A LusNIC surge como uma composição de diferentes entidades de importância clara no contexto de ccTLDs, nomeadamente a Associação DNS.PT, a AGER, a ANAC, entre outras instituições. De que modo esta união será uma mais-valia na promoção e defesa dos domínios de Topo de língua portuguesa?
A LusNIC será uma mais-valia no sentido da partilha de conhecimento entre todos os associados, de estreitar laços, de estabelecer políticas comuns e de ser uma voz ativa nos fóruns internacionais para, designadamente, fomentar e promover a utilização dos conteúdos e da língua portuguesa na Internet.

Novos associados são bem-vindos, segundo afirmam, e têm vindo a trabalhar no sentido de criar parcerias com entidades públicas e privadas de modo a desenvolver esta área. Qual é a importância de sensibilizar estas entidades, nomeadamente os próprios Governos?
A promoção da língua portuguesa é uma questão global. Acresce o facto de se um conjunto de países tem uma identidade comum, o que é o caso, ela deva ser explorada e, se possível, potenciada. Existem entidades ou simples iniciativas que atuam nesta área e que são importantes para nós e que são já hoje encabeçadas por movimentos ativos oriundos da academia, da sociedade civil, do estado e de outras associações como por exemplo a ARCTEL. É importante para nós estabelecer parcerias com entidades que têm experiência na troca e partilha de conhecimento nestas áreas em que nos movemos e a ideia de base é colaborar para crescer, para competir e ter voz ativa no mercado global.

Pretendem, enquanto LusNIC, fomentar a utilização da língua portuguesa no universo cibernauta. Existem ainda lacunas neste sentido? Como caracterizam a presença da língua portuguesa na Internet?
Na minha opinião não se trata de uma lacuna e a prova disso é que a língua portuguesa tem aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a quarta língua mais falada no mundo e a mais falada no hemisfério sul. Dados recentes revelam que na Internet o português já é a quinta língua mais utilizada e nas redes sociais – Facebook e Twitter – é a terceira. Existem cerca de 32 milhões de falantes de língua portuguesa fora dos países de origem.
Não é novidade que sobretudo o Brasil tem contribuído muito para a divulgação da língua portuguesa na Internet e, segundo estatísticas recentes, existem 1.074.116 domínios em .pt e .br, 1.308.306 sites alojados em Portugal e no Brasil e 1.013.460 sites em língua portuguesa, não são números despicientes.

A partilha de conhecimentos é um aspeto fundamental no sucesso do vosso desempenho. Desta forma, planeiam a organização de formações e workshops que fomente o conhecimento. Este é um conceito importante para a evolução da própria CPLP?
A intervenção da CPLP nesta área é muito relevante e amplamente conhecida. Esperamos, dentro daquilo que é a nossa área de intervenção, orientada sobretudo para a promoção e colaboração na defesa dos interesses dos ccTLDs de língua portuguesa, fomento da utilização da língua e dos conteúdos portugueses na Internet e cooperação e partilha de conhecimento nas áreas de intervenção dos ccTLD’s em matérias de cariz técnico, segurança, legais e de boas práticas, poder vir a contribuir para o trabalho da CPLP.

De um modo geral, como encaram o vosso papel integrado no desenvolvimento da CPLP? Que benefícios trazem à comunidade e ao seu progresso?
Podemos afirmar que as nossas expectativas são elevadas. Esperamos poder trabalhar em conjunto e contribuir para a concretização da missão de uma organização tão credível e sedimentada, tanto na nossa sociedade como nos restantes países que têm o português como uma das línguas oficiais, como é a CPLP.

Como idealizam o futuro da LusNIC enquanto associação que pretende promover os domínios de Topo de língua portuguesa e, consequentemente, a própria CPLP?
Estamos bastante otimistas quanto ao futuro da LusNIC. Estamos neste momento a trabalhar com particular empenho, desde logo porque esta é uma iniciativa que já vinha a ser pensada há alguns anos, mas que só foi possível concretizar neste momento. É uma responsabilidade acrescida da qual não largaremos mão. Refira-se que as organizações similares (por exemplo AFNIC, LACNIC) têm por base uma área geográfica comum e na LusNIC o elemento diferenciador é a língua portuguesa, ou seja, também aqui fomos inovadores.
Quanto ao futuro na CPLP e sobretudo quanto ao impacto que a criação da LusNIC aqui pode ter, é prematuro, ou melhor, demasiado ambicioso fazer essa análise neste momento. Certos porém de que esperamos vir a ser reconhecidos pela CPLP, como por outras organizações e, acima de tudo, pelas comunidades que queremos servir como uma organização que trabalha, age e tem resultados.