A temperatura média do planeta será 1oC superior à da era pré-industrial, ou seja, metade do caminho até ao limite de 2oC, acima do qual temem-se consequências catastróficas.

A alta nos termómetros é resultado do efeito dos gases com efeito de estufa, combinado com um fenómeno climático periódico – o El Niño ¬– particularmente forte este ano.

Com bases nos dados de janeiro a outubro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) diz que a temperatura média global este ano está já 0,73oC acima da média de 1961-1990 e aproximadamente 1oC acima dos valores de 1880-1899.  Se a tendência se mantiver, será batido o recorde de 2014, que terminou com 0,69oC acima da média de 1961-1990.

“São más notícias para o planeta”, afirma o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud, num comunicado divulgado esta quarta-feira.

A concentração atmosférica de CO2 – o principal gás que está aquecer o planeta – atingiu pela primeira vez uma valor regional de 400 partes por milhão (ppm) na Primavera passada, sobre o Hemisfério Norte. Este número simbólico já tinha sido atingido pontualmente nalgumas estações nos últimos anos, mas nunca se tinha mantido nesse nível durante alguns meses numa escala geográfica maior.

A isto, soma-se um forte El Niño – um fenómeno natural no qual o Pacífico aquece junto à costa Oeste da América do Sul, com efeitos diversos em várias partes do mundo – como secas, cheias e tempestades tropicais. Nos anos de El Niño, a temperatura média da Terra tende a subir. E prevê-se que o fenómeno de agora ainda se vá intensificar até ao final do ano, com consequências a serem sentidas até 2016.

O ano tem sido prolífico em eventos meteorológicos extremos. As temperaturas médias têm sido mais elevadas em várias partes do mundo. Na China, nunca houve um período de janeiro a outubro tão quente como agora.

Muitos países enfrentaram ondas de calor. A OMM cita os casos da Índia, Paquistão e também da Europa, incluindo Portugal – que teve duas ondas de calor em maio, numa das quais os termómetros chegaram aos 40oC, um valor nunca antes atingido nesse mês no país.

Chuvas fortes e cheias afectaram o sul dos Estados Unidos, o México, a Bolívia e o sul do Brasil. O mesmo aconteceu no sul da Europa, no Malawi. Zimbabwe, Moçambique, Marrocos, Argélia e Tunísia.

Até agora, houve 84 ciclones tropicais – um valor que já está próximo da média mundial de 85 por ano.

Segundo a OMM, 2011-2015 foi o período de cinco anos mais quente desde que há registos.

O balanço da OMM surge a quatro dias do início de uma conferência decisiva da ONU, em Paris, onde deverá ser aprovado um novo tratado internacional para travar o aquecimento global. “As emissões de gases com efeito de estufa podem ser controladas. Temos o conhecimento e os instrumentos para agir. Temos uma escolha. As gerações futuras não”, refere Michel Jarraud.

Sobre a mesa das negociações estão compromissos assumidos por mais de uma centena e meia de países, mas que não serão suficientes para manter o aquecimento da Terra abaixo dos 2oC até ao final do século.

Acima deste limite, temem-se consequências com as quais será muito mais difícil e oneroso lidar. Mas mesmo com 2oC, algumas ilhas do Pacífico correm o risco de desaparecer do mapa.