O Empreendedorismo Verde

O tema do empreendedorismo tem estado em todas as agendas relacionadas com criação de emprego e dinâmica empresarial, surgindo muitas vezes como sendo a receita milagrosa para resolver o problema do desemprego e como sendo o caminho que todos os jovens (e não tão jovens) deveriam enveredar.

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Sofia Santos

Sofia Santos, Economista*

Não tenho esta visão. Acredito que nem todos temos de ser empreendedores (entendendo empreendedorismo como a capacidade de criar empresas e o seu próprio trabalho), que não é expectável que todos tenhamos o perfil aventureiro e desafiante de um empreendedor e, acima de tudo, não temos ainda uma cultura de empreendedorismo genuína. Na realidade, para que o empreendedorismo floresça é necessário: a) um regime fiscal que o incentive; b) é necessário uma cultura de investimento a médio longo prazo (e não de curto prazo típico dos capitais de risco) pois só assim se conseguirão desenvolver outros negócios que não os meramente relacionados com as tecnologias de informação; c) e são necessárias também pessoas que, não tendo o perfil de empreendedor, tenham as competências técnicas e operacionais para realizar um bom serviço ou produto final.

Neste sentido, acredito que ainda há um longo caminho a percorrer para que tenhamos bom exemplos de empreendedorismo que se transformem em empresas grandes e geradoras de bem-estar económico social e ambiental a médio longo prazo, em vez de apenas ambicionarmos que um determinado projeto ganhe escala e seja vendido por um valor muito elevado a uma grande empresa. Se queremos que o empreendedorismo se generalize, então temos de ser realistas. E na realidade, a grande criação de emprego e a grande estabilidade dos números do emprego não dependem das empresas “gazelas” que são vendidas nos primeiros 5 anos de atividade. Dependem sim, da possibilidade das empresas crescerem as suas atividades de forma moderada e com precaução nos primeiros anos; da capacidade dos investidores em contratarem pessoas qualificadas com salários dignos e estimulantes e da compreensão pelos acionistas que o retorno a médio e longo prazo é mais importante do que a mera especulação feita em 2 ou 4 anos.

Expandir o empreendedorismo deveria implicar, a meu ver, desenvolver uma cultura empresarial que valorize o retornos a médio e longo prazo, pois só dessa forma conseguimos contribuir para uma sociedade mais estável, justa e feliz, o que, obviamente, contribui para o bem-estar da população. Em pleno século XXI, o bem-estar da população vai mais além do mero dinheiro; provêm de vários factores como “ factores humanos, factores ambientais e factores ambientais” . Na realidade, em 2009 foi publicado um relatório escrito pela Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress (CMEPSP), uma iniciativa de Nicolas Sarkozy que contou com o trabalho de economistas como Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi, onde se pode ler que  o bem-estar está relacionado com um conjunto de aspetos não económicos da vida, que incluem os desejos das pessoas bem como o contexto da natureza em que estão inseridos. Este documento vai mais longe ao afirmar que esse bem-estar só pode ser mantido no tempo se formos capazes de passar para as gerações futuras stocks de capital natural, físico, humano e social.

Assim, existe atualmente uma ótima oportunidade de juntar o conceito de empreendedorismo aos conceitos de bem-estar e de desenvolvimento sustentável. Na realidade, para que o empreendedorismo pudesse de facto ter um papel estrutural na economia Portuguesa, e atendendo que vivemos num país detentor dos recursos naturais mais valiosos à escala Europeia, seria interessante ver mais desenvolvido em Portugal o conceito empreendedorismo sustentável. Por empreendedorismo sustentável entende-se “os meios através dos quais as atividades empreendedoras podem resolver desafios ambientais, ao conseguirem superar as barreiras de mercado relacionadas com recursos ambientais” .

De acordo com o documento Compromisso para o Crescimento Verde publicado em 2015 pelo Governo, a economia verde já representa, globalmente, 4 biliões de euros, crescendo 4% ao ano. Na UE, os sectores verdes já representavam, em 2010, 2,5% do Produto Interno Bruto global da UE, e estima-se um crescimento anual de cerca de 30% até 2025, constituindo desta forma os sectores mais dinâmicos da região europeia. Com a recente COP 21 em Paris, ficou acordado o compromisso de se investir 100 mil milhões de dólares por ano em atividades que promovam a descarbonização da economia dos países em desenvolvimento. Na Europa, a estratégia Europeia para a Biodiversidade e a Estratégia Europeia para a Economia Circular vão também levar a vários mil milhões de investimentos em projetos que promovam uma economia mais verde, ou seja, uma economia que reduza os riscos para o ambiente e reduza a escassez ecológica. Tudo isto parece demasiado futurista. Mas não é. Trata-se já da realidade em que vivemos e à qual nos devemos adaptar o mais rapidamente possível. A educação tem um peso fundamental para a promoção de um empreendedorismo sustentável, ou empreendedorismo verde, como por vezes também é chamado. É necessário ensinarmos aos jovens estudantes que uma economia mais amiga do ambiente é geradora de bem-estar e de riqueza para o país e para todos os cidadãos. Existem cada vez mais casos concretos a servir de evidencia.

É neste contexto que tenho estado envolvida, com outras pessoas, no projeto JEVE – Jovens para o Empreendedorismo Verde e Empregabilidade, que pretende promover precisamente as competências de empreendedorismo associadas à economia verde. O JEVE lançou em Novembro de 2015 uma plataforma de E-Learning com uma formação totalmente gratuita sobre empreendedorismo e empreendedorismo verde, destinada aos jovens dos 18 aos 30 anos. Pode ser um bom começo para uma discussão mais aprofundada com os vários stakeholders, e o início de um debate informativo sobre o potencial da economia verde em Portugal.

* Sofia Santos é Economista, com Doutoramento sobre como podem os bancos promover uma economia verde. Para mais informações: http://sofiasantos2050.wix.com/foresight