Envelhecimento ativo, uma missão empresarial

Entrevista a Ana João Sepulveda, Managing Partner da 40+Lab

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Demografia disruptiva é a demografia atual, porque pela primeira vez na história da humanidade a proporção de pessoas seniores tende a ser maior que a de pessoas jovens. Neste sentido, o conceito de envelhecimento ativo surge como forma de promover o envelhecimento positivo e integrador. Uma sociedade “Age Friendly” é uma sociedade onde estão criadas as condições para que este processo seja otimizado com claras implicações para a economia, porque, entre outros aspetos, abrem-se novas oportunidades de negócio. Para que isto seja possível é necessário que as organizações estejam efetivamente adaptadas a esta realidade e vejam de que forma este fenómeno demográfico afeta o seu negócio.
É neste contexto que em 2013 surge em Portugal a 40+Lab, uma empresa de consultoria estratégica de negócio especializada no consumidor sénior, no processo de envelhecimento e na forma como ele impacta o negócio das marcas.
Ana João Sepulveda afirma que “a nossa missão é trabalhar com as organizações e em conjunto coloca-las na linha da frente da economia do século XXI, onde o envelhecimento e a longevidade marcam grande parte do crescimento das sociedades. Porque o mercado sénior, como mercado promissor do desenvolvimento de negócio é uma realidade recente em Portugal, as marcas e organizações têm muito a aprender e há que encurtar os timings de aprendizagem. É para isso que existimos.”
O envelhecimento é um fenómeno demográfico e sociológico que toca a sociedade de forma transversal e que, no mundo dos negócios, representa uma oportunidade de crescimento e diversificação tanto para as organizações cuja oferta se destina efetiva e exclusivamente aos seniores (ex. produtos funcionais ligados ao processo de envelhecimento), como para aquelas cuja oferta é mais generalista (ex. bens de grande consumo). Mas para que isso seja possível é preciso que se olhe para os seniores como consumidores normais com necessidades e motivações muitas vezes não satisfeitas e não sob o prisma das ideias feitas e dos preconceitos discriminatórios.

A par da indústria alimentar, outras existem que beneficiam em muito do fenómeno do envelhecimento, que impulsionam a economia e, em simultâneo, contribuem para a promoção do envelhecimento ativo. Ana Sepulveda menciona, nomeadamente, o turismo, a saúde e a área tecnológica.

No âmbito do turismo, cresce o número de estrangeiros que olha para Portugal como “a Flórida da Europa”. Um país com um excelente clima (em comparação com o do país de origem do turista), com boas acessibilidades, seguro, com uma boa oferta gastronómica e cultural. São turistas seniores que em alguns casos acabam por escolher Portugal para residir. O investimento no turismo sénior beneficia tanto o turista que vem de fora como os seniores portugueses, por provocar um aumento da oferta e uma adequação da mesma aos desejos e vontades destas pessoas.

Aqui, este mercado cruza-se com a saúde e potencia o desenvolvimento do designado turismo de saúde, através da criação de espaços que permitam revigorar o corpo e a mente. O bem-estar torna-se o objetivo crucial, numa fusão entre ócio, terapia e investimento na longevidade.

Ana Sepulveda assume que estes mercados estão especialmente direcionados a seniores ativos ou com fraca dependência, termo utilizado pela Comunidade Europeia. Contudo, não esquece a população mais dependente, com uma saúde mais débil e/ou com maiores restrições financeiras. Neste ponto, reitera a importância da responsabilidade social e de uma economia direcionada para comunidades mais desprotegidas. “Esta é uma questão que tem vindo a chamar a atenção das empresas”. Neste âmbito, a responsável pelo 40+Lab menciona também as age-friendly cities, um projeto da Organização Mundial de Saúde, que incentiva à adaptação e flexibilização das cidades. O objetivo passa por “tornar a cidade acessível, atrativa e integradora dos seniores”, explica.
Neste sentido, também as empresas devem saber acompanhar estes conceitos futuristas. É aqui que se insere o INNOVageing, um projeto da 40+Lab e desenvolvido em parceria com o Instituto de Negociações e Vendas (INV), que promove a formação dos recursos humanos para um correto relacionamento com seniores e especialmente voltado para o retalho.

No contexto comercial, o atendimento deve ser adaptado e não podem existir sinais de impaciência ou paternalismo para com os clientes idosos e com maiores dificuldades de compreensão face a produtos e serviços recentes ou, por exemplo, ligados às novas tecnologias. Os próprios espaços comerciais devem igualmente criar condições de conforto, nomeadamente através da construção de espaços de descanso, da colocação de produtos em zonas de fácil acesso, entre outras situações, como refere Ana Sepulveda.

No seio interno das empresas, os responsáveis pelos Recursos Humanos devem saber compreender os anseios dos seus colaboradores mais velhos e ter uma interação saudável e eticamente correta. Devem ter presente a real constatação de que a idade não influencia a produtividade.

Num momento em que o envelhecimento é um mercado em expansão, esta empresa de consultoria apoia, igualmente e por diversas vezes, marcas já existentes a “redefinir o seu negócio”, de modo a adaptá-lo a estas classes etárias. Mas, acima de tudo, “temos a missão de contribuir para que o mercado nacional cresça de uma forma consolidada, porque a economia tem muito a ganhar com uma integração plena do segmento sénior”, assume Ana Sepulveda.

O ano de 2016 será um momento de grande prosperidade e desenvolvimento para a 40+Lab. Ana Sepulveda refere que a empresa apostará de forma clara na área da “formação e, nomeadamente, no projeto INNOVageing”. A internacionalização será, igualmente, um aspeto de máxima importância para a marca, com a entrada no mercado brasileiro. Atualmente encontram-se já a trabalhar em parceria com uma empresa norte-americana num projeto que será lançado em Portugal, e na Europa, em maio deste ano. A par disto, a 40+Lab apoia os Palhaços D’Opital, um projecto que se destina a alegria, o humor e os afetos no ambiente hospitalar e com foco nos doentes seniores”.