Migrações e empreendedorismo no feminino

Opinião, Inês Azevedo, Partner da Eimigrante.

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Há quem defenda que 2016 será o ano em que as forças do empreendedorismo convergirão com o feminismo, e que esta fusão será positiva para todos, para a economia, para os consumidores e para a sociedade.

De acordo com o “The Kaufman Startup Index 2015” as mulheres empreendedoras são mais perspicazes do que a sua contraparte masculina a detetar as oportunidades no mercado e a criar um novo produto ou serviço para um determinado segmento.
Foi exatamente o que sucedeu com a Ei!, a primeira empresa em Portugal totalmente direcionada para a assessoria ao migrante, onde as necessidades sentidas na primeira pessoa, por uma das sócias enquanto emigrante, detetaram uma oportunidade de negócio. Foi nesse sentido que a Ei! surgiu tendo vindo a preencher uma lacuna no que respeita à prestação de serviços cuja procura tem origem nos fluxos migratórios da atualidade.
O empreendedorismo feminino é um fenómeno de tal forma interessante que tem merecido ser estudado e apresentado de forma individualizada, como acontece nesta revista. Vamos aos fatos:
Em primeiro lugar, o empreendedorismo feminino tem sido reconhecido durante a última década como uma fonte-motor importante do crescimento económico. As mulheres empreendedoras criam novos postos de trabalho e oferecem diferentes soluções de gestão, organização e resolução de problemas inerentes ao negócio ao mesmo tempo que exploram novos nichos de negócio. Contudo, as mulheres ainda são uma minoria entre os empreendedores. Mais, a percentagem de mulheres a ter acesso a venture capital no lançamento de um negócio é de apenas 20.1% comparado com 79.9% dos homens .
Ainda existe uma falha no mercado que discrimina a possibilidade de as mulheres serem empreendedoras e serem empreendedoras bem sucedidas. Esta falha de mercado tem que ser enfrentada a vários – níveis, político, económico e social – para que o potencial económico deste grupo possa ser plenamente utilizado. Sem dúvida que o impacto das mulheres na economia é substancial, contudo, ainda faltam dados concretos que permitam descrever em detalhe este impacto.
Em segundo lugar, a participação das mulheres empreendedoras tem sido negligenciada. As mulheres não têm apenas uma taxa de participação mais baixa nas empresas como gerem empresas em indústrias diferentes das dos homens, designadamente: comércio, educação e prestação de serviços, que são áreas entendidas como menos importante para o desenvolvimento e crescimento económico do que a alta tecnologia e indústria. Mais, a pesquisa mainstream, as políticas e os programas tendem a ser “men streamed” e muitas vezes não têm em atenção as necessidades específicas das mulheres empreendedoras e das mulheres que querem ser empreendedoras
Como consequência, a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres de uma perspetiva empreendedora ainda não é uma realidade.
O projeto da Ei! é um projeto de 3 mulheres empreendedoras apaixonadas pelo fenómeno das migrações – uma área em permanente mutação e crescimento.
Há poucos temas tão emotivos como as migrações. A migração é uma escolha individual, de quem busca uma vida melhor longe da sua terra natal. Mas esta escolha tem consequências que ultrapassam a esfera do indivíduo: afeta a sua vida, mas também a da sua família, a da sociedade onde escolhe residir, mas também a da sociedade que deixa para trás. É por causa desta relação, com tantos ângulos e tantos efeitos, que são necessárias várias formas de intervenção no acolhimento.
As migrações constituem hoje, simultaneamente, um dos maiores desafios e oportunidades para as políticas públicas de qualquer país. No âmbito da União Europeia, as migrações são uma realidade que suscita, e ainda bem, atenção crescente. Desde logo, no plano humanitário, a pressão migratória sobre as fronteiras externas da União Europeia tem aumentado. Temos assistido a tragédias humanitária antes desconhecidas na Europa, fruto do desespero de muitos migrantes, que procuram, por todas as formas, muito precárias, chegar a solo europeu, em busca de uma vida melhor.
Seria um erro, todavia, ver na política migratória apenas política de gestão de fronteiras, nacionais ou europeias. A política migratória é política de segurança interna. É também política social e de cidadania, política de emprego, política de gestão da diversidade, política económica
Portugal tem alterado de forma significativa, nos últimos anos, o seu perfil migratório. No final dos anos 90 do século passado, Portugal transformou-se num país de perfil intensamente imigratório, acolhendo um número elevado de imigrantes que procuravam o nosso país para trabalhar
Esta realidade trouxe ao nosso país, como todos pudemos testemunhar, maior diversidade cultural, novos profissionais, novas línguas, abertura de horizontes e uma imigração que não se cingia aos países de língua portuguesa. Tudo isto foi enriquecedor sob diversos pontos de vista. Inúmeros estudos, nacionais e internacionais, demonstraram o efeito positivo da imigração nas contas públicas.
A prestação de serviços migratórios podem ser também um trunfo de competitividade, de desenvolvimento, de alargamento daquilo a que podemos chamar o “espaço humano” de um país: toda essa rede de contactos, experiências e interações que a política migratória potência.
Mas há também uma diferença de fundo: as migrações deixaram de se centrar exclusivamente no fator trabalho, como no passado, sujeitas à oferta existente nos mercados laborais. Deixámos de assistir a movimentos migratórios apenas laborais, para hoje testemunharmos as novas migrações temporárias (circulares, de talento, turismo e de consumo) têm cada vez mais importância na economia. Esta realidade torna cada vez mais premente uma reflexão politico-estratégica para que se possa definir o posicionamento que mais convém a Portugal. As migrações são hoje motivadas por fatores como o clima, o ambiente empreendedor, as condições de ensino ou de investigação, o ambiente fiscal e regulatório, o comércio e os serviços.
A Ei! está atenta a tudo isto e oferece um conjunto de serviços diversificados e integrados para quem se encontra em mobilidade. Criada em setembro de 2014, o nosso projeto conta já com cerca de 250 clientes oriundos de 20 países diferentes e cuja tendência será seguramente para aumentar.
Existe um provérbio chinês diz que as mulheres sustentam metade do Céu. O que significa que os homens sustentam a outra metade. É necessário encontrar um equilíbrio.