Naturalidade como premissa obrigatória

Mantendo-se constantemente a par do que de melhor se faz na área da estética, Helder Silvestre afirma que os seus doentes podem esperar de si “um profissional inconformado, sempre atualizado no sentido de oferecer o estado da arte aos seus pacientes”. Conheça a perspetiva e o trabalho deste conceituado cirurgião plástico.

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É especialista em Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética, formador internacional de médicos, membro efetivo da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, perito em Macrolane. O que tem feito de si um profissional de referência?
Fiz a especialidade de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética de 1999 a 2004. Durante a especialidade, fiz vários estágios fora do país, como na Clínica Pitanguy, no Rio de Janeiro, Brasil, ou no Hospital da Zarzuela, com Adolfo Montoya, um grande mestre em cirurgia craniofacial e em cirurgia plástica do nariz. Desde então, dediquei-me como cirurgião plástico à cirurgia plástica estética, colaborando com múltiplos colegas e sociedades científicas, no sentido de partilharmos sabedoria e experiências, sempre na procura de oferecer as melhores técnicas aos pacientes. Macrolane é um gel à base de ácido hialurónico, de elevada densidade, para ser utilizado no corpo humano. Dada a minha experiência com o produto, participei como perito numa reunião em Estocolmo, na Suécia, em 2011, com mais nove colegas europeus, de forma a definirmos as boas práticas e indicações corretas para a utilização do Macrolane. Ainda em 2011, fui convidado para fazer tratamentos com Macrolane, no bloco operatório, seguido de palestra, no 9º Curso de Avanços em Cirurgia Plástica Estética, em Barcelona.

Acredita que “um rejuvenescimento bonito é aquele que não se dá por isso”. Dentro do seu permanente contacto com mulheres, esta tem sido uma preocupação? Em busca do melhor rejuvenescimento possível, há uma crescente procura por uma beleza natural e personalizada? Por outro lado, há uma consciência dos riscos?
Acredito que a beleza tem que ter naturalidade. Se alguém tem uma aparência “esquisita”, o propósito do procedimento e/ou cirurgia não foi alcançado. A beleza pode ser mais ou menos jovem, mais ou menos exótica, mas tem que ter naturalidade, respeitando a harmonia que deve existir entre as diferentes unidades estéticas da face. Por exemplo, um homem ou mulher muito altos com um nariz muito pequeno serão sempre pouco naturais. O mesmo se passaria com uma mulher com uma boca de “peixe”. Não tem beleza nem sentido estético. Na minha abordagem, a comunicação com o paciente é essencial, em que explico o meu conceito de rejuvenescimento natural, mostrando casos clínicos reais, para que as pessoas saibam o que esperar e tenham uma decisão consciente e segura.

Têm sido conhecidos vários casos de figuras públicas que se submeteram a cirurgias plásticas que as deixaram irreconhecíveis, como por exemplo Renée Zellweger ou Meg Ryan. O que corre menos bem nestas situações? Há uma inconformidade perante a perda da beleza e juventude?
Esses casos exemplificam o contrário deste conceito. Renée Zellweger foi despersonalizada com o afundamento dos olhos, perdeu o que tanto a caraterizava, os olhos vivos, e ficou mais velha. A esqueletonização das pálpebras provoca o envelhecimento em qualquer pessoa. Meg Ryan é indescritível. Se ela pediu que lhe fizessem aqueles lábios e face, o cirurgião deveria ter recusado pois é a antítese do embelezamento ou rejuvenescimento.

Algumas mulheres com cancro da mama, que se submetem a uma mastectomia, optam por fazer a reconstrução mamária, durante a cirurgia ou mais tarde. Também pelas suas mãos têm passado inúmeros destes casos. No domínio da plástica reconstrutiva, a sua sensibilidade é diferente?
Não, a reconstrução de uma mama ou de uma face deve ter sempre o objetivo de, para além de restaurar a função, como colocar um nariz a respirar, devolver a melhor estética possível à mama reconstruída. Devemos lutar sempre para que uma mulher amputada de uma mama, área de grande sensibilidade e sensualidade para a beleza feminina, tenha a melhor reconstrução estética possível.

Hoje o campo da medicina e da cirurgia estética começa a ser “invadido” por alguns profissionais que não têm a devida formação nestas áreas. Para o público que procura este tipo de tratamento, como é que é possível identificar os profissionais competentes, éticos e sérios?
As pessoas devem saber qual a especialidade dos médicos. É muito comum uma informação incorreta das clínicas ou na internet. Aconselho que todas as pessoas abram o site da Ordem dos Médicos e coloquem o nome do médico para averiguarem qual é a sua especialidade. Este pequeno passo evita grandes dissabores. Depois, não dar muita importância a “formações” de fim-de-semana, publicitadas pelos responsáveis de algumas clínicas, como competências únicas e avançadas dos seus profissionais. Por último, ver trabalhos efetuados pelos médicos que procuram.

Celebrar efemérides como o Dia Internacional da Mulher é aplaudir os avanços conquistados no feminino a nível económico, social e político. Contudo, as estatísticas continuam a revelar dados preocupantes de desigualdades. Do seu ponto de vista, por que é que estes dados continuam a ser tão alarmantes? O que falta fazer?
O século XX foi um século de ouro para as mulheres. Primeiro, o acesso ao mercado de trabalho que promoveu a sua independência em relação aos pais ou maridos. Depois, nos anos 60, a pílula que deu às mulheres, pela primeira vez na história da Humanidade, o controlo sobre o seu corpo. Por último, a revolução que a medicina e cirurgia plástica ajudaram a efetivar, que consistiu nas mulheres se manterem atrativas mais anos. Nos anos 20 e 30, as divas do cinema tinham no máximo 30-35 anos. Hoje, temos sex symbols com bem mais de 50 anos. O que falta? A meu ver, falta o acesso às posições de topo e mais bem remuneradas, mas o curso da história está traçado e as mulheres chegarão lá com todo o mérito.

Num momento em que se assiste a uma certa massificação deste tipo de tratamentos, o que é que os seus pacientes podem continuar a esperar de si? Que mensagem deixaria a um possível leitor que pondera submeter-se a estas técnicas?
Os pacientes podem esperar um profissional inconformado, sempre atualizado no sentido de oferecer o estado da arte aos seus pacientes. O meu conceito de beleza tem sempre a naturalidade como premissa obrigatória, e quem me procura deve ter essa certeza. Diria ao leitor para se informar bem, porventura recorrer pelo menos a dois médicos antes de efetuar qualquer procedimento, ver casos clínicos e decidir com segurança e consciência.