Os números foram revelados hoje pela diretora do Instituto Nacional de Sangue de Angola, Luzia Dias, admitindo que a atual “rotura” era “inevitável” porque se “ultrapassou tudo o que se pensava que podia acontecer”, sobretudo na província de Luanda, que conta com mais de 6,5 milhões de habitantes.

“Nunca houve tantas pessoas com malária, tantas crianças nos bancos de urgência, como tem havido agora”, reconheceu Luzia Dias, em declarações à rádio pública angolana, tendo recordado que só no caso da malária o pico da doença acontece por norma em maio, após as chuvas, “mas nunca com esta dimensão”.

“Há muito menos pessoas a doar sangue”, enfatizou a responsável.

A epidemia de febre-amarela, que desde dezembro já matou 178 pessoas em Angola, também está a afetar a recolha benévola de sangue, tendo em conta a campanha extraordinária de vacinação lançada pelas autoridades de saúde e que só em Luanda, nas últimas semanas, já chegou a mais de cinco milhões de pessoas.

“A vacina contra a febre-amarela também e um fator limitante porque só podem dar sangue ao fim de 30 dias”, explicou Luzia Dias, recordando que também os doentes com malária estão impossibilitados de o fazer.

A falta de sangue – e de dadores regulares – tem levado às sucessivas campanhas de alerta por parte das autoridades, que também reconhecem o negócio que começa a surgir à volta da dádiva e à porta dos hospitais.

“Há sempre pessoas que se aproveitam da situação para tirarem proveito. Mas muitas vezes os familiares [de doentes a necessitarem de transfusões] é que contactem pessoas que estão na rua e pagam, por receio de darem sangue”, admitiu a diretora do Instituto Nacional de Sangue angolano.

De acordo com Luzia Dias, bastaria que dois por cento da população angolana, que ronda os 24 milhões de pessoas, fossem dadores benévolos, regulares, para suprir a falta de sangue no país.