Depois da Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, está agora a dirigir um centro de investigação na Universidade Estadual da Pensilvânia. Como descreveria este momento da sua carreira?

Este é um momento diferente, embora com algumas semelhanças com momentos anteriores. Fui inicialmente incluído numa pequena lista de candidatos ao cargo pela comissão universitária encarregue do preenchimento da vaga e acabei por ser o candidato selecionado, penso que devido ao meu percurso passado e à visão de futuro apresentada. Talvez valha a pena referir algo sobre o cargo, que é o de Chair em Design Innovation (Catedrático de Inovação e Projeto) e de diretor do SCDC-Stuckeman Center for Design Computing (Centro de Investigação em Computação Aplicada ao Projeto), um dos centros de investigação da Escola de Arquitetura e Arquitetura Paisagista que inclui urbanismo e algumas áreas de design e se inclui no Colégio das Artes e Arquitetura. O cargo e o centro foram criados pelo legado em testamento dum antigo aluno da escola com a missão específica de promover a inovação e o desenvolvimento económico e social através da investigação em novas tecnologias aplicadas à conceção em arquitetura, urbanismo e design. A minha contratação deveu-se à experiência de investigação e ensino nesta área que adquiri primeiro no MIT, aqui nos Estados Unidos e, depois, no IST e na FA da Universidade de Lisboa, em Portugal, que se pautou por uma determinada filosofia e se traduziu em resultados de investigação com algum impacto económico. Esta filosofia inclui vários princípios.

IMAG0249Um deles é a inclusão do ensino das novas tecnologias desde cedo na formação de arquitetos, urbanistas e designers, a par das tecnologias tradicionais. Desta forma os futuros profissionais adquirem uma capacidade de selecionar e usar a tecnologia mais adequada a cada problema de projeto, permitindo-lhes o desenvolvimento de soluções inovadoras, onde às vezes a inovação é a opção por soluções tradicionais, por paradoxal que possa parecer. Desta forma não se exclui ninguém de uma possível solução, promovendo-se a inclusão social. Por exemplo, a solução de projeto pode fazer uso de tecnologias tradicionais como a construção em terra, mas o uso de novas tecnologias de projeto pode permitir novos usos dessa tecnologia, assegurando empregos em áreas tradicionais e inovadoras simultaneamente. O resultado pode ser um tecido produtivo extremamente rico e diversificado em termos de sofisticação, mas também em termos de adaptação a variações do contexto económico, evitando grandes ruturas.

Outro princípio é a assunção do conhecimento como um todo. Isto é, a divisão em áreas científicas, resultante do aumento de conhecimento e consequente especialização, é artificial e, podendo ser útil e mesmo necessária na gestão de recursos, é prejudicial na resposta a problemas que exigem soluções integradas. Por este motivo, deve contrariar-se tal divisão, promovendo-se a formação de profissionais com conhecimentos diversificados e a integração de diferentes profissionais em situações e espaços partilhados. Por exemplo, nos programas curriculares universitários, deve existir um leque de disciplinas teóricas optativas que permita a formação de profissionais com conhecimentos ligeiramente diferentes, com alguma sobreposição com profissionais de outras áreas e capazes de com eles dialogar. Da mesma forma, devem existir disciplinas práticas com a participação de alunos de diferentes áreas que se organizem em equipas pluridisciplinares para resolução de problemas complexos. Estou a lembrar-me de um projeto em que participei que incluía alunos e professores de medicina, arquitetura  e engenharia. Tratava-se de desenvolver um modelo matemático e geométrico do comportamento dinâmico da coluna vertebral para ensaiar soluções antes da intervenção cirúrgica com introdução de próteses em doentes com problemas de coluna. Os médicos forneciam os resultados da ressonância magnética do doente, com os quais os arquitetos criavam um modelo geométrico tridimensional do corpo; por sua vez, os engenheiros usavam este modelo para estudar o comportamento estático e dinâmico do mesmo enquanto estrutura, ensaiando diversas soluções de prótese em materiais com diferentes propriedades, até se achar a mais indicada, resultado que era depois fornecido aos médicos.

Um terceiro princípio, é desmistificar a ideia que cada profissional só pode fazer exatamente aquilo para que foi treinado, sendo um falhanço quando não o consegue, já que o contrário pode ser desejável. Por exemplo, pegando no exemplo anterior, um arquiteto e um engenheiro não têm necessariamente que trabalhar em projetos de edifícios, podendo trabalhar em problemas que a um nível concreto parecem muito diferentes mas que a um nível abstrato e até filosófico podem ser semelhantes. O corpo humano é a nossa primeira casa neste mundo e enquanto tal está sujeito às mesmas leis da gravidade. Ver a realidade por este prisma permite potenciar o contributo à sociedade e a sensação de realização pessoal.

O quarto princípio está relacionado com a colaboração. A ênfase deve estar na colaboração, não na competição. É enquanto colaborarmos que podemos descobrir soluções adequadas para os problemas que nos afetam. Se a única coisa que fizermos for competir, nunca teremos oportunidade de descobrir tais soluções. A colaboração deve existir ao nível das equipas dentro de cada instituição, mas também entre equipas de instituições diferentes. A colaboração reduz o esforço e permite otimizar os recursos.

O quinto princípio prende-se com a transversalidade entre as instituições de ensino e a investigação e a sociedade onde se inserem. Deve ser a leitura da realidade que deve alimentar a formação e a investigação, de modo a assegurar que se formem profissionais adequados às necessidades da sociedade, capazes de nela se inserir e para ela contribuir. Isto facilita que os resultados da investigação financiada pela sociedade se traduzam em benefícios sociais. Não quer isto dizer que as instituições só devam fazer investigação aplicada. Não, a investigação fundamental é absolutamente necessária, embora os benefícios sociais a que conduzem possam não ser imediatos. É graças às leis da gravidade de Newton descobertas no século XVIII que hoje conseguimos construir edifícios mais arrojados e em locais impossíveis de construir na altura.

O último princípio que gostaria de salientar, é a ética. A ética é o cimento que cola todos os outros princípios. Sem ética tudo se desagrega, é impossível colaborar, mas também não é possível competir. Por exemplo, uma empresa que consiga um lugar de destaque no tecido produtivo de um país por fuga aos impostos, terá muita dificuldade em competir no plano internacional. A fuga aos impostos é a ausência de colaboração, traduz-se no uso de recursos para os quais não contribuímos. Não podemos competir porque na verdade não nos destacamos pelo valor acrescentado do produto mas pelos custos de produção mais baixos por não pagarmos impostos. Tal como nas empresas, a ética é fundamental nas instituições que se dedicam à investigação.

Voltando à questão que colocou, são estes princípios que apliquei no meu trabalho em Portugal que desejo aplicar aqui. Encaro este momento na minha carreira como mais uma oportunidade para os aprofundar, num país que tem aparentemente mais recursos que Portugal, embora esta diferença não tenha necessariamente de se traduzir numa vantagem. A nossa missão de investigadores é trabalhar com os recursos existentes, pois fazem parte de realidade onde nos inserimos.

Penso que um dos maiores desafios na minha nova posição será a construção de uma equipa de investigação coesa a partir dos elementos existentes, mas também de novos elementos que possam vir a ser contratados. A sociedade norte-americana tem uma ênfase grande no individualismo, mas felizmente as suas instituições universitárias pautam-se por um elevado sentido de ética, o que permite ultrapassar a característica anterior.

O mundo global trouxe mudanças no mercado do trabalho, filtrando profissionais diferenciadores e reforçando o individualismo de cada um. O ingresso ou recolocação no mercado é cada vez mais exigente?

A resposta a esta pergunta fundamenta-se no que disse atrás sobre multidisciplinaridade,  colaboração e realidade. É essencial formar IMAG0299profissionais diversificados e flexíveis, capazes de trabalhar com profissionais de outras áreas e capazes de aplicar os conhecimentos adquiridos a outras realidades. Estes profissionais devem manter-se abertos ao crescimento pessoal, a aprender a operar novas técnicas e em novas realidades. Colaborar é essencial, estender a mão para pedir ajuda e para ajudar. Isto significa também que a sociedade deve estar atenta à realidade e se a realidade inclui um núcleo de pessoas com menos formação numa dada área, há que incluir este facto como um dado quando se equaciona o problema. Por exemplo, se projetamos para uma região, usar técnicas construtivas que possam usar a mão de obra local é uma solução inteligente. Isto pode significar usar técnicas locais, mas também introduzir novas técnicas que possam ser sustentáveis no futuro, que possam ser apropriadas e incorporadas na sociedade local. A exclusão social deve ser evitada a todo o custo, pois não é sustentável, conduzindo a ruturas que afetam negativamente todos, incluídos e excluídos. Há que trabalhar nos dois sentidos, perceber a realidade, as valências da “mão de obra” (todos somos mão de obra) existentes para, a partir delas desenhar novas realidades, mas a mão de obra deve permanecer aberta a aprender. O arquiteto deve pensar no uso de soluções construtivas locais, mas os operários locais devem estar disponíveis para aprender novas técnicas construtivas.

 

Segundo dados mais recentes, Portugal apresenta uma taxa de desemprego jovem que ultrapassa os 30%. Apesar de ser um valor preocupante, trata-se de um número que tem vindo a diminuir. Acredita que a juventude tem sido uma das prioridades nacionais?

Acho que de uma forma ou de outra a juventude tem estado presente no cabaz das preocupações. Acho também que os problemas da juventude não se resolvem abordando-os apenas como problemas da juventude. Estes problemas são o reflexo de problemas a outros níveis. Existe maior desemprego jovem porque a sociedade e a economia não conseguem criar novos empregos, logo não é possível absorver os novos entrantes no mercado de trabalho. O problema resolve-se criando novos empregos. Os jovens têm a desvantagem da menor experiência mas têm a vantagem da formação mais atualizada. É importante criar um espírito empreendedor nos jovens, para que não procurem apenas emprego mas o possam criar também. Este espírito empreendedor é absolutamente necessário e não deve existir só nos jovens, já que os mais velhos também podem ser empreendedores. Existem, no entanto, “tradições” na sociedade portuguesa que provocam entraves a este mecanismo. A promoção das ideias e das pessoas deve ter como base o mérito. Só assim é possível garantir que as boas ideias e as pessoas melhor preparadas possam singrar e assim ajudar todos as outras.

Num momento particularmente difícil para os arquitetos portugueses, muitos deles a emigrar por falta de oportunidades, é fundamental uma concertação de organismos públicos e privados em prol de um mesmo objetivo?

A emigração não tem que ser encarada como algo absolutamente negativo, se for um recurso transitório que permite à sociedade adaptar-se. As fronteiras são uma construção artificial. Devemos encarar o mundo todo como a nossa verdadeira casa. É difícil para uma sociedade numa dada região, coincidente com um país ou não, estar em permanente crescimento. Logo, a tendência é para que haja movimentos de pessoas no sentido das regiões com uma economia mais pujante, mas as regiões-alvo da migração vão mudando. Não quero com isto dizer que não deva ser feito um esforço no sentido de assegurar uma economia pujante em cada local. É claro que deve. Até porque se existem grandes assimetrias, a situação não é sustentável. Repare, existe hoje um fluxo migratório muito grande em direção a um número reduzido de países. Países esses que seguem uma política onde as forças de competição são superiores às forças de colaboração. Isto não faz sentido nenhum. Por exemplo, massacraram-se os países do sul da Europa (não quero com isto dizer que não tenham havido forças internas negativas que os enfraqueceram também), destruindo-se a sua capacidade de emprego e provocando uma sobrecarga sobre os países do norte, alvo das migrações consequentes. Até que ponto vão aguentar sem também eles entrarem em rutura? Que investimentos são necessários para as evitar ou consertar? Sobre todos os sentidos, não teria sido melhor uma concertação de esforços no sentido de assegurar o emprego nos países do sul? Muito provavelmente, ao fim de alguns anos, o investimento seria mais reprodutivo se efetuado nesse sentido. Repare que até do ponto de vista ambiental não faz qualquer sentido; uns países ficam sobrepopulados e outros despovoados.

Voltando à questão da emigração, aceitando que ela seja impossível de evitar por completo, ela pode até trazer vantagens e isso é particularmente verdade no caso da arquitetura. Permite a disseminação cultural, de uma certa forma de fazer arquitetura. Permite que aos que temporariamente se ausentam aprendam novas realidades e as tragam posteriormente, enriquecendo o léxico de processos e soluções. Permite estabelecer laços afetivos entre os países de origem e de destino da migração, os quais se podem traduzir depois em intercâmbio cultural, económico, etc. Voltando à ideia das fronteiras serem artificiais, a tecnologia hoje já permite que as pessoas possam viver num país e trabalhar em, ou para outro. Já permite também que as separações não sejam tão dramáticas, que as pessoas possam permanecer emocionalmente conectadas, apesar de fisicamente ausentes.

Num país com a dimensão continental dos Estados Unidos é muito frequente as pessoas mudarem de estado em função do seu trabalho. Porém, as fronteiras não são rígidas, as migrações internas não assumem os contornos dramáticos que adquirem na Europa e há muito que são consideradas naturais em função dos ciclos económicos. Quando as fronteiras se esbaterem mais, o mesmo acontecerá na Europa. Infelizmente hoje, com o recrudescimento dos nacionalismos, parecem estar a acentuar-se, mas quero acreditar que é um fenómeno temporário. De qualquer modo, volto a acentuar que as políticas devem evitar as grandes assimetrias económicas.

Uma vez que no momento atual contacta diretamente com o ensino e a formação americana ao nível da arquitetura, que diferenças consegue estabelecer em relação ao sistema de ensino português nesta área?

Acho que é preciso analisar a questão a dois níveis. O primeiro nível é o do ensino universitário em geral. Nos Estados Unidos há muito que existe uma flexibilização da formação, com cursos flexíveis com base em sistema de créditos que permitem formar profissionais com características ligeiramente diferentes e promovem a mobilidade. Por exemplo, efetuar um grau numa escola e o mestrado noutra. Foi este sistema flexível que se procurou implantar na Europa com a Reforma de Bolonha, mas os resultados práticos ainda são escassos. Muita coisa mudou na forma, mas no conteúdo pouco mudou. Por exemplo, dividiu-se a formação superior entre uma licenciatura de três anos e um mestrado de dois anos, mas criaram-se os mestrados integrados que são na prática idênticos às antigas licenciaturas de cinco anos. Isto deveu-se à exigência de algumas associações profissionais em assegurar que alguns cursos continuassem a ser subsidiados durante os cincos anos de formação, mas na prática reduziu a flexibilidade e a mobilidade e é fundamentalmente injusto já que uns cursos são subsidiados e outros não. É um resquício do corporativismo do Estado Novo. A arquitetura está entre os cursos que possuem um mestrado integrado. Houve, no entanto algum progresso e com tempo mais alguns progressos haverão.

O segundo nível é o do ensino da arquitetura. Este é muito idêntico nos dois países a vários níveis. Um deles é a formação do arquiteto ter como base fundamental as disciplinas de projeto, nas quais os alunos têm de conceber um edifício ou um plano urbano de complexidade crescente com os anos. No entanto, existem diferenças, já que nos Estados Unidos dentro de cada ano, os professores de diferentes turmas podem oferecer aos alunos problemas de natureza diferente para resolver e em Portugal existe tendência para o problema ser o mesmo. Existe depois uma tendência para o ensino ser mais teórico em Portugal e mais prático nos Estados Unidos. Por exemplo, é frequente aqui nas cadeiras de projeto os alunos construírem protótipos funcionais das suas propostas, como o modelo parcial de um sistema de fachada, o que é mais raro em Portugal. Depois, existem diferenças relacionadas com os sistemas construtivos prevalecentes em cada país. Em Portugal, a construção em betão e tijolo é mais barata, nos Estados Unidos, é a construção em aço ou madeira. Existem ainda diferenças nas linguagens formais, reflexo de outras diferenças culturais. No entanto, diria que existem muitas semelhanças entre os dois casos. Primeiro porque houve uma tendência de homogeneização da arquitetura com o movimento moderno que só recentemente está a ser contrariada com a sensibilização crescente para atender às diferenças regionais em termos de clima, recursos naturais, cultura, etc. E depois, porque ambos os países se inserem na esfera da cultura ocidental. Se quisesse apontar outra diferença diria que talvez os Estados Unidos sejam mais abertos às inovações tecnológicas e Portugal às inovações formais.

Enquanto profissional, qual continuará a ser a sua linha de atuação no sentido de transmitir o melhor que sabe e que aprendeu aos seus alunos, quer seja em Portugal ou nos EUA?

A minha atuação será no sentido da aplicação dos princípios que enunciei antes. Pretendo antes de mais sensibilizar os alunos para os problemas com que a humanidade se debate atualmente, procurando com eles descobrir de que forma os arquitetos, os urbanistas e os designers podem contribuir para a resolução de tais problemas. Estes problemas incluem o aumento assimétrico de população, a urbanização crescente, as alterações climáticas, a subida do nível das águas, a escassez de recursos naturais, como a água potável e os alimentos. Mas também problemas de natureza mais política e cultural, como as assimetrias no desenvolvimento humano e económico, as migrações e o consumismo, para citar alguns. Depois procurarei sensibilizá-los para a necessidade de fazer uma leitura correta do contexto para onde estão a trabalhar, atendo às especificidades locais. Como qualquer arquiteto sabe, o objetivo de qualquer obra construída é albergar pessoas a executar determinadas funções num dado local. É necessário para isso compreender as pessoas, a raiz cultural das suas tarefas e estudar o local em profundidade de modo a maximizar a satisfação das necessidades e a minimizar o uso de recursos. No meu caso em particular, como diretor do SCDC, a minha missão é estudar de que forma as novas tecnologias podem ajudar a alcançar tais objetivos. Acredito que o ambiente universitário da Universidade Estadual da Pensilvânia é propício a este fim, já que existe uma cultura de interdisciplinaridade e de inovação muito grande. A Penn State é uma das universidades americanas classificadas como Research 1, isto é, encontra-se na linha da frente da investigação. Por exemplo é uma das universidades que mais investigação desenvolve para o Departamento de Defesa americano. Será interessante estudar de que forma a tecnologia desenvolvida para fins bélicos poderá ser usada para fins pacíficos, nomeadamente, para a construção de edifícios e cidades mais sustentáveis, com menor impacto ambiental, contribuindo para encontrar respostas para os problemas que afetam a humanidade.

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