“GOSTO DO QUE FAÇO, É A MINHA PAIXÃO”

“Acho que muito do que faço se associa a uma certa ingenuidade, pois acredito que posso contribuir para ajudar “a mudar o mundo”. Quem o afirma é Paula Vilarinho, uma profissional portuguesa que é reconhecida por diversos quadrantes. Fomos numa «viagem» com a nossa entrevistada e ficamos a conhecer um pouco mais da nossa interlocutora.

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Formada em Engenharia Cerâmica e do Vidro e doutorada em Ciência e Engenharia de Materiais, Paula Vilarinho é uma profissional reconhecida na sua área, nacional e internacionalmente. É presidente da Sociedade Portuguesa de Materiais (SPM), professora na Universidade de Aveiro e Investigadora do Laboratório Associado, Centro de Investigação em Materiais Cerâmicos e Compósitos (CICECO). Por que valores se pautam a sua vida pessoal e profissional em prol deste complexo currículo?

Há valores que estão presentes na minha vida que me foram transmitidos pelos meus pais e alguns excelentes educadores, e que, claramente, determinam o meu comportamento pessoal e profissional. Ética, caráter, dignidade, honestidade, honra, frontalidade, transparência, responsabilidade e comprometimento, são alguns dos valores com que me identifico e, pelos quais luto diariamente.

Do ponto de vista profissional há uns quantos outros aspetos comportamentais que julgo regerem o meu desempenho.

Para além de uma alguma “hiperactividade”, acho que muito do que faço se associa a uma certa Ingenuidade, pois acredito que posso contribuir para ajudar “a mudar o mundo”. Nas minhas atividades talvez haja também alguma ousadia, gosto pela diferença e mudança; na verdade sinto-me estimulada pelo desafio. Dizem que sou uma obcecada por tudo quanto faço, mas eu acho que é mais paixão, pois de uma forma geral gosto muitíssimo do que faço.

Está entre as cientistas mais importantes do mundo na área dos materiais cerâmicos, sendo considerada uma das cem mulheres do mundo que mais e melhor contribuíram para o desenvolvimento internacional desta engenharia, de acordo com o livro “Inspirational Profiles of Successful Women: Ceramic and Glass Scientists and Engineers”, escrito por Lynnette D. Madsen, diretora do programa em Cerâmicos da National Science Foundation dos EUA. O que significa esta distinção para si?

Uma enorme honra.

Considero que qualquer distinção é sempre um ato honroso, já que destaca alguém pelo seu contributo numa determinada área e circunstância. É sempre excelente e altamente motivador ver o nosso esforço e dedicação reconhecidos.

Esta distinção reveste-se para mim de relevância maior por diferentes razões.

Trata-se de um reconhecimento totalmente imparcial vindo de uma comunidade à qual não estou diretamente ligada e que tem origem num pais onde atualmente se desenvolvem as atividades de investigação e desenvolvimento de maior excelência e impacto mundial, os Estados Unidos da América.

É um reconhecimento oriundo num pais que pratica e preconiza a meritocracia, ou seja, promove a excelência, valoriza a diferença e promove com base no mérito; valores estes nos quais acredito, e pelos quais tento pautar a minha vida e transmitir aos que me rodeiam; mas infelizmente “escondidos” ou “esquecidos” no nosso país e na carreira científica.

Este reconhecimento é ainda importante, porque me permite transmitir às mulheres cientistas e profissionais de engenharia portuguesas mais novas, que a excelência, ética e dedicação, mesmo no feminino, acabam por ser reconhecidas.

Esta distinção é também um reconhecimento para o país e para a Universidade de Aveiro. Como está a engenharia e o desenvolvimento da ciência em Portugal?

Embora me considere do ponto de vista profissional uma cidadã do mundo, sou portuguesa. Fiz toda a minha carreira associada à Universidade de Aveiro e foi esta Universidade que contribuiu para o que sou hoje como cientista e potenciou o meu desempenho. Deste modo, qualquer distinção profissional, que me seja atribuída, será também, no meu entendimento, uma distinção para a Universidade de Aveiro. O mesmo se aplica ao pais, claro está.

Sou Engenheira de formação de base. E se há coisas em que acredito, uma delas é que não há desenvolvimento sem Engenharia. Assim sendo, do meu ponto de vista, o Futuro da Engenharia é brilhante. E Portugal não deverá escapar a este Futuro. Portugal tem uma reconhecida tradição em Engenharia, a nível de formação e prática, na qual se apoiam as grandes e médias empresas de Portugal. Portugal tem excelentes escolas de Engenharia, formando profissionais a exercerem em algumas das maiores empresas do Mundo. No entanto, por razões várias, a profissão de Engenharia não está a ter na sociedade o devido reconhecimento. É sobejamente reconhecido que a escolha por parte de estudantes do ensino secundário das áreas das ciências exatas, cruciais na formação de um Engenheiro, não são, atualmente, suficientemente atrativas. Mas há um outro aspeto a ser considerado (para além da educação em Engenharia) e que tem a ver com a necessidade de “evolução” da indústria nacional para indústrias mais avançadas e com base em tecnologia de ponta. Julgo que a “quantidade” e a “qualidade” de tecnologias desenvolvidas, com base na investigação científica permitirá potenciar esta transformação da indústria nacional; aqui os atores de geração de conhecimento e tecnologia têm um papel fundamental. Há inúmeras iniciativas neste sentido no país, que estão a dar os seus frutos, com um número cada vez maior de “start ups” criadas; mas, mais uma vez, uma congregação de esforços e uma estratégia definida, independente do poder político, poderá ajudar a “Engenharia Portuguesa” a não perder este Futuro.

Apesar de considerar que o Futuro da Engenharia é brilhante e com enorme potencial económico, é também claro que num mundo global a competição é feroz e há alguns mais bem posicionados do que outros para colherem os melhores frutos. Tendo isto em consideração e as vantagens da pequena dimensão do nosso pais, julgo que a definição de estratégias a longo prazo, claras, e independentes do poder político (mas com ele concertado), ajudarão a modernizar a Engenharia (no sentido lato) e a Indústria nacional, tornando-a mais competitiva a nível mundial. Aqui há sem dúvida um grande desafio para organizações como a Ordem dos Engenheiros, a Sociedade Portuguesa de Materiais (SPM) e outras idênticas, para serem motores desta mudança e garante dos interesses dos profissionais de Engenharia. Por estas razões e por acreditar que organismos como a Sociedade Portuguesa de Materiais (SPM) podem contribuir e têm mesmo responsabilidades desta natureza que aceitei o desafio de presidir esta Sociedade.

A Ciência Portuguesa (como a conhecemos hoje) é relativamente jovem e o seu grande “boom” ocorreu a partir dos anos 80. Os resultados da política de investimento em ciência são bem visíveis. A Ciência Portuguesa é hoje reconhecida internacionalmente à luz dos mais altos standards de excelência científica internacional. Contudo, para preservar e promover estes standards, e potenciar o investimento que tem sido feito, é fundamental, do meu ponto de vista, manter-se o investimento na ciência, definir, implementar e cumprir estratégias (de acordo com os interesses nacionais) e acima de tudo promover a excelência.

O livro destaca uma centena de mulheres cujos percursos profissionais na área dos materiais cerâmicos e de vida constituem uma inspiração e um exemplo a seguir. É uma líder. E é mulher. Alguma vez sentiu que o seu trabalho não foi devidamente valorizado pelo facto de ser mulher?

Esta é uma questão complicada, na medida em que a descriminação, qualquer que ela seja, pode ser muito difícil de quantificar. Para mim a questão torna-se ainda difícil quando intrinsecamente acredito, que do ponto de vista profissional, Homem e Mulher, são iguais e a sua complementaridade leva a resultados excelentes. No entanto, não é bem esta a realidade. E esta realidade têm-se tornado cada vez mais óbvia à medida que as minhas responsabilidades profissionais têm vindo a aumentar.

Sinto-me muito bem em ser Mulher e uma Mulher na área da Engenharia e Ciência de Materiais. Mais do que o facto de ser Mulher, penso que é principalmente o meu carácter e a minha personalidade que têm definido a minha carreira profissional.

No entanto, julgo que mesmo no século XXI ser uma Mulher trabalhadora continua a ser um desafio. Apesar deste assunto da paridade de géneros, associada às diferenças sociais entre Homens e Mulheres, ser secular, a verdade é que a igualdade de sexos não existe. Numa base competitiva sinto que nós Mulheres temos que desempenhar de uma forma geral muito melhor do que os Homens, para, eventualmente, sermos consideradas identicamente capazes.

Acredito que sim, que existem “Boys Clubs”, caso contrário qual seria a necessidade das medidas auto intituladas de “descriminação positiva”? Embora considere que esta medida é em si uma verdadeira descriminação, espero sinceramente que ajude a provar que nós Mulheres somos perfeitamente capazes de assumir qualquer lugar de liderança, tal como os Homens, contrariamente a muitas convicções antigas.

Nós Mulheres trabalhadoras, cometemos inconscientemente erros que ajudam a sabotar as nossas carreiras. Somos muitas vezes muito mais criticas de nós próprias do que o necessário e temos dificuldade em assumir os créditos quando é devido. Estas “auto-sabotagens” impedem muitas Mulheres de alcançarem os seus objetivos profissionais. Por outro lado, e como provado em estudos científicos, a ausência de “role models” femininos, necessários para a construção de uma identidade, tem sido considerada uma das maiores barreiras para a paridade de género a nível de liderança [Ruth H.V. Sealy and Val Singh, The importance of role models and demographic context for senior women’s work identity development, International Journal of Management Reviews, 2009].

No que diz respeito à Ciência, Mulheres e Homens têm papéis idênticos. O envolvimento das Mulheres na ciência é antigo, mas muitas vezes não devidamente reconhecido. Considero que as Mulheres na Ciência e na Engenharia têm ainda um papel e uma responsabilidade adicional de provar as competências das Mulheres.

Decidiu seguir e apostar numa carreira de investigação na área de materiais. A engenharia ainda é considerada um mundo só (de) para homens?

Sim, não há duvida que há ramos da Engenharia que continuam maioritariamente masculinos. Apesar de haver cada vez mais mulheres em profissões tradicionalmente consideradas masculinas, a Engenharia continua a ser uma área do domínio masculino. No entanto, dentro da Engenharia existem áreas mais masculinas do que outras. Materiais, a minha área de conhecimento, envolve já um número razoável de profissionais femininas.

Além de presidente da Sociedade Portuguesa de Materiais e professora da Universidade de Aveiro acumula outras funções de liderança que conjuga diariamente com os papéis que assume naturalmente enquanto mulher. É fácil fazer esta gestão da vida profissional com a vida pessoal?

Não, de forma alguma é fácil.

Esta dificuldade em gerir profissão e vida privada é válida para Homens e Mulheres, apesar de que, numa sociedade em que há tradicionalmente atividades familiares, que são quase exclusivamente do foro feminino, esta dificuldade é agravada. No entanto, há quem o faça melhor e quem o faça pior. Conheço Mulheres, por quem nutro admiração, que são excepcionais nesta área.

No que me diz respeito, há um sentimento, quase constante, de culpa que assiste os meus dias: ou a família ou o trabalho estão ser desconsiderados. Mas para além deste sentimento, uma incapacidade quase nata de usar o “poder do não” e uma constante necessidade de atividade, torna esta gestão ainda mais difícil. Mas ao longo do tempo tenho aprendido a viver com estas “pressões” e tento cada vez mais seguir algumas regras (fáceis de identificar e difíceis de implementar), e que distinguem alguns dos que, com carreiras idênticas à minha, são excelentes. A auto disciplina é fundamental. A capacidade de definir prioridades, de distinguir o que é essencial do que é urgente, e de entender que de forma alguma é possível agradar a todos, ajudam muitíssimo. A minha experiência também me diz que a definição de objetivos a longo prazo, juntamente com a capacidade de adaptação à mudança e a persistência, também ajudam na gestão do dia à dia.

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