Zygmunt Bauman, o sociólogo que nasceu em 1925 em Poznan, na Polónia e morreu esta segunda-feira em Leeds, onde estava radicado há vários anos, teve direito a uma fama e a um reconhecimento internacionais que estão muito para além da legitimação concedida pelos seus pares, no interior das ciências sociais. No lugar mais central da obra deste polaco que se refugiou em Inglaterra em 1971, fugindo às purgas do regime comunista, e aí fez toda a sua carreira académica (foi professor na Universidade de Leeds), está o conceito de “sociedade líquida”. Foi esta a sua grande “invenção” de sociólogo, que ele aliás explorou à exaustão, aplicando-a muitos domínios. Foi assim que, depois da Liquid Modernity, em 2000, veio o Liquid Love, em 2003, e a categoria da “liquidez” passou a atravessar quase todo o seu trabalho posterior.

A ideia de uma sociedade líquida ganhou assim o poder de dar uma configuração à nossa época, tal como Bauman a vê: uma época caracterizada pelo triunfo da fluidez, do precário, do transitório, do permeável e do que não se deixa apreender com segurança. Para ele, esta é a condição da sociedade em que vivemos, em todas as suas dimensões, tanto estruturais como super-estruturais, tanto no plano material e económico, como no plano da vida afetiva e intelectual. De certo modo, Bauman, fazendo da noção de liquidez um instrumento de diagnóstico do nosso tempo (e retomando assim a tradição dos diagnósticos sociológicos, à maneira de Simmel), transpôs para a nossa época um princípio semelhante àquele que tinha sido enunciado por Marx e Engels, no Manifesto do Partido Comunista: “tudo o que é sólido dissolve-se no ar”. Nesta pespetiva, a sociedade líquida e tudo aquilo que lhe corresponde (incluindo as manifestações dos sentimentos) dão uma configuração total à nossa época: ela abarca fenómenos tão diferentes como o consumismo, a imigração, a globalização, o desmoronamento das ideologias. E é porventura essa vontade de explicação total que torna a tese de Baumann tão atrativa para um público leigo, mas ao mesmo tempo tão suspeita para os sociólogos.

Em 1989, Zygmunt Bauman já tinha conhecido um primeiro momento de grande sucesso, para além das fronteiras académicas e disciplinares. Nesse ano, publicou um livro que teve uma enorme irradiação: Modernity and the Holocaust. Aí desenvolvia a tese (não propriamente nova) de que o programa de extermínio dos judeus levado a cabo pelo regime nazi foi um acontecimento consubstancial à modernidade, vista tanto na sua dimensão técnico-científica como político-ideológica. A este livro não são estranhas as contingências biográficas de Bauman, que escapou com a família (de origem judaica) para a União Soviética quando a Polónia foi invadida pelo exército nazi. Tal como não é estranha a grande parte da sua obra uma filiação marxista, posterior à Segunda Guerra Mundial, que Bauman nunca rejeitou totalmente, muito embora tenha integrado referências teóricas e métodos de análise bastante eclécticos e longe de qualquer ortodoxia ideológica.

Incidiu com muita intensidade nas questões relacionadas com a globalização e os refugiados. Foi, de certo modo, um sociólogo empenhado, na medida em que não quis apenas dar aulas, fazer ciência e elaborar teoria, mas também intervir de modo crítico, com palavras de denúncia, no estado do mundo. Nunca esteve do lado da teoria pura nem do academismo puritano. Preocuparam-no a pobreza, a exclusão, o triunfo de uma sociedade consumista. E, enquanto sociólogo, integrou essas questões nas suas análises, de uma maneira pouco habitual num universitário em Inglaterra. A tradição intelectual continental permaneceu nele como uma veia muito forte.

Numa altura em que a noção de pós-modernidade parecia ser já pouco produtiva, Bauman reactivou-a e deu-lhe um conteúdo sociológico mais preciso, capaz de abranger fenómenos que marcam os novos tempos, na passagem do século XX para o século XXI: por exemplo, o triunfo das relações laborais precárias, à medida que o trabalho intelectual se impõe sobre o trabalho material; e também o grande fenómeno das migrações e do terrorismo.

O sociólogo Zygmunt Bauman fez assim um percurso académico e intelectual determinado por uma relação muito estreita e empenhada com o presente, com o seu tempo. Em certa medida, ele quis configurar esse tempo nos seus movimentos, nas suas tendências e nos seus tropismos mais evidentes. Fê-lo recorrendo mais a instrumentos teóricos especulativos do que às análises empíricas. Foi, por isso, um sociólogo “impuro”. Ou, pelo menos, com uma enorme vontade de transpor limites disciplinares.

Em parceria com outros autores, estão também publicados em Portugal, também pela Relógio D’Água, Estado de Crise (2016, com Carlo Bordoni) e Cegueira Moral (com Leonidas Donski), ambos de 2016.