12

O CEBAL reporta o início da sua atividade cientifica em janeiro de 2008, com a contratação de quatro investigadores doutorados. A prioridade do CEBAL foi criar um laboratório de Biologia Molecular, que desse apoio à região, na área da biotecnologia agrícola. O apoio financeiro dos sócios, bem como do Município de Beja, foi e continua a ser importantíssimo. O CEBAL hoje em dia conta com uma equipa jovem de 32 investigadores, dos quais 11 doutorados, 18 mestres (7 a fazer doutoramento) e 3 alunos de mestrado. Os 5 grupos de investigação orientam as suas linhas de trabalho em resposta às necessidades da região, como opção estratégica fundamental para o estímulo à endogeneização do conhecimento tecnológico, e à sua conversão em realidades mais produtivas, inovadoras e competitivas. Esta estratégia tem permitido ao CEBAL o desenvolvimento de um perfil de especialização diferenciadora, científica e tecnologicamente, que se traduz no progressivo reconhecimento, por parte de outras instituições de I&D, empresas e entidades financiadoras, do potencial instalado. 23 projetos aprovados, quase 4 M€, 8 empresas envolvidas, várias associações de produtores e diversas unidades de I&D nacionais e internacionais.

Quais são as principais lacunas e dificuldades que ainda enfrentam atualmente na vossa orgânica quotidiana? Sente que esta vertente da Biotecnologia ainda carece de mais apoios dada a sua relevância?

O CEBAL enfrenta obviamente a necessidade de consolidação da sua estrutura técnico-científica, aumento do número de investigadores, ambicionando alcançar uma dimensão média com 70-80 investigadores.

As discrepâncias em termos de investimento público em I&D entre as várias regiões do país, e a ausência de medidas de discriminação positiva para as entidades que desenvolvem atividades de I&D em áreas de baixa densidade populacional, é uma realidade à qual o CEBAL não está indiferente, e não-alinhada com a Estratégia Europa 2020, que aponta para um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo. Ainda assim, o CEBAL numa conjuntura mais regional tem conseguido medidas de apoio à sua atividade, mas que não permitiram ainda o crescimento inicial espectável.

Em que ponto está o desenvolvimento do setor da Biotecnologia em Portugal e a té que ponto a Biotecnologia já está presente, nos alimentos e produção agrícola nacionais?

O setor tem tido um crescimento muito significativo. Nos últimos anos tem-se assistido a uma profunda alteração do setor agroalimentar, denotando-se elevado esforço de modernização, com mais aposta na inovação, na eficiência e sustentabilidade. Estas novas exigências associadas às tendências de consumo criaram uma nova dinâmica entre quem produz, quem transforma e a I&DT. Foi este incrementar de “valor em rede” que despoletou positivamente, a afirmação do setor da biotecnologia em Portugal, com imenso potencial de crescimento e afirmação futura.

Um dos pilares em que assenta a Estratégia para a Europa 2020 é o reforço da liderança industrial em inovação, estando previsto, neste quadro, um investimento em tecnologias-chave e um melhor acesso ao capital como forma de apoiar as PME. Nesta direção, a Biotecnologia assume-se como uma tecnologia facilitadora essencial, promotora de processos e materiais inovadores e sustentáveis?

No seguimento da questão anterior, a pressão exercida, sob a indústria, a diferentes níveis, potencia, e potenciará ainda mais a necessidade de aliança entre I&I, alicerçada na transferência do conhecimento e tecnologia. O setor da Biotecnologia terá também uma grande responsabilidade, como alias tem tido, na capacidade de potenciar o acesso a novos produtos, a tecnologias diferenciadoras e mais sustentáveis.

Quais os projetos de maior referência que o CEBAL tem vindo a desenvolver e de que forma têm tido os mesmos impacto?

Os projetos que o CEBAL desenvolveu ou desenvolve contribuem todos de igual modo para a estratégia institucional. Há obviamente projetos que pelo impacto que têm dentro de determinadas fileiras produtivas, são naturalmente referências. Para o setor Agroalimentar, uma referência será o projeto RefinOlea, financiado pela ADI, liderado pela União de Cooperativas Agrícolas do SUL, e que se centrou no desenvolvimento de novas estratégias de valorização do bagaço de azeitona. Outra referência no setor Agroflorestal é o projeto de sequenciação do Genoma do Sobreiro, liderado pelo CEBAL, num consórcio nacional alargado a várias instituições de Investigação, e cofinanciado pelo Programa INALENTEJO.

O CEBAL está a desenvolver um projeto denominado por ValBbio TecCynara. Quais os desideratos deste projeto? Que aplicações terá na vertente da Biotecnologia?

O CEBAL lidera o projeto ValBiotecCynara – “Valorização económica do Cardo (Cynara cardunculus): estudo da sua variabilidade natural e suas aplicações biotecnológicas”, em parceria com seis entidades do SCTN, nomeadamente Faculdade de Ciências e Tecnologia/Universidade Nova de Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Instituto Politécnico de Beja, Universidade de Aveiro, Universidade Católica Portuguesa: ICSViseu, e Universidade de Évora. Projeto financiado pelo Programa Alentejo 2020, no âmbito do Sistema de Apoio à Investigação Científica e Tecnológica, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

O ValBioTecCynara pretende promover economicamente o cardo através da avaliação da variabilidade genética natural de populações de cardo, distribuídos pela região Alentejo, no sentido da valorização dos seus perfis bioquímicos. Esta variabilidade natural está a ser explorada na área da valorização bio-farmacêutica, através da identificação das plantas com maiores quantidades de uma lactona sesquiterpénica, denominada cinaropicrina. O projeto está a desenvolver/otimizar procedimentos de extração, purificação e formulação de bioprodutos de cardo (matrizes poliméricas para revestimento de feridas crónicas e formulações biocidas). O perfil bioquímico e tecnológico (cardosinas e capacidade proteolítica) dos pistilos das flores será explorado na influência sobre as características finais de queijos DOP Alentejo (Serpa, Évora e Nisa), combinando inovação com os produtos tradicionais portugueses.

De que forma é que o ValBbio TecCynara assenta numa estratégia combinada para a valorização económica do cardo?

Portugal submeteu recentemente à União Europeia, nos termos e por imperativos regulamentares em vigor, um pedido de inclusão do extrato bruto tradicional de Cynara cardunculus na lista de enzimas alimentares autorizados na EU, para utilização em queijaria. O aprofundamento do conhecimento referente à variabilidade relativa da planta e perfis bioquímicos/enzimáticos é crítico para o melhoramento e sustentabilidade da queijaria tradicional, permitindo no futuro uma base para a certificação ou garantia das fórmulas enzimáticas usadas no fabrico de queijo.

Os indivíduos/plantas selecionados no ValBioTecCynara serão preservados, com o estabelecimento de um campo experimental de cardo (em instalação), como pedra basilar para futuras valorizações económicas do cardo. A abordagem integrada (folha e flor) potenciará esta cultura, associando-a a soluções tecnológicas de elevado valor acrescendo.

Quais são os grandes desafios de futuro do CEBAL? O que podemos continuar a esperar da vossa dinâmica de futuro?

O CEBAL irá continuar o seu caminho, com uma estratégia de desenvolvimento alicerçada na excelência das atividades de I&D, mas com um claro reforço da promoção da transferência de conhecimento e tecnologia. Em 2016 a equipa construiu um slogan, que simbolicamente aponta o caminho que já percorremos, e o desafio para o futuro “ 10 anos de Ciência para um Alentejo a Inovar”.