O que a levou a escolher a indústria farmacêutica?

Aconteceu por acaso. Tinha concluído o curso de Engenharia Química e queria começar a trabalhar. A oportunidade surgiu há cerca de 20 anos, sob a forma de Delegada de Informação Médica, desafio que achei interessante.

Passados estes anos, sinto que, apesar de inesperada, foi uma boa aposta. A indústria farmacêutica portuguesa é uma das áreas mais desenvolvidas a todos os níveis. É dos setores mais legislados e controlados, o que contribui para salvaguardar a transparência bem como os interesses dos doentes.

É também uma das áreas que mais tem contribuído para a sociedade portuguesa, não só de forma direta, através da contínua criação de postos de trabalho, como através de atividades menos visíveis, como sejam, o apoio à formação científica dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, etc.

Adicionalmente, o maior contributo da indústria farmacêutica continua a ser ao nível das contribuições financeiras para o Serviço Nacional de Saúde, não só através do pagamento de impostos, mas também na flexibilidade da sua postura nas discussões e negociações com o Ministério da Saúde.

A Sandra foi a primeira pessoa portuguesa a ser nomeada pela Boehringer Ingelheim para o cargo de Diretora-Geral. O que representou para si esta nomeação?

Primeiro, uma surpresa. Depois um enorme desafio tendo em consideração a conjuntura económica e financeira do país na altura, que se continua a refletir nas empresas. No entanto, o balanço é positivo e a empresa mantém um crescimento favorável, apesar dos eventuais constrangimentos.

Representou também uma enorme oportunidade, que me permitiu poder continuar a contribuir para o desenvolvimento da empresa no nosso país, assegurando o acesso dos nossos doentes à inovação.

Por último, representou e continua a representar, um enorme privilégio de liderar uma equipa empenhada e dedicada, que trabalha de forma incansável no sentido de assegurar que a Boehringer Ingelheim Portugal continua a atingir os objetivos a que se propôs.

O que faz a Boehringer Ingelheim diferente dos seus concorrentes?

Apesar de operar globalmente em todo o mundo e ter mais de 50 000 colaboradores, a Boehringer Ingelheim é acima de tudo uma empresa familiar de capitais privados, totalmente independente e que assim se tem mantido ao longo de mais de 130 anos.

O facto de não estar dependente das expectativas dos operadores de mercados bolsistas, permite-nos assegurar todos os anos um investimento sustentado em investigação e desenvolvimento, equivalente a cerca de 20% dos nossos lucros.

Num mundo altamente competitivo e em constante mudança, o valor dos produtos, dos serviços e das empresas sofre enormes pressões e só é possível criar e manter valor para os clientes através do desenvolvimento constante de novas soluções.

A nossa filosofia de valor através da inovação é o pilar essencial que nos distingue e a visão que contribuiu para o nosso crescimento.

Teve que abdicar de algo na sua vida pessoal para conseguir chegar ao lugar onde se encontra?

Abdicar propriamente, julgo que não. Penso que não passamos tanto tempo quanto gostaríamos com a família – e, provavelmente, nem tanto quanto eles desejavam. Tentamos compensar as ausências procurando assegurar qualidade na disponibilidade e por isso quando estamos, estamos mesmo.

É uma gestão difícil, como para qualquer pessoa que tem uma carreira e família, em que cada dia é uma aprendizagem.

Como é a sua rotina?

Tenho a certeza que é igual à de tantas outras pessoas: levantar, tratar dos filhos, levá-los à escola, vir trabalhar, regressar a casa, passar algum tempo com a família, trabalhar mais um pouco.

A diferença é que parte dessa rotina é constituída por frequentes viagens, nacionais e internacionais, o que requer maior planeamento e alinhamento. Mas tirando isso, é perfeitamente normal.

É a favor de políticas que acelerem mudanças no que diz respeito à inclusão de mais mulheres nas empresas, quais, por exemplo?

A questão não é assegurar mais mulheres nas empresas porque elas já lá estão. A questão é assegurar que têm as mesmas oportunidades de progressão e a mesma retribuição salarial que os homens nas mesmas funções – é aqui que considero que há ainda um longo caminho a percorrer.

Também me parece que medidas adicionais não resolvem o problema, pois já existe legislação nesse sentido que, na maioria das vezes, não é cumprida. Trata-se de uma questão cultural e as mudanças culturais demoram mais tempo. Mas penso que vamos assistir nos próximos anos a uma mudança radical com as mulheres a chegar cada vez mais rapidamente a mais funções e cargos de topo – não por imposição, mas por necessidade: é que já há vários anos que o número de mulheres tende a aumentar, bem como o número de mulheres com formação superior. Portanto eventualmente chegaremos a uma situação em que a escolha óbvia serão as mulheres. Provavelmente nessa altura teremos necessidade de uma lei de quotas para os homens.  Na Boehringer Ingelheim Portugal temos procurado acelerar este processo e nesta altura a equipa de direção, por exemplo, está praticamente equilibrada em termos de género.

A maior parte da sua carreira foi construída na Boehringer Ingelheim. É difícil imaginar-se em qualquer outro lugar?

A Boehringer Ingelheim não só é a empresa onde eu estou há mais tempo, como também tem sido a que me tem dado maiores oportunidades de crescimento. Mas eu também gosto de desafios e preciso de me sentir desafiada constantemente, de forma a poder continuar a evoluir.

Na sua opinião, qual é o conselho mais importante que as mulheres precisam ouvir hoje no local de trabalho?

Não permitam que as tratem de forma diferente. Acreditem em vocês e persigam os sonhos – mesmo os que parecem impossíveis de concretizar.