Medicina de precisão: a saúde do paciente de uma forma exclusiva

A medicina, tal como em outras áreas, encontra-se em constante mutação e jamais cessa a sua busca por novos tratamentos, metodologias e soluções. O potencial da Medicina de Precisão é enorme, conceito que permite entender por que motivos tumores com a mesma anomalia genética respondem ou não a terapêuticas alvo.

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Mas afinal quais são as reais potencialidades da medicina de precisão? Que avanços permite a mesma aos utentes/pacientes? Como vê este conceito a comunidade médica? São várias questões que se colocam sobre uma vertente que é um bem incontestável, até porque a constituição genética das pessoas assume-se como bastante variável e como consequência as doenças e respostas aos tratamentos também aportam um nível de diferenciação elevado. Assim, a medicina de precisão, procura descobrir o tratamento certo para o paciente certo, no momento certo.

A Revista Pontos de Vista foi conversar com quem sabe profundamente sobre esta matéria e falou com José Leal, Diretor Executivo da Ophiomics – Precision Medicine, que nos deu a conhecer um pouco mais da dinâmica e relevância da medicina de precisão e de que forma a mesma pode contribuir decisivamente para a qualidade de vida dos utentes, assumindo também que nesta área Portugal está bastante avançado relativamente a outros congéneres europeus.

Sendo um desafio enorme, a Ophiomics – Precision medicine foi edificada por dois investigadores, entre os quais o nosso interlocutor, do Instituto Gulbenkian Ciência que faziam investigação na vertente da genómica e bioinformática em oncologia, sendo que o click se deu quando “começámos a perceber que havia aqui um espaço de trabalho onde se podia inovar e criar novas soluções para ajudar e apoiar a medicina”, explica o nosso entrevistado, lembrando que depois de “termos começado a conceber toda a vertente tecnológica para criar e edificar este projeto, faltava ainda a componente médica e foi nesse momento que abordámos o Grupo Germano de Sousa, que coincidentemente estava a apostar na criação de uma oferta nesta vertente da oncologia e genómica. Isto permitiu-nos juntar contactos e forças para fundar a Ophiomics – Precision medicine e desenvolver novas soluções analíticas para apoiar a oncologia de precisão”, esclarece José Leal, soluções estas que estão já a ser disponibilizadas em Portugal na rede do Grupo Germano de Sousa.

Mas será esta vertente da medicina de precisão o futuro? O nosso entrevistado não tem dúvidas e assegura que é o presente e o passado, até pela constante busca de novos desafios, conceitos e metodologias que não cessa. “Estamos em permanente desenvolvimento”, assume o nosso interlocutor, lembrando que existem duas expressões muito utilizadas: medicina personalizada e medicina de precisão. A medicina sempre tentou tratar o indivíduo que sofre de uma qualquer patologia, num foco muito personalizado perante o doente. O problema é que não se conseguia tratar de forma muito precisa; o desenvolvimento tecnológico permite-nos hoje avaliar toda a componente genética, bioquímica, imunológica do indivíduo ao ponto que posso fazer a adaptação da minha abordagem terapêutica naquele indivíduo especificamente, e isto é a base da medicina de precisão, ou seja, não é só personalizada, mas também é precisa”, salienta o nosso entrevistado.

Interessa ainda compreender que no campo da oncologia, em particular porque o cancro é uma doença referente à nossa informação genética, e é importante perceber que a capacidade de ler essa informação genética “através de genómica e bioinformática podemos saber: como é o que o tumor se vai desenvolver? Quais os fármacos a que é sensível? Como está o doente a responder à terapia? Estará a recidivar? Entre outras questões fundamentais. Isto cria, naturalmente uma evolução inevitável da oncologia em particular, mas também da medicina em geral”.

Investimento com um desiderato claro 

Para compreender, a Ophiomics desenvolve serviços e disponibiliza soluções em genómica médica para apoiar o diagnóstico, deteção precoce, prognóstico, farmacogenómica e o seguimento clínico no contexto da doença oncológica e doenças crónicas. Estes testes são disponibilizados em Portugal através da rede Germano de Sousa. De que forma tudo isto se reflete na redução de custos no domínio da saúde? O nosso entrevistado é perentório e lembra que é importante realçar que a medicina de precisão promove formas de melhor a qualidade de vida e esperança de sobrevivência de pessoas que de outro modo não as teriam. “Conseguimos compreender que indivíduo vai beneficiar de determinado tratamento ou terapêutica, fornecendo meios ao médico e ao pagador para decidir onde é que o investimento mais se justifica. Este tipo de abordagem analítica permite-nos saber que quando «gastamos» o dinheiro será com a máxima probabilidade de sucesso”.

Alinhar players por uma estratégia 

Naturalmente que uma evolução neste sentido, só faz «sentido» se todos os players e agentes da indústria estiverem alinhados perante uma estratégia. Será que a comunidade médica é recetiva a estas evoluções? Obviamente que os profissionais de medicina assumem sempre a esperança de possuir e usufruir de novas ferramentas e metodologias para tratar pacientes, até porque são eles que «enfrentam» os doentes, aos quais têm de fornecer respostas. Se existe essa recetividade por parte da comunidade médica, existe também um ceticismo natural e saudável, “pois exigem e bem, dados muito convincentes dos diferentes ensaios clínico; quando estes entram na ordem das recomendações internacionais, então a comunidade médica fica muito mais recetiva”, salienta José Leal.

Ainda neste domínio, o nosso interlocutor recorda que existe aqui uma fronteira onde os resultados que estão em fase avançada de validação já podem ser úteis, “e aqui o médico nem sempre está preparado em termos tecnológicos para poder decidir se deve ou não de usar estes conceitos e metodologias. Daí que estejamos em contacto direto e próximo com os médicos com quem trabalhamos, discutindo em termos práticos o doente e a doença: o que vale a pena testar? Vamos descobrir novos caminhos terapêuticos? Este doente está recidivar? Entre outros cenários. Trabalhamos em grande proximidade com a comunidade médica”, esclarece o nosso entrevistado. 

“Portugal está na linha da frente” 

Em diversas áreas da medicina e investigação, bem como na aplicação de novas tecnologias, Portugal tem sido um exemplo claro a nível europeu. Esta vertente da medicina de precisão não é exceção e segundo José Leal, uma vez mais, “estamos no pelotão da frente. Estamos a falar em tecnologias analíticas, no nosso caso temos um conjunto de soluções para o doente à volta da biopsia líquida e dos estudos genómicos do cancros avançados, entre outras e isto é do mais avançado e moderno que se faz a nível mundial”, salienta, sem esquecer que em Portugal talvez a única área mais atrasada em relação a outros países passe pela discussão com o pagador. “Existe sempre a questão, seja o pagador privado ou público, sobre quando é que faz sentido pagar este tipo de soluções e existe esta reserva natural que o pagador normalmente tem e que convém melhorar”, ressalva.

A terminar, o nosso entrevistado relembrou que existem diversos desafios de futuro, sendo que os atuais passam pela internacionalização, “em que estamos a avaliar e a aprender a lidar com mercados externos – já exportamos tecnologia!”, realça, sendo que em Portugal o desafio principal passa por potenciar a relação com a comunidade médica e com o pagador. “Como é que demonstramos a estes dois players, comunidade médica e pagador, que este género de soluções faz sentido e melhora a vida do utente, bem como reduz custos. Este é o grande foco e para isso até iniciámos uma colaboração com o instituto superior técnico para avaliar e quantificar a relação custo/benefício destas tecnologias”, concluí José Leal, diretor executivo da Ophiomics – Precision medicine.

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