Nos últimos anos, o papel fisiológico da Vitamina D tem sido amplamente estudado. Estudos recentes ligam a também chamada “Vitamina Do sol” à prevenção de patologias tão diversas e graves como cancro, doenças cardiovasculares, diabetes e depressão. Essa crescente consciencialização tem resultado num aumento significativo de testes de doseamento de Vitamina D nos países desenvolvidos.

Um estudo liderado por uma equipa multidisciplinar de investigadores, entre os quais António Marinho, do instituto de ciências biomédicas Abel Salazar e do Centro Hospitalar e Universitário do Porto – Hospital de Santo António, concluiu que cerca de 78% da população estudada (dadores de sangue saudáveis) têm insuficiência de Vitamina D.

O mesmo estudo alerta ainda para a elevada prevalência de deficiência grave de Vitamina D, que afeta quase metade (48%) da população estudada. A percentagem de pessoas com insuficiência de Vitamina D flutua ao longo do ano, apresentando no verão o valor mais baixo (62%), e atingindo no inverno valores de cerca de 95%. Ainda assim, os valores encontrados no verão são surpreendentemente baixos, sugerindo que apesar de Portugal ser um país com muito sol e grande exposição solar, muitas pessoas não se expõem os dez a 15 minutos diários considerados suficientes para serem mantidos os níveis ideais de Vitamina D. O estudo alerta por isso para a necessidade de implementação de uma estratégia eficaz para prevenir a sua deficiência.  

Tomar ou não tomar suplementos de Vitamina D? 

Sabia que a Vitamina D não é uma vitamina mas uma hormona que atua no sistema e organismo humano? A Vitamina D é uma das hormonas responsáveis pela manutenção dos níveis de cálcio sérico, através da promoção da absorção de cálcio e fósforo a partir do intestino, por exemplo. No entanto, o interesse clínico na Vitamina D não se restringe apenas ao metabolismo fosfocálcio. Manifesta-se também em várias outras condições médicas (diabetes, doenças cardiovasculares, esclerose múltipla, cancro, distúrbios psiquiátricos, doenças neuro-musculares, doenças autoimunes). No entanto, a questão do défice da Vitamina D ainda não é vista como prioritária.

É aqui que entra o papel da suplementação da Vitamina D. Existem duas fontes essenciais de Vitamina D:

Sol – por exposição solar, os raios UVB são capazes de ativar a síntese desta substância. O sol é responsável por 80 a 90% desta produção;

Alimentação – apesar de estar presente em alimentos de origem animal, sobretudo peixes gordos, lacticínios, ovos, iscas de fígado, estes alimentos não possuem a quantidade de Vitamina D que o organismo necessita.

Na falta destas duas formas surgem os suplementos de Vitamina D que não devem ser tomados sem o aconselhamento médico.

A verdade é que a despesa com medicamentos que contêm Vitamina D duplicou entre 2015 e 2016 e se olharmos para os dados dos últimos dois anos o valor quintuplicou, de 1,1 milhões de euros para 5,7 milhões de euros. O financiamento no serviço nacional de saúde (SNS) aumentou num ano de 779 mil euros para 2,1 milhões. A tendência é para se perguntar como é que num país com tanto sol, e sendo a exposição solar a principal fonte de Vitamina D, pode haver tão elevada procura por medicamentos com esta vitamina? Vamos por partes.

IMG_8810Em menos de meia hora por dia, através da exposição ao sol sem protetor solar, consegue-se ter este nutriente no organismo nos níveis desejados. E dizemos sem protetor solar porque o mesmo defende-nos da radiação, evitando o cancro da pele, mas também impede a produção de Vitamina D. Podemos encontrar a Vitamina D nos alimentos de origem animal e em alguns peixes do mar como o arenque, o salmão e a sardinha, particularmente ricos, pois podem sintetizar grandes quantidades mesmo sem sol. O fígado de peixes gordos é muito rico nesta vitamina, assim como os óleos que dele extraímos. Há, ainda, pequenas quantidades no leite, nos ovos, na manteiga e no queijo. No entanto, “nos alimentos é muito difícil obter os níveis desejados desta vitamina”. Por exemplo, um copo de leite contém 100 unidades de Vitamina D que corresponde apenas a um décimo daquilo que precisamos por dia, ou seja, entre mil a 1500 unidades. Isso significa que teríamos que beber qualquer coisa como dez copos de leite por dia, se fosse completamente absorvido, o que é não é garantido nem viável. Temos muito poucos alimentos fortificados com esta vitamina, embora na Europa do norte já existam alimentos fortificados em Vitamina D em grandes quantidades. Isto poderia ser uma solução para o consumo da vitamina”, refere António Marinho.

A fortificação de alimentos pode, portanto, ser uma estratégia importante para resolver problemas de deficiência nutricional. Note-se que um alimento enriquecido, ou fortificado, decorre da adição de um ou mais nutrientes, visando reforçar o respetivo valor nutricional, repondo quantitativamente os nutrientes destruídos durante o processamento do alimento, ou suplementando-os com nutrientes, para obter um teor superior ao conteúdo considerado normal de forma a prevenir ou corrigir eventuais deficiências nutricionais apresentadas pela população em geral ou de grupos específicos.

Cerca de 95% da Vitamina D é sintetizada através da exposição solar, mas esta é muito variável ao longo do ano. “Por exemplo, em habitantes de determinadas latitudes (acima dos 30 graus norte, a radiação no inverno não é suficiente para manter os níveis desejáveis de Vitamina D), que inclui a Europa do norte e central, está cientificamente demonstrado que no inverno não há síntese de Vitamina D.

Em Portugal, se formos a analisar factos, a população tem cada vez menos férias no verão e têm uma ocupação profissional que as obriga a passar o dia em ambientes fechados. Acresce a problemática da nossa população envelhecida, isto porque o envelhecimento cutâneo reduz a capacidade de síntese. Mas se os idosos necessitam de um período mais alargado de exposição ao sol para cobrirem as necessidades e carências de Vitamina D, as pessoas de pele escura também precisam. “a melanina é um mecanismo de defesa, mas também funciona como um mecanismo de bloqueio da síntese, portanto as pessoas de pele mais escura têm menor síntese desta Vitamina Do que as pessoas de pele clara”, explica-nos António Marinho. “Assim, não é de espantar estes números, completamente transversais, de défice de Vitamina D. Vamos juntando estas peças todas e conseguimos perceber porque é que os números do défice de Vitamina D são tão elevados em Portugal. As recomendações da organização mundial de saúde dizem-nos que devíamos ter uma exposição de 1000 unidades por dia logo a partir dos três anos de idade, pois os problemas relacionados com o défice de Vitamina D que surgem nas pessoas mais idosas vão-se estabelecendo ao longo da vida. A perda de massa óssea, as alterações vasculares, e as doenças inflamatórias não começam aos 60 anos. Tornam-se é sintomáticas nessa altura.

“Numa população onde se reconhece um elevado défice, a estratégia preventiva é a indicada. Isto é um problema de saúde pública”, avança António Marinho.

Além das suas ações no osso, intestino e rim, a Vitamina D é conhecida por atuar no cérebro, pâncreas, pele, órgãos reprodutivos e na proliferação de células cancerígenas.

Níveis adequados de Vitamina D obtidos a partir da dieta ou por síntese cutânea são essenciais para a manutenção da saúde óssea ao longo da vida e, em particular, nas mulheres pós-menopáusicas e idosos, nos quais a osteoporose é mais prevalente, por exemplo. A osteoporose é, atualmente, uma doença crónica que constitui um problema de saúde pública. Foi estimado que dez milhões de indivíduos sofrem desta patologia, enquanto outros 34 milhões possuem baixa densidade mineral óssea. São inúmeras as evidências acerca do papel desempenhado pelo défice de Vitamina D, nestes fenómenos de enfraquecimento estrutural ósseo.

E o que se pode fazer? “Atualmente o que temos disponível para a população são os suplementos vitamínicos com os quais, pelo menos uma grande parte da população pode obter um equivalente a mil unidades por dia, o que teria um impacto significativo na saúde geral. O problema que se coloca é o impacto económico que também acarreta. Os valores referidos atualmente, sobre o consumo para o SNS, que aumentou num ano de 779 mil euros para 2,1 milhões poderão ter outra análise”, refere António Marinho para quem gastar 700 mil euros por ano em suplementação é de um patamar de terceiro mundo. “se olharmos só para os censos de 2011 tínhamos cerca de 440 mil mulheres com mais de 65 anos. Para este nicho da população, ao nível de suplementação com 800 unidades por dia, a formulação mais barata custaria cerca de 48 euros por ano o que resultaria em gastos a rondar aproximadamente dois milhões de euros. Portanto, o que estamos a consumir agora era o que custaria ao estado se, em 2011, suplementássemos unicamente mulheres com mais de 65 anos pelo menos com mil unidades por dia. Não estamos a consumir mais suplementos agora. Até aqui estivemos foi a consumir poucos suplementos”, elucida-nos o nosso entrevistado.

“80% da população portuguesa tem um défice da Vitamina D. Estamos perante uma epidemia”, afirma António Marinho. A solução desta “epidemia” poderia passar pela fortificação de alimentos. Uma solução e uma estratégia que pode culminar numa poupança significativa em suplementos não alimentares. “os nórdicos já o fazem há bastante tempo, daí a ideia associada de que têm um menor défice desta vitamina , mas é porque têm na sua alimentação uma fortíssima exposição à Vitamina D. É uma estratégia viável a longo prazo. É importante perceber se vamos continuar a propor à população que comece a utilizar suplementos a partir dos três anos de vida, cujos custos podem alcançar facilmente os dez milhões, ou se vamos optar por uma estratégia de fortificação de alimentos, que tem maior alcance populacional e menor custo”, acrescenta o nosso interlocutor.

A Vitamina D é absolutamente fundamental na saúde óssea, metabólica, e nos estados inflamatórios. E precisamos de perceber quando se trata de uma insuficiência ou de um défice grave. Os primeiros sintomas associados a uma deficiência prolongada são normalmente dores musculares das cinturas, fraqueza muscular e fadiga. Aqui é importante o papel do médico de família. É necessário que seja proativo para rastrear estes casos que podem exigir um doseamento desta vitamina.

“A questão dos doseamentos é um problema à parte e estratégico pois também tem custos associados elevados. E começa-se a pedir doseamentos a mais. Está bem estudado que o doseamento de Vitamina D deve ser feito apenas a pessoas com elevado risco de défice que precisam não de suplementos, mas sim de tratamento. Um tratamento exige corrigir um défice que pode corresponder à utilização de 50 mil unidades desta vitamina por dia, por exemplo. E há, de facto, grupos de elevadíssimo risco. Pessoas com doenças auto-imunes cuja medicação impede a síntese da Vitamina D ou ainda a população com mais de 80 anos institucionalizada e pessoas com sintomas que indiciam um défice grave. São estes que precisam de doseamento, a restante população só precisa de ser suplementada”, conclui o nosso entrevistado. 

Sabia que…?

Não há ainda consenso acerca da quantidade de sol necessária para se obter a vitamina. Mas algo como 15 a 20 minutos por dia, na cara, braços E mãos, poderá ser Suficiente.

O protetor solar Defende-nos da radiação, evitando o cancro da pele, Mas também impede a produção de Vitamina D. A melanina dificulta a produção da vitamina. Por isso, as peles mais morenas são menos eficazes na síntese desta hormona.

A declaração portuguesa Da Vitamina D, assinada por várias sociedades médicas, recomenda a suplementação em 700-800 unidades internacionais diárias, Na população com osteoporose E em risco de fraturas.