Infeção urinária e infeção vaginal que diferenças?

“São situações diferentes. Começando pela localização anatómica. A sintomatologia é, por vezes, parecida e por isso são frequentemente confundidas. Percebe-se que há uma relação entre ambas que se começa agora a desvendar”, começa por elucidar o nosso entrevistado.

A confusão entre ambas pode acontecer porque alguns sintomas são idênticos, como o ardor ou a dor. Por esse motivo por vezes pode não ser fácil distingui-las corretamente. “Tratar infeções urinárias ou infeções vaginais sem exame – o que acontece com alguma frequência, muitas vezes leva a erros”, o que nos conduz à questão do tratamento das infeções urinárias. “O uso de determinados antibióticos associa-se ao risco da mulher desenvolver uma candidose – ou candidíase subsequentemente”. Entenda-se por candidose ou candidíase – um quadro causada pelo crescimento de fungos do género Candida  e que pode causar um corrimento espesso e esbranquiçado, acompanhado geralmente de prurido e irritação local.

Automedicação

“É comum ouvir a afirmação: «Tenho a certeza que tenho uma Candida porque já tive episódios anteriores» – há estudos que comprovam que as mulheres que normalmente se autodiagnosticam estão, na maioria das vezes, erradas”, afirma Pedro Vieira Baptista.

“Recorrendo à automedicação, certas que sabem exatamente aquilo que se passa, ignoram a consulta médica e vão diretamente ao supermercado ou à farmácia”.

Infeções vaginais frequentes e desconhecidas

“Há quadros clínicos menos conhecidos. Dentro destes, há um em especial – a vaginite aeróbica – que afeta cerca de 7 a 8% das mulheres portuguesas”.

O nosso interlocutor é adepto de uma prática ainda “pouco habitual” mas de extrema utilidade: o exame microscópico a fresco do corrimento vaginal, que permite o correto diagnóstico da maioria das “vaginites” – mesmo dos quadros mistos. Este exame é a única maneira de fazer o diagnóstico de entidades comuns, ainda que pouco conhecidas, como a vaginite aeróbica ou vaginose citolítica – para os quais a abordagem tradicional (história clínica e exame ginecológico) é claramente insuficiente.

No caso da vaginite aeróbica, a mesma pode apresentar sintomas severos como prurido ou ardor vulvar, dispareunia, corrimento amarelado, inflamação da vulva e da mucosa vaginal e um pH alterado. Pode associar-se a complicações graves, tais como parto pré-termo ou lesões do colo do útero.

A vaginose bacteriana é comum – o sintoma mais exuberante é o odor, que pode ser intenso e classicamente descrito nos livros como um cheiro a “peixe podre”. Porém, o cheiro não é sempre sinal de que algo está mal – até porque ele é variável e a perceção de cada um é igualmente díspar.

A candidose, a vaginose bacteriana, a vaginite aeróbica e a vaginose citolítica não são transmitidas sexualmente. Pelo contrário, a tricomoníase é uma infeção sexualmente transmissível, causada pelo protozoário Trichomonas Vaginalis. Apesar de ser uma das causas menos comuns de vaginite e corrimento vaginal, quando presente deve ser sempre tratada – bem como os parceiros. Embora normalmente seja sintomática, pode também não o ser. Nos homens frequentemente é assintomática.

Há mais problemas associados à higiene excessiva do que com a falta dela

Apesar de não ser totalmente consensual que cuidados deverão as mulheres ter na sua higiene íntima – que produtos e com que frequência – o nosso interlocutor acredita que “tudo o que são sabões ou sabonetes de formulação sólida devem ser excluídos. Mas se quiser usar algum este deve ter um pH baixo, independentemente da fase da vida da mulher”. Há uma lista de produtos que o ginecologista declara como escolhas frequentes de algumas pacientes e que deve mesmo desconsiderar como: sabão rosa, azul e de glicerina, Betadine, entre outros. “É normal que a mulher sinta necessidade de se lavar com mais frequência quando tem queixas vulvovaginais, no entanto, o excesso de lavagens assim como o uso de produtos abrasivos pode mesmo trazer mais desconforto ou até agravamento paradoxal do odor”. Portanto, antes de se submeter a qualquer tipo de tratamento higiénico, consulte um médico e certifique-se daquilo que realmente tem.

4 PERGUNTAS

Quando deve a mulher começar a ir ao ginecologista?

Temos cada vez mais evidências que comprovam não haver vantagens na “consulta de rotina” de ginecologia nas adolescentes assintomáticas. Contudo, têm que ser alertadas relativamente à questão das infeções de transmissão sexual e contraceção.

Quando fazer o Papanicolaou?

Não há interesse em realizar o exame antes dos 21 anos e pelo menos três anos depois do início da atividade sexual.

No verão devemos redobrar os cuidados?

Em teoria, neste período existe um risco mais elevado de candidose. No entanto, há que ter em conta que nem todos os quadros ginecológicos de prurido lhe sejam atribuíveis: há quadros dermatológicos em que a sintomatologia pode ser bastante semelhante.

Estatisticamente, esta altura é propensa a um aumento da atividade sexual e a novos contactos e, portanto, há que pensar também nas infeções de transmissão sexual.

Tampão, penso higiénico ou copo menstrual?

Não havendo condições específicas, aquele com que se sentir melhor.