Património Mundial da UNESCO desde 2001, a Região do Douro é única pelas suas paisagens esplêndidas, características peculiares e excelência dos vinhos produzidos. A paisagem da região do Douro, caracterizada pelos socalcos, foi construída durante a década de 70, com a aplicação de novas técnicas de plantio da vinha, em patamares, com muros de xisto a delimitar cada nível. Esta alteração da paisagem pela atividade humana contribuiu para que o Alto Douro Vinhateiro fosse considerado Património Mundial da Humanidade. Divide-se em três sub-regiões, Baixo Corgo, Cima Corgo e Corgo Superior. O Baixo Corgo é a menor das três, mas abrange o maior território de viticultura, com cerca de 14 mil hectares de vinhedos. E é no Baixo Corgo, na freguesia de Vila Marim, concelho de Mesão Frio, que encontramos a Quinta da Barca inserida na magnitude da paisagem desta região e com vista sobre o rio Douro e sobre a região de ouro.

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Da paixão pelo mundo vinícola ao negócio de família

Adquirida em 1995 por Maria Helena de Sousa Alves e Alcino Mamede Teixeira Alexandre, os pais da nossa entrevistada Justina Teixeira, a Quinta da Barca encontrava-se ao abandono. A sua restruturação era inevitável e é aqui que começa a história daquele que se tornou num negócio de família.

A família sempre estive ligada à agricultura. Com uma empresa com cerca de 25 anos, a Soluções D’Eleição, souberam fazer um excelente trabalho na seleção das castas para a produção de vinhos. A Soluções D´Eleição presta apoio a várias quintas do Douro no que diz respeito aos projetos e serviços agrícolas. Há um trabalho constante nos vários clientes (todos eles também produtores de vinhos) para obter vinhos de qualidade e excelência. Foi este know-how dos novos proprietários que ditou o rumo da Quinta da Barca e permitiu produzir vinho de qualidade e com um perfil único. Perfil este que já habitou os clientes dos vinhos da Quinta da Barca. Eles sabem com o que podem contar quando compram este vinho, sabem que o produto não será adulterado e que não desiludirá. Este é o objetivo de Justina Teixeira, criar um vinho fidedigno que, mesmo numa prova cega, será automaticamente associado à Quinta da Barca. É o que acontece, por exemplo, com a casta Touriga Nacional. Um dos exemplos é o Busto Grande Escolha Tinto Touriga Nacional 2010 vinho de excelente qualidade, reconhecido em três concursos internacionais – CINVE 2016 (Medalha de Prata); Concurso Mundial de Bruxelas 2016 (Medalha de Ouro); e Les Citadelles du Vin 2016 (Medalha de Prata).

Justina Teixeira nasceu neste meio e sempre conviveu de perto com a agricultura. Mas traçou um percurso profissional diferente, ligado à biologia e às funções de técnica comercial durante dez anos. Em 2016 decide voltar à terra que a viu nascer para abraçar este projeto a 100% e assumir a direção da Quinta da Barca e da Soluções D’Eleição.

Quando chegou ao comando da quinta as questões e dúvidas eram muitas. Tinha uma visão diferente, ideias frescas e inovadoras e uma bagagem consistente em contacto com o cliente e marketing de vendas, essencial para inovar e alavancar a Quinta da Barca. “As pessoas, ao fim de algum tempo, entram numa rotina e começam a fazer as coisas porque, simplesmente, sempre foi assim que fizeram. Começam a fechar o seu campo de visão para abraçar novas técnicas ou uma nova estratégia”, refere Justina Teixeira.

Este foi o grande desafio com que se deparou, mostrar que era possível fazer mais e diferente. A estratégia, essa, não existia e teve de ser criada. Tudo devia ser pensado e calculado para projetar o vinho a nível nacional e dar o passo seguinte para a internacionalização.

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Quinta da barca lança o busto e uma nova história inicia-se

Justina Teixeira não queria assumir o comando do negócio de família, queria traçar o seu próprio caminho. Sendo filha única queria provar que conseguia ser alguém a nível profissional por conta própria e não à sombra do esforço dos seus pais. Mas, em 2015, fez uma retrospetiva, analisou os prós e contras e decidiu que em 2016 era hora de se dedicar àquele que não é o típico negócio de família que passa de geração em geração, como acontece com outras quintas da região do Douro, mas que agora, certamente, será uma quinta que está a construir a sua história, uma história duradoura mesmo que a próxima geração não queira assumir o comando da Quinta da Barca. Justina Teixeira tem uma filha de quatro anos e, tal como a mãe, pode querer enveredar o seu percurso profissional por outro caminho.

Mas, tal como a mãe, pode decidir assegurar todo o potencial que esta quinta tem. Uma quinta que, para além da projeção nacional que já alcançou, é uma marca que está a ganhar terreno internacionalmente. Prova disso são os prémios e as medalhas que o vinho Busto tem vindo a ganhar, a nível nacional e internacionalmente.

E o nome Busto porquê? Busto para fazer jus e tributo à pessoa responsável pela primeira região demarcada do mundo, Marquês de Pombal. O Douro é a mais antiga região demarcada de vinhos do mundo. Foi demarcada em 1756, pelo Marquês de Pombal, de forma a garantir a qualidade e autenticidade dos vinhos desta região. Inicialmente, o vinho tinha o busto desta personagem icónica do Douro, mas, posteriormente, por questões burocráticas, não foi possível continuar a ter o busto do Marquês de Pombal nos rótulos dos vinhos da Quinta da Barca.

O primeiro Busto é comercializado em 2007 e, em 2011, a Quinta da Barca vê reconhecido o seu trabalho ao conquistar a Medalha de Prata no Concurso Internacional de Vinhos, Espirituosos e Azeites, em Sevilha, Espanha, com o Busto Tinto Reserva 2008.

Em 2013 conquista a Medalha de Ouro no concurso Mondial de Bruxelles com o Busto Reserva 2009. Trata-se de um evento internacional considerado como um dos mais importantes concursos de enologia do mundo.

Também o Busto Reserva Tinto Touriga Nacional 2013 e o Busto Grande Escolha Tinto Touriga Nacional 2014 foram premiados com a medalha de Ouro no concurso “Melhores de Portugal”. De salientar que a casta Touriga Nacional tem tido um reconhecimento internacional como casta de elevado potencial qualitativo.

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Mérito e reconhecimento internacional

Justina Teixeira afirma que tem sido ela quem tem dado a cara pela Quinta da Barca, mas que o trabalho, os resultados, o sucesso e a projeção alcançados são fruto do trabalho de equipa, desde as pessoas que se dedicam ao trabalho físico árduo, muitas vezes feito em condições adversas devido à rigidez do terreno ou das condições climatéricas, até ao comercial que promove o contacto com potenciais clientes. E a gestão e a liderança da equipa tem sido o seu desafio constante. “Temos de saber manter as pessoas motivadas e dedicadas. Se os trabalhadores não estão felizes no trabalho também não estão felizes em casa e vice-versa. E isso reflete-se na produtividade e no sucesso da empresa. É fundamental que haja bem-estar na empresa e que as pessoas saibam que o seu valor é reconhecido. Aqui, todas as ideias são bem-vindas para ajudar a crescer a empresa. Damos voz aos nossos colaboradores e sabemos ouvi-los”, afirma a nossa entrevistada. Com um bom trabalho de equipa, uma estratégia delineada e objetivos definidos, o vinho da Quinta da Barca foi conquistando mercado, sendo, nos dias de hoje, um vinho apreciado por todo o país. Mas o que falta fazer para a sua projeção no mercado nacional?

Por estratégia, o Busto não se encontra à venda em superfícies comerciais. A Quinta da Barca optou por ter os seus vinhos presentes em restaurantes e garrafeiras e, para a sua distribuição, escolheu pequenos distribuidores, espalhados de norte a sul do país, que conhecem bem a região e saberão melhor onde distribuir o seu vinho. Com algumas zonas no país por conquistar, mas também chegarão a essas, já se abriram as portas ao mercado externo. Sem dúvida, este era o passo que a Quinta da Barca tinha de dar: a internacionalização da marca Busto. Já comercializam o vinho em grandes quantidades para a Suíça desde o ano passado, mas não é suficiente. Com uma aposta forte na promoção e divulgação do vinho com a presença em feiras, eventos e com degustações, o Busto está, agora, a conquistar a Polónia.

A Quinta da Barca está presente no projeto Soul Wines – Wines with Soul, um projeto conjunto de internacionalização e que conta com a participação de vários produtores de vinhos da região do Douro. A primeira aposta neste projeto de internacionalização foi o mercado Polaco. Em Junho de 2016 houve uma missão organizada pela NERVIR, agregando na totalidade 19 produtores do Douro. Foram realizadas degustações, apresentações dos vinhos e estabelecidos contactos com diferentes importadores, distribuidores e jornalistas. Neste âmbito, a Quinta submeteu ao concurso Wine Expo Poland Awards 2016 na Polónia, os seus vinhos, tendo arrecadado dois prémios: para o Busto Colheita Tinto 2013 Gold Award e para o Busto Reserva Tinto 2011 Silver Award. Trata-se de um passo decisivo para a construção da imagem e da marca do vinho Busto na Polónia, que já teve impacto ao nível da promoção no mercado polaco e a nível de contactos comerciais com potenciais clientes.

Recentemente, a Quinta da Barca esteve representada em Bruxelas e em Berlim com provas de degustação, e de uma coisa Justina Teixeira tem a certeza, as comunidades portuguesas espalhadas lá fora são o melhor alicerce para promover, divulgar e consolidar os vinhos e produtos portugueses. E é essa estratégia que se pretende seguir, comercializar o vinho lá fora com o apoio das comunidades portuguesas que tão bem sabem divulgar Portugal. Mais tarde, depois de tudo muito bem estruturado e pensado, o passo seguinte será conquistar o mercado americano. Um mercado difícil, mas que não é impossível para Justina Teixeira. O Enoturismo também é algo a pensar e que faz todo o sentido, até porque a Quinta da Barca tem recebido visitas sem qualquer divulgação, mas é um projeto que tem de ter o seu tempo, pois envolverá outra estrutura, outra dinâmica e outra equipa. Agora o objetivo é aumentar as infraestruturas para a produção de vinho e corresponder ao aumento da procura. Como acontece com qualquer empresa familiar, a criação de uma marca própria leva o seu tempo. Compra das terras ou da propriedade, plantação de novas vinhas e criação de uma adega com equipamentos modernos com uma capacidade modesta para a produção de vinho no início de atividade. Com vendas a rondar as 60 mil garrafas, prevê-se chegar rapidamente às 100 mil garrafas de vinho pelo que agora é necessário, portanto, ampliar toda a estrutura que está na base da criação do vinho Busto. O Busto DOC Moscatel Galego Branco 2014 foi a revelação surpresa da Quinta da Barca. Quando saiu para o mercado e se falava no nome moscatel, as pessoas associavam automaticamente a um vinho licoroso, doce e pesado. A aceitação não foi imediata, mas quem acabava por provar este vinho ficava rendido à sua leveza e frescura. Vinificado na Quinta da Barca a partir da casta Moscatel Galego Branco, é utilizado o método de “bica-aberta”, com decantação de 24 horas e posterior fermentação, durante 25 dias, com controlo de temperatura, realizada em cubas de inox de pequena capacidade. Com uma cor citrina, brilhante, aroma intenso da casta,é um vinho fresco na boca, elegante e marcado pela acidez e irreverência do Moscatel Galego. O Busto Moscatel Galego Branco é ideal para acompanhar todo o tipo de peixes, mariscos ou saladas mediterrânicas. Começaram por produzir mil garrafas, depois mais duas mil garrafas e, posteriomente mais quatro mil garrafas deste Moscatel Galego Branco, em apenas três anos. Justina Teixeira diz que não há maus vinhos, há vinhos para todos os gostos. Mas, de certeza, que o sucesso que esta quinta tem alcançado num curto espaço de tempo se deve ao facto de não fazerem vinho por fazer… fazem vinho por prazer.