“Temos de nos reinventar e desafiar todos os dias”

Estivemos à conversa com João Faria, International Business Advisor, para saber que aspetos, na opinião do consultor, têm as empresas de ter em conta no momento em que decidem dar um passo de extrema importância e que está na ordem do dia: a internacionalização.

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João Faria participou naquela que foi a primeira edição da Feira & Fórum Internacional de Negócios – China e Países de Língua Portuguesa e Espanhola, e que se realizou entre os dias 21 e 23 de junho na Exponor. O nosso interlocutor esteve, durante 11 anos, na linha da frente da Internacionalização do Grupo Proef – um grupo constituído por mais de 25 empresas presente em 11 países e com um total de 1500 colaboradores. O grupo apresenta-se no mercado com soluções globais nas áreas das telecomunicações e eletricidade, TI, energias renováveis e eficiência energética, assim como seguros ou aluguer de equipamentos. No entanto, e com o passar do tempo, decidiu regressar a Portugal e para colocar em prática toda a sua experiência em prol das empresas portuguesas.

“Após ter estado no arranque da atividade em Angola, Moçambique, África do Sul e Reino Unido descobri que estava na altura de agarrar a minha experiência e partilhá-la com empresas portuguesas”.

O tema internacionalização é algo que de que se fala correntemente, mas há questões a perceber, nomeadamente, se os interessados têm o que é necessário ou não para se aventurarem fora do país. A par da internacionalização ouve-se uma outra expressão – Diáspora Lusa – e João Faria afirma que o conceito pode ser uma excelente ferramenta para as organizações que optaram avançar para a internacionalização.

“Na minha opinião a Internacionalização tem três estágios, Awareness, Estratégia e Implementação. É junto de quem, no seio das organizações, tem a capacidade de tomar as decisões que pretendo continuar a intervir. Considero importante e essencial que cada organização faça uma introspecção para saber se a internacionalização é o caminho a seguir. Existem muitos desafios, e é necessário contar com toda a ajuda possível. É um processo de que carece da devida ponderação e estudo”, alerta.

A Internacionalização pode ser uma ilusão, segundo João Faria, a robustez financeira e a resiliência emocional dos shareholders são essenciais. Há que ter presente que tudo tem um ritmo e demora o seu tempo, um processo bem sucedido demora em média quatro anos a dar resultados.

Existe ainda a vertente do expatriado que vem sempre associado à internacionalização: “Não é fácil, pois temos de nos reinventar e desafiar todos os dias. Vale a pena culturalmente, financeiramente… o que temos de avaliar melhor é se vale a pena familiarmente”, a família, segundo o consultor é aquilo que é na maior parte das vezes é esquecido pelas empresas, no entanto, é um fator com um enorme peso no desenvolvimento do trabalho de quem vai para fora do país trabalhar.

“A maior parte dos expatriados que conheci volta para casa no primeiro mês por causa da família. As pessoas têm hábitos que se perdem obrigatoriamente no dia-a-dia de quem trabalha fora do país e longe da família. Os novos hábitos vão deteriorando o entusiasmo inicial”, revela.

“Temos de ter constantemente em mente que, seja em que país for, somos meras visitas” “Há algo que fica esquecido e que está intimamente ligado a uma questão de educação: somos visitas.

“Para que haja sucesso há que ter flexibilidade para mudar. Uma mudança requer conhecimento sobre a própria empresa. E este poderá ser o maior desafio das organizações e dos seus expatriados”, explica o nosso entrevistado.

FIN 2017 – “DIÁSPORA LUSA”

“A ‘Diáspora Lusa’ é talvez o maior recurso que Portugal tem mas em «casa de ferreiro, espeto de pau». Quando se exclui a Casa do Benfica ou a Academia do Bacalhau – que são das associações com mais visibilidade dentro das comunidades portuguesas no estrangeiro – é difícil trabalhar com portugueses. Isto porque todos os processos de emigração, expatriamento ou internacionalização são processos pessoais e sofridos, e como somos excessivamente competitivos ainda não conseguimos “profissionalizar” a Diáspora Lusa que é a nossa melhor arma. Temos qualidades extraordinárias como a flexibilidade ou a amabilidade e que nos tornam únicos, mas caímos regularmente no erro de misturar a parte social e pessoal com a empresarial”. O nosso interlocutor prossegue com as lacunas que o projeto ‘Diáspora Lusa’ ainda apresenta: “Falta-nos talvez uma gestão melhorada. O Estado Português por seu turno não potencia a coesão e cooperação empresarial. Quando olho para a diáspora vejo que nos focamos nos feriados nacionais… Não sabemos transformar a diáspora numa ferramenta de sucesso coletivo. Esta é uma missão que acredito ser possível concretizar, mas para isso há uma coisa que terá que mudar: a mentalidade”.

“Este tipo de eventos, FIN2017, têm sempre mais-valias associadas uma vez que não existe peso político e os empresários tratam apenas de negócios. Eventos como a FIN têm de ser repetidos. Penso que aquilo que mais importa retirar destes dias é que existem oportunidades e pontes iniciadas, mas que têm de ser aproveitadas”, conclui João Faria.