O Governo criou um programa específico para ajudar as empresas portuguesas a abraçarem da melhor forma a indústria 4.0, em que, segundo a PwC, o nível médio de digitalização das empresas do setor industrial crescerá de 33% para 72% dentro de 5 anos. Qual é a sua opinião sobre esta iniciativa?

Acredito nos números, embora ainda esteja muito por fazer em alguns setores «distraídos», logo é hoje um grande desafio. A “desmaterialização” da economia, como lhe gosto de lhe chamar, envolve um compromisso muito grande na mudança de processos – empresas, pessoas e liderança. Tenho dúvidas sobre uma revolução tão rápida de digitalização, e isto porque não se limita a isso, ou seja, vai envolver uma série de inovações revolucionárias na produção e nos processos produtivos, em toda a cadeia de valor de alguns setores, com foco no aumento da produtividade. Há termos/conceitos como “the internet of things, the internet of services, the industral internet, advanced manufacturing, cyber-physical systems, smart factory, big data, cloud computing”, entre outros, que ainda não fazem parte do vocabulário da gestão atual. E que já deveriam ser uma obrigação e um compromisso para quem quer conhecer e jogar segundo as novas regras de jogo.

O Secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, referiu que esta “é a primeira revolução industrial em que a localização geográfica de Portugal não nos prejudica e os investimentos em infraestruturas tecnológicas, em ciência e na qualificação realizados neste país na última década nos permitem ambicionar liderar esta mudança”. Concorda?

Embora, hoje, já afastado da Secretaria de Estado, reconheço um dinamismo ímpar do João Vasconcelos em todas as questões relacionadas com o tema. Principalmente muitos programas criados esse sentido que alimentam e facilitam a adoção de novos modelos por todo o ecossistema empresarial português. Há um trabalho que vem de trás e que efetivamente se materializou em ações concretas da parte governativa. Não concordo com a “liderança da mudança” do lado português, mas sim como ator e protagonista com peso no processo – e nem tanto pelo dinamismo governativo nesta matéria, mas sim pelas empresas, empresários e pessoas que todos os dias marcam a diferença e se ajustam para serem mais produtivos amanhã, de forma a “não perder o comboio”. O ficar de fora, ou atrasado, para algumas indústrias e fileiras pode mesmo, na minha opinião, ser fatal.

Quais diria que são as grandes tendências que afetam o desenvolvimento do capital humano?           

Maior flexibilidade, maior conetividade e maior velocidade de resposta. Estes serão três vetores como “pedra de toque” para o capital humano 4.0, tudo relacionado com mudança e capacidade de adaptação. A cadeia de valor num determinado setor vai ficar ainda mais dinâmica, otimizada em tempo real (e que se organize só por si), em que o custo, a disponibilidade e o consumo de recursos passam a ser dos principais drivers do negócio. Os métodos colaborativos, se os souberem maximizar, vão fazer toda a diferença em termos de inovação e competitividade num setor.

Falando apenas de Portugal, de que forma pode ser explicado o conceito de reindustrialização, indústria 4.0 e de política industrial?

Eu chamava-lhe apenas desmaterialização da economia, com tudo o que isso vai implicar na modificação dos processos e dos relacionamentos “das coisas”.

Existe uma clara ligação entre produção industrial, desenvolvimento tecnológico, inovação e emprego qualificado? Porquê?

Claro que sim. É todo um ecossistema colaborativo que potencia resultados. Como já referi, a conetividade é a chave, entre empresas, processos, pessoas e a academia. O caminho vai obrigar ao seguinte: meios produtivos mais eficientes, flexíveis e que incorporem inteligência e interconetividade; séries e tempos de produção cada vez mais curtos (personalização massiva dos produtos); uma gestão logística integrada e inteligente; uma digitalização dos canais e gestão omnicanal; análise preditiva das necessidades dos clientes; informação exaustiva e com valor; rastreabilidade de todo o processo produtivo; especialização em ecossistemas de valor; e evolução digital dos produtos.

Na sua opinião, do que precisam as empresas portuguesas para se incluírem em pleno naquela que é a Quarta Revolução Industrial?

Em primeiro lugar precisam de liderança e visão, antecipando tendências – uma liderança inclusiva e participativa. Em segundo, uma capacidade de adaptação rápida, pois a velocidade passou a ser uma obrigação. Em terceiro, uma capacidade única de ler dados, e os saber analisar/medir em benefício do seu negócio.