“Nada se consegue sem trabalho”

Vanda Ramos, Coordenadora do Ensino Secundário no Colégio St. Peter's International School, defende que “se temos indicadores diversos que atestam que as mulheres reúnem características que podem ser vantajosas em cargos de liderança, a sociedade tem de se adaptar a essa realidade, procurando obter vantagem da participação feminina”.

1245

Vanda Ramos é Coordenadora do Ensino Secundário no Colégio St. Peter’s International School. Como tem sido lidar com este desafio?

O Ensino Secundário foi inaugurado no colégio em 2004, sendo objetivo da direção da instituição prosseguir o projeto educativo preconizado no Ensino Básico. Pretendeu-se, assim, oferecer às famílias a possibilidade de concluir connosco mais este ciclo de estudos, completando o percurso escolar do aluno, do jardim-de-infância à faculdade. Nessa altura, fui convidada para coordenar este novo ciclo. Desde então, este cargo tem sido um desafio para mim, pois, apesar de exercer esta função há alguns anos, trabalhar com pessoas é uma constante construção. São muitos os intervenientes: os encarregados de educação, que pretendem um ensino exigente e rigoroso; os alunos, que ambicionam os melhores resultados para escolherem a faculdade onde prosseguirão os seus estudos; os  professores e técnicos pedagógicos, que têm de se unir, para desenvolver um percurso sólido, com o objetivo de alcançar o máximo de sucesso possível. Este tem sido, portanto, um desafio exigente, com o qual tenho lidado diariamente com dedicação e muita persistência.

O St. Peter’s International School atingiu o 2º lugar nacional, com uma média de 14,84 valores, entre as 626 escolas com Ensino Secundário com mais de cem provas realizadas. Para além do 2.º lugar no ranking das escolas 2016, obteve o 1.º lugar nacional na disciplina de Português. O que tem contribuído para estes resultados?

Um dos fatores que considero prioritário é a exigência. Cada professor tem de ser exigente com o seu trabalho, com o trabalho dos seus alunos: na forma como desenvolve a sua metodologia. Temos um contexto privilegiado, já que conhecemos grande parte dos alunos desde o início da sua escolaridade, desenvolvendo com eles um trabalho gradual. Por outro lado, o grupo de professores é, maioritariamente, estável, coeso, em atualização permanente, no que respeita aos objetivos a cumprir para cada disciplina. Outro fator fundamental para os nossos resultados é a recetividade e o envolvimento do encarregado de educação, que acompanha o aluno no seu processo, colaborando com o colégio na definição de estratégias que ajudem a traçar um percurso que proporcione maior margem de progressão, sob orientação pedagógica e beneficiando da disponibilidade de todos os elementos da comunidade educativa.

O colégio orgulha-se dos resultados alcançados, atendendo ao facto de que os Exames Nacionais são essenciais para o acesso ao Ensino Superior e são encarados como um desafio para todos os elementos do colégio. De futuro, o que poderá ser feito para o colégio alcançar o 1º lugar no ranking das escolas?

Presentemente, para ingressar numa Universidade em Portugal, apenas duas variáveis interessam: a média do ensino secundário e os resultados dos exames nacionais. Como tal, é essencial trabalhar sobre estes dois aspetos: por um lado, transmitir conhecimentos, desenvolver competências que serão cruciais para toda a vida, tais como o raciocínio, a comunicação, a proficiência na língua, a capacidade para resolver problemas; por outro lado, preparar os alunos para os exames nacionais, que poderão ser ponderados com cerca de cinquenta por cento para o ingresso na universidade. Não selecionamos os alunos com quem trabalhamos. Procuramos corresponder às expetativas de cada família, tentando otimizar a margem de progresso de cada aluno. Encaramos o ensino como um processo em construção permanente. Por isso, independentemente de uma boa posição do ranking, que tem sido regular, o nosso objetivo será sempre o da melhoria dos percursos escolares individuais. Claro que um bom lugar no ranking nos deixa orgulhosos, principalmente porque isso significa que os alunos têm bons resultados nos exames, para poderem escolher o curso e a faculdade que pretendem.

Aqui, o propósito é garantir um ensino pré-universitário, “com tudo o que isso implicará”. Portanto, mais do que futuros profissionais, no St. Peter’s International School formam-se cidadãos?

Sem dúvida, esse é também um dos nossos objetivos. Os alunos têm de ser educados, ter valores e respeitar o próximo, proporcionando um bom ambiente na comunidade, independentemente das diferenças de cada um.  Acredito que todos nós temos uma missão na sociedade em que vivemos e que temos de dar se quisermos receber. Nós, agentes diretos na educação, temos um papel fundamental em todo esse processo, ao servirmos como modelos para os nossos alunos. Garantir uma boa formação é edificar uma sociedade mais responsável, proativa e colaborante na resolução de problemas, na partilha de ideias, o que nos conduzirá, certamente, à construção de um futuro melhor. 

Entre outras funções, Vanda Ramos coordena equipa de trabalho de professores do Ensino Secundário, orienta e acompanha alunos durante o percurso escolar, analisa resultados e define estratégias. É uma líder. E o que a caracteriza enquanto líder e gestora de pessoas?

É preciso conhecer bem todo o processo. É fundamental conhecer todas as regras que regem o ensino secundário para se poder criar um percurso mais benéfico para cada aluno, de acordo com as suas características. É preciso conhecer bem cada pessoa com quem se trabalha para potenciar as suas funções. Neste sentido, penso que a relação que estabeleço com cada elemento é fundamental para atingir os diferentes objetivos. A forma como avalio resultados ao longo do processo, como comunico com os diferentes intervenientes, como sugiro a recuperação dos erros, num processo de melhoria contínua, tem sido reconhecida como uma mais-valia para todos. Sou crítica, exigente, sou ativa. Estou sempre disponível para aprender, para refletir, no sentido de  melhorar, mesmo quando o resultado atingido já foi bom.

As mulheres são líderes mais eficazes? O que diferencia as mulheres dos homens em cargos de liderança?

As mulheres reúnem competências que proporcionam, em muitas situações, uma rentabilização de recursos e do trabalho realizado. Reconheço que existem diferenças individuais, mas penso que somos mais objetivas e pragmáticas, o que nos torna visionárias do produto final que almejamos. Evitamos discursos que, muitas vezes, não nos conduzem a resultados. Temos mais capacidade de perseverança e resiliência, mais resistência face às adversidades e mais empatia, características que, a meu ver, se tornam diferenciadoras em funções de liderança.

Em Portugal as mulheres representam quase metade da força de trabalho. Mas a igualdade de género ainda está longe de ser uma verdade absoluta. Muitas mulheres veem os seus direitos e regalias ficarem aquém dos que são dados aos homens. Esta é uma realidade para si?

Acredito que estejam a ser operadas algumas mudanças nesse sentido. Na verdade, as regalias de cada trabalhador não devem ser só resultado dos direitos legais, mas também do seu nível de produtividade e dos  resultados atingidos. Cada empresa deve procurar valorizar quem atinge os objetivos propostos. Dessa forma, estará a motivar a capacidade de trabalho do colaborador e a estimular a sua vontade de superação. Essa será uma boa fórmula para melhorar a qualidade da empresa e consequentemente obter mais reconhecimento no mercado. Assim sendo, é lamentável que a gestão de uma empresa ceda mais regalias por uma questão de género. Essa não é uma realidade para mim.

Um dos mais recentes relatórios do Fórum Económico Mundial concluiu que a igualdade de género em termos económicos só deverá ser atingida dentro de 170 anos. O que urge para mudar este paradigma?

Tudo depende da gestão de cada empresa, da sua visão. Esse mesmo fórum refere que “os países com mais igualdade de género têm um melhor crescimento económico”. Talvez seja um indicador importante para que cada empresa comece a adotar princípios potenciadores da igualdade de géneros nos cargos de liderança. Para tal, torna-se imprescindível que cada empresa inclua, na sua atividade, programas que garantam mais qualidade na vivência profissional, familiar e pessoal. Esses programas devem ser de natureza diversa, ligados à saúde, à educação e ao lazer, que são pilares básicos na construção do indivíduo, com consequências diretas na sua ação na sociedade, partilhada por todos e em constante mudança.

E a sociedade está preparada para ter mulheres a liderar e em cargos de topo?

A sociedade tem de estar preparada para o que lhe permitir um crescimento económico e social mais sustentado. Se temos indicadores diversos que atestam que as mulheres reúnem características que podem ser vantajosas em cargos de liderança, a sociedade tem de se adaptar a essa realidade, procurando obter vantagem da participação feminina.

É preciso ser-se uma “supermulher” para conciliar todos os papéis inerentes a uma mulher que quer apostar tanto na vida pessoal como na sua carreira?

Devemos procurar um equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, sabendo de antemão que, em certos momentos, teremos de priorizar uma delas em detrimento da outra, que haveremos de compensar. Tem de existir uma grande capacidade de gestão de todas as tarefas que desempenhamos, inerentes às diferentes funções que ocupamos nas nossas vidas. Acredito que não tem de se viver só para a carreira. Também defendo que nada se consegue sem trabalho, nem mesmo a sorte! Por isso, se queremos ser as melhores no que fazemos, temos mesmo de ser “super-heroínas” nas histórias das nossas vidas.