Desiludidos com discurso do rei, catalães pedem para ser ouvidos

Centenas de milhares de catalães denunciaram na terça-feira, em Barcelona, as violências policiais ocorridas no domingo, antes de reagirem ao discurso do rei espanhol.

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“Ele não percebe nada”, resumiu a enfermeira Marta Domenech, em declarações à agência noticiosa AFP.

Num bar, fez-se um grande silêncio quando Felipe VI discursou na televisão, 48 horas depois do referendo de autodeterminação interdito ter sido realizado na região autónoma.

Mas, Felipe VI, mencionando “a grande preocupação” com o comportamento dos dirigentes separatistas catalães, não lançou qualquer apelo ao diálogo.

“É uma verdadeira vergonha (…). Um rei deve representar um povo, todas as suas pessoas e não apenas uma parte”, afirmou Domingo Gutierrez, um camionista de 61 anos, acrescentando: “Ele não disse uma palavra sobre as pessoas feridas” pelos polícias que procuraram impedir o referendo.

“Pensei que iria pedir que todas as partes se sentassem para falar, mas não”, lamentou Gerard Mur, um jovem jornalista, de 25 anos, no desemprego.

Numa mensagem transmitida pela televisão, Felipe VI acusou as autoridades catalãs de “conduta irresponsável” e considerou que os “legítimos poderes do Estado” devem assegurar “a ordem constitucional”. A partir do Palácio da Zarzuela, Felipe VI recordou também o compromisso da Casa Real com a unidade de Espanha.

Durante todo o dia, independentistas ou não, novos e velhos, 700 mil catalães participaram em conjunto numa série de manifestações em Barcelona, segundo a polícia municipal, indignados pela violência policial, que marcaram o dia de domingo.

“É uma manifestação de catalães pela liberdade e pela dignidade”, disse Georgina Asin, professora, de 35 anos, integrada na imensa multidão que tinha acabado de cantar o hino catalão, na Praça da Universidade.

Ao seu lado, o seu pai e a sua mãe estão absolutamente ultrajados: “O que os polícias e os guardas civis fizeram no domingo foi um ultraje à dignidade: arrastar as mulheres pelos cabelos, agredir mulheres idosas, quando as pessoas apenas pediam para votar”, disse Jose Maria Asin Prades, um antigo profissional de recursos humanos, com 62 anos, que esclareceu que se manifestava, “não contra Espanha, mas contra o governo espanhol”, de Mariano Rajoy, que considerou estar “desligado da realidade”.

A empresária Myriam Lao, de 35 anos, declarou: “Ainda tenho na perna a marca de um golpe de matraca e na cabeça a imagem das idosas com as caras ensanguentadas”.

Em jeito de desafio, desabafou: “Se em Madrid não reconhecem este referendo, de domingo, que nos deem outro. Mas que nos escutem!”.