Uma investigação realizada pela Alcon demonstrou que 80% dos inquiridos nesta faixa etária desconhece os sintomas da patologia, mas que 81% sabe da existência de uma cirurgia como solução, ainda que 24% acredite erradamente ser necessário que as cataratas estejam totalmente desenvolvidas para o tratamento. Além disso, a cirurgia das cataratas pode também corrigir outros problemas da visão, como o astigmatismo e/ou a presbiopia. As opções cirúrgicas mais avançadas conseguem solucionar, num único procedimento, vários problemas da visão, reduzindo a necessidade de utilizar óculos ou lentes de contacto. Sobre estas matérias, a Revista Pontos de Vista conversou com dois especialistas, António Limão, Oftalmologista no Instituto de Microcirurgia Ocular e Fernando Vaz, Diretor do Serviço de Oftalmologia do Hospital de Braga, que nos deram a sua «visão» sobre os problemas de visão que afetam a população. Saiba mais.

O que são as cataratas?

António Limão (AL) – Designa-se por catarata qualquer tipo de opacidade do cristalino, podendo afetar mais ou menos a visão, dependendo do grau e da localização. O cristalino é uma lente natural que se encontra por detrás da íris. O cristalino normal das pessoas jovens é transparente e elástico, permitindo a focagem para perto. Com a idade, este vai aumentando o seu volume, perdendo a elasticidade e a transparência, num processo natural que se inicia depois dos 40 anos com a presbiopia (dificuldade na focagem para perto) e pode culminar em catarata com diminuição significativa da visão depois dos 60 anos.

Fernando Vaz (FV) – o nosso olho tem duas lentes: uma mais superficial (a córnea) e uma mais posterior (o cristalino), que fica por trás da íris. A catarata é a perda de transparência do cristalino. Há diferentes tipos de cataratas. A mais comum decorre do envelhecimento natural do olho, mas pode ser precipitada por fatores predisponentes exógenos como a radiação ultravioleta, diabetes, medicação com corticosteroides ou condições do próprio olho.

Quais são os sintomas de cataratas? 

AL – As cataratas podem começar por afetar a qualidade da visão, dificultando a visão noturna ou causando deslumbramento com o sol ou com luzes. À medida que se vão tornando mais densas, provocam a turvação permanente da visão, acabando por interferir em todas as tarefas e hábitos diários.

FV – A perda gradual e progressiva de visão, que vai ficando enevoada e com esbatimento das cores. Numa primeira fase pode manifestar-se por intolerância à luz, encandeamentos, dificuldade na visão noturna ou a alteração mais rápida da graduação dos óculos.

Que tratamentos existem?

AL – O único tratamento eficaz é a sua extração com recurso à microcirurgia.

FV – O único tratamento para a catarata é a cirurgia.

Quais são os mitos mais comuns sobre as cataratas?

AL – Um dos mitos mais comuns é o receio de que as cataratas possam voltar. Basta entender que a catarata consiste na opacificação do cristalino para se concluir que uma vez retirado, não volta a aparecer. Também é habitual a dúvida quanto à validade das lentes intraoculares implantadas, sendo que estas não têm um prazo de validade. Outro mito é o de que as lentes se poderão vir a sujar e necessitar de ser limpas. Mas na verdade não é a lente que se suja, mas sim a cápsula posterior do cristalino que opacifica, obrigando à sua abertura central.

FV – Um deles é a ideia de que a catarata tem de ficar madura. A catarata é uma questão de transparência e não de maturidade. Há 30 anos atrás a cirurgia não tinha a segurança e precisão atual e por isso apenas se operava quando o paciente estava a ver muito mal. Hoje a tecnologia permite-nos operar logo que o paciente sinta que a baixa de acuidade visual interfere com a sua qualidade de vida. Outro equívoco comum é que é urgente operar uma catarata, mas protelar a cirurgia não tem impacto no resultado final da cirurgia.

Como evoluiu a cirurgia das cataratas? 

AL – Há 30 anos, a cirurgia consistia em remover todo o cristalino dentro da sua cápsula, sendo necessário fazer uma incisão no globo ocular, para permitir a sua extração e encerrar a ferida operatória com pontos de sutura. Os olhos operados ficavam sem nenhuma lente para substituir o cristalino retirado e essa falta era compensada por lentes de óculos, muitas vezes com mais de dez dioptrias. O desenvolvimento dos microscópios operatórios e a vulgarização das lentes intraoculares implantadas dentro do saco do cristalino representou um passo gigante na reabilitação funcional dos olhos operados a cataratas. O cristalino passou a ser substituído por uma lente intraocular e passámos a obter uma qualidade de visão próxima do normal. Estava por resolver o problema da incisão. Foram então introduzidos os aparelhos de facoemulsificação, através de ultrassons emitidos por uma agulha, que permitiram desfazer e aspirar o conteúdo do cristalino opacificado, através de uma incisão inferior a 2,6 mm, sem sutura. Desenvolveram-se também as lentes intraoculares dobráveis, implantadas através dessa incisão. Atualmente, a cirurgia de catarata realiza-se em ambulatório e com anestesia de gotas, possibilitando uma quase imediata reabilitação visual.

FV – A cirurgia de catarata sofreu duas revoluções. Uma no final dos anos 80 com o aparecimento das lentes intraoculares. E a segunda na década de 90 com a facoemulsificação do cristalino. Com ultrassons, o cristalino é pulverizado e aspirado, o que permite que a cirurgia se faça com uma incisão de 2mm, sem necessidade de outra anestesia que não sejam gotas, sem suturas e com uma recuperação da visão quase imediata, permitindo retomar a vida diária normal em poucos dias.

Se um doente de cataratas sofre de astigmatismo ou presbiopia, quais as opções durante a cirurgia às cataratas para solucionar também estas patologias? 

AL – Os meios técnicos de que dispomos para a cirurgia de catarata permitem recuperar a transparência dos meios óticos e restaurar uma visão com qualidade, reabilitando-a, pelo menos para longe, sem recurso aos óculos. Para tal, muito contribuiu o aparecimento de lentes intraoculares tóricas, que permitem a correção do astigmatismo. Assim, nos casos em que existe astigmatismo significativo na córnea, este pode ser corrigido pela lente intraocular que se implanta na cirurgia da catarata. Foram desenvolvidas lentes intraoculares acomodativas e multifocais para permitir a visão a todas as distâncias, sem recurso a óculos. Este tipo de lentes tem beneficiado de muitos melhoramentos técnicos e, quando implantadas em olhos bem selecionados, podem proporcionar independência total de óculos.

FV – Temos à nossa disposição lentes trifocais que permitem corrigir a visão para longe, perto e meia distância, sem a necessidade de óculos. Com a correção tórica corrigimos também o astigmatismo. Com uma técnica cirúrgica muito segura, que quase elimina o risco de complicações e auxiliados por dispositivos muito precisos que nos ajudam a calcular a lente adequada a cada olho para permitir a independência de óculos.

Consulte o seu oftalmologista

Com o avançar da idade, é frequente repararmos que a nossa visão vai piorando. O cristalino, a lente que tem como função focar a diferentes distâncias, é uma das partes do olho que mais acusa o passar do tempo e podem surgir problemas visuais comuns como a presbiopia ou as cataratas. A presbiopia costuma aparecer a partir dos 40 anos e consiste na incapacidade de ver claramente os objetos próximos devido ao progressivo endurecimento do cristalino. No caso das cataratas, a sua frequência aumenta a partir dos 60 anos e caracteriza-se pela turvação da lente natural do olho – o cristalino. À medida que a catarata se desenvolve, o cristalino do olho vai endurecendo e opacificando, reduzindo a capacidade do paciente para ver. Em ambos os casos, estas patologias podem ser corrigidas através de cirurgia. A cirurgia da catarata é um dos procedimentos cirúrgicos mais comuns e anualmente realizam-se quase 22 milhões de intervenções. Só em Portugal, os especialistas estimam que superem as 100 000 por ano. A operação consiste em substituir o cristalino afetado por uma lente intraocular (LIO) num procedimento de ambulatório com duração inferior a 30 minutos, não implicando internamento. Da mesma forma, a recuperação pós-operatória é normalmente rápida e, num período de aproximadamente um mês, o olho recupera por completo e o cérebro adapta-se à nova lente. O problema da presbiopia também pode ser resolvido através de cirurgia e um dos procedimentos mais inovadores e eficazes é similar ao que se utiliza no caso das cataratas. Neste caso, o cristalino é substituído por uma lente intraocular multifocal, capaz de o substituir nas suas funções de focagem a todas as distâncias. Se sofre de problemas de visão, consulte o seu oftalmologista para conhecer quais as opções que lhe permitem recuperar a qualidade da visão e por conseguinte a sua qualidade de vida.