Medicina por definição é uma «arte de curar»

“Cada ser individual deve ser estendido como uma única forma de estar, de viver, de sentir, de reagir”, afirma Ana Paula Marum, Diretora Clínica do Cemint - Centro De Medicina Integrativa, que em entrevista à Revista Pontos de Vista desmistificou esta ideia que temos sobre a denominada Medicina Alternativa.

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Hoje com o que sabemos sobre Medicina, fará algum sentido falar-se em medicina alternativa / complementar? Não será a medicina uma ciência única que se ramifica? Qual é sua opinião? 

Não é entendível como se têm multiplicado expressões que colocam a palavra Medicina no plural. “Medicinas alternativas”, complementares, tradicionais, naturais…”? Considero-as expressões leigas e populares.

Medicina por definição é uma «Arte de Curar» com um único objetivo; tratar, cuidar de quem padece no sentido nosológico.

Esta dicotomia artificial entre “Medicinas” advém da dificuldade de aceitação de que, a ciência médica tem de evoluir conciliando pensamentos; mesmo que estes pareçam antagónicos. Dou como exemplo o pensamento médico ocidental, hipocrático em diálogo com o pensamento médico oriental, porque não? Esse diálogo entre sistemas de cuidar é possível, respeitando um dos aforismos que Hipócrates postulou: “Primum non noncere”.

Como se define então Medicina Integrativa e como se distingue das ditas Medicinas alternativas/complementares? 

Atualmente, encontramos a regular prática médica hipocrática, tão segmentada e subespecializada, que a sociedade sente necessidade, cada vez mais premente, de inverter esta tendência. O avanço médico exigiu detalhar o conhecimento científico, ampliando o campo de observação, ao ponto de se perder a noção do sistema biológico conjunto. Tem de haver quem olhe de longe, com uma lente distinta e relacione o todo, como uma rede interligada.

Medicina Integrativa é o paradigma deste diálogo. O médico integrativo “programa uma viagem” com o paciente e define o “destino do tratamento”. O tratamento é essa viagem que, por opção, pode seguir distintos caminhos: uns mais diretos, outros mais sinuosos, uns mais seguros outros assumindo riscos de efeitos secundários. Uma opção é respeitar os mecanismos fisiológicos naturais que o corpo tem de autorregeneração. Aqui podem entrar as ditas “terapêuticas não convencionais – TNC” que têm mostrado evidência de um bom equilíbrio risco/benefício. Aqui o diálogo médico-paciente é fundamental tomando uma posição consciente e ponderada por todos os envolvidos, incluindo família e amigos. 

Como pode ser explicada a missão duma clínica integrada? 

A missão de um médico integrativo é promover a saúde integral do indivíduo como um Ser integrado na sua componente social, familiar e profissional.

Por norma, a doença é avaliada de acordo com um protocolo académico que organiza o raciocínio médico em organigrama que o encaminha a um tratamento final. Quando esse caminho não é suficiente, especialmente na doença crónica multifatorial, multisistémica, exige-se uma abordagem multidisciplinar. O trabalho de equipa íntegra médico, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta, técnico do exercício físico, enfermagem, e outros terapeutas TNC.

Quais são os princípios da Medicina Integrativa?

Cada ser individual deve ser estendido como uma única forma de estar, de viver, de sentir, de reagir. A consulta médica integrada implica uma relação médica – paciente baseada na boa comunicação, confiança, empatia. 

Como funciona um tratamento integrado?

Primeiramente o doente exprime as suas expectativas e as suas inquietações no cuidado médico. O diagnóstico implica compreender o paciente, as suas crenças e a sua cultura. Mais importante do que encontrar o “rótulo” que classifica a doença no “catálogo médico” é entender os desequilíbrios fisiopatológicos que levam aquele conjunto sindrómico de sintomas, mesmo que, aparentemente nada tenham a ver uns com os outros.

O plano de tratamento é uma ação conjunta que implica o doente na sua cura e obrigatoriamente de comum acordo. O paciente deve ser um elemento ativo e colaborador em todo o processo cíclico de recuperação da sua saúde e equilíbrio, traçando um caminho em direção à saúde integral. No ciclo de reavaliação e reajuste técnico terapêutico, o doente passa por uma jornada de auto-aprendizagem. 

O que inova a Medicina Integrativa?
A integração dos sistemas de bioregulação na prática médica (BrSM)1 é uma abordagem inovadora que integra a ciência, network molecular e sistemas biológicos com a capacidade de autorregulação do paciente.

Investigações recentes têm catalisado novas ondas de pensamento na medicina, que estão enraizadas na ideia de que, uma solução mais robusta e eficaz para uma doença crónica complexa deve otimizar os sistemas homeostáticos individuais e as suas interações através de todos os níveis de organização biológica.