António Raab, Diretor-Geral da Hilti Portugal está no comando da filial lusa desde 2002. Qual era a sua ideologia quando começou na Hilti? O que pretendia?

Tinha 23 anos quando comecei na Hilti. Com 23 anos a ideologia passa um pouco pelo que vem pela frente. Formei-me no Brasil, em Economia, e com 23 anos fui para a Suíça para uma entrevista na Hilti, ao mesmo tempo que ia iniciar um Doutoramento em Economia. A 3 de agosto de 1982 iniciei o meu percurso na Hilti como estagiário na área de finanças. Não sabia ainda o que pretendia, onde queria chegar ou como imaginava o meu percurso profissional. Passados apenas seis meses percebi que podia crescer nesta empresa, que a mesma tinha condições para me dar um futuro ótimo. Percebi imediatamente que a Hilti seria uma empresa boa para as pessoas trabalharem. Já há 35 anos atrás era assim.

Passou pela liderança da operação brasileira e antes disso passou por mais de meia dúzia de países ao serviço Hilti. Está há 35 anos no grupo. O que representam estes 35 anos para si? São 35 anos de…?

São 35 anos de aprendizagem, de respeito mútuo, promessas cumpridas, amigos e de pessoas que me ajudaram a crescer e desenvolver o meu aprendizado sobre liderança. 35 Anos também de barreiras que encontrei durante o percurso, mas que foram ultrapassadas.

E hoje, passados 35 anos, alcançou o que queria? Mudaria alguma coisa no seu percurso?

Se mudaria alguma coisa? Talvez a velocidade no desenvolvimento das pessoas. Quando assumi a direção da Hilti no Brasil gostaria de ter tido mais capacidade para contribuir mais positivamente para o desenvolvimento das pessoas. Queria ter a maturidade que tenho hoje em desenvolver o talento das pessoas como tenho feito nos últimos anos. Talvez pela falta de experiência ou por ser um diretor-geral novo ainda não tinha essa perspicácia. Tinha apenas 36 anos quando assumi a direção da Hilti no Brasil. Passados sete anos assumi as mesmas funções em Portugal e entretanto já se passaram 15 anos. Foi tudo muito rápido.

Fazendo uma introspeção, quem era António Raab no início do seu percurso na Hilti e quem é António Raab hoje?

Com 23 anos ainda somos muito novos. Pensava na minha carreira, mas ao mesmo tempo queria divertir-me, viajar, conhecer pessoas e lugares novos. Hoje, penso na minha família, penso em como vai ser a minha vida daqui para a frente e planear o que vou fazer quando terminar a minha carreira. Penso mais no futuro. Amadurecemos muito com o passar dos anos. No entanto, penso que continuo a ser a mesma pessoa que era quando entrei na Hilti. Continuo a ter a mesma visão sobre a empresa e as pessoas.

Como quer que as pessoas se recordem de si?

É normal que daqui a uns anos alguém venha substituir-me, uma pessoa mais nova, tal como eu substitui o diretor-geral da Hilti no Brasil ou da Hilti Portugal. Mas sei que quando isso acontecer quero continuar, se possível, ligado à Hilti noutros projetos, desejando ter uma ligação com a Fundação Hilti, uma organização de beneficência fundada pelo fundo da família Martin Hilti, criada com o propósito de projetar um futuro melhor, apoiando projetos e organizações sem fins lucrativos, que ajudam a melhorar a coexistência social e cultural mundialmente.

Quero deixar uma organização estável e com pessoas bem preparadas. Sei que vão lembrar-se de mim pelas modificações que introduzi na empresa. Temos hoje mais de 50 pessoas a trabalhar fora do país que tiveram a oportunidade de ascender profissionalmente. Pessoas que foram desenvolvidas, não por mim, mas pela equipa da Hilti Portugal. Vão lembrar-se de mim como uma pessoa que sempre quis implementar na Hilti Portugal a estratégia da empresa e ao mesmo tempo sempre teve como prioridade desenvolver os seus colaboradores.

Não tem medo que essa ideologia se perca?

De maneira nenhuma. Essa ideologia está bem enraizada tanto na minha pessoa como na direção da empresa. Sei que 99% dos funcionários conhecem tão bem ou melhor do que eu a missão e a visão da empresa. É uma empresa que trabalha para as pessoas e sei que irá continuar a ser assim quando sair daqui. Daqui a muitos anos a Hilti irá ser a mesma empresa ou até melhor para as pessoas trabalharem.

Do que mais se orgulha na sua vida pessoal até aos dias de hoje?

Tenho um orgulho enorme nos meus filhos e na família que constituí. Orgulho-me da família de onde venho, orgulho-me dos meus pais e principalmente da minha mãe porque perdi o meu pai muito cedo, com apenas dez anos. E fui criado até aos 23 anos de idade apenas pela minha mãe. Foi uma mulher que me ensinou muito e foi uma das pessoas que mais insistiu para eu lutar pelo meu futuro e sair do Brasil para abraçar uma nova aventura. Tive também um grande apoio do meu cunhado, que nesta fase sempre esteve do meu lado.

E no seu percurso profissional?

Orgulha-me o facto de ter começado na Hilti como estagiário, passar para o departamento comercial como vendedor, mais tarde para gerente de produto, chefe de vendas, diretor de marketing na América Latina, e depois os passos seguintes como diretor-geral da Hilti Brasil e, por fim, na Hilti Portugal. Durante este percurso tive pessoas que me mostraram o caminho e me deram um grande apoio. Tenho muito bem na minha memória o Pius Baschera que me disse que a única constante na empresa Hilti são as mudanças, e ele tinha 100% de razão.

Orgulha-me o reconhecimento que tenho de muitas pessoas dentro desta empresa e mesmo fora dela. Sei que há pessoas que gostavam de continuar a trabalhar comigo e isso deixa-me profundamente orgulhoso.

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O que o faz feliz?

O que me faz feliz? Diversas coisas. Faz-me feliz ter a família que tenho, faz-me feliz trabalhar numa empresa há 35 anos que continua a me fazer feliz, jogar golfe, conduzir carros de corrida, desenvolver pessoas, ver pessoas felizes, ver o Benfica sempre ganhar, pensar no que foi feito e ver o resultado positivo. Poucas coisas me fazem infeliz.

E o que o irrita mais ou o que não tolera?

A insatisfação. Tentar fazer uma coisa bem-feita e as pessoas não reconhecerem o nosso empenho. O trânsito irrita-me. Sou uma pessoa paciente, mas no trânsito não. Principalmente se as pessoas não tiverem educação. Isso tira-me do sério.

Voltemos à sua infância. Qual é a primeira memória que lhe vem à cabeça?

A fazenda onde morava com a minha família. Dos três aos dez anos morei numa fazenda no Brasil, na cidade de Rolândia, distrito de São Martinho. Sou o mais novo dos meus quatro irmãos e lembro-me de como éramos felizes e unidos lá. Adorava andar de cavalo, da minha bicicleta e da escola primária onde estudei. Foi uma fase feliz.

Algo já fazia prever que iria ser um bom gestor de pessoas e que era este o percurso profissional que iria seguir?

A minha família ensinou-me muito e uma das primeiras coisas que me ensinaram foi escutar e respeitar as pessoas. Tivemos a educação certa. Aprendi com os meus irmãos que devemos ser unidos e respeitar-nos mutuamente. E é isso que hoje faço aqui nesta empresa. O respeito, a amizade e a comunicação que tenho com os colaboradores é muito semelhante ao que tinha com a minha família naquela época.

O que pensa ter contribuído para a formação destas características ligadas à liderança e gestão de pessoas? Ou ser líder é algo inato?

As etapas pelas quais passei, as funções que desempenhei e os cargos que ocupei em diferentes países foram fundamentais. Conhecemos pessoas diferentes, com ideologias, crenças, valores e culturas diferentes. Percebemos que temos que nos adaptar às pessoas, ao país e à sua cultura. E é assim que aprendemos a lidar e a saber gerir pessoas diferentes. Temos de aceitar que somos todos diferentes. Depois de ter saído do Brasil e quando regressei para visitar a minha família eles me escutavam e aceitavam melhor o que era dito por mim. Com o passar do tempo a minha família começou a prestar mais atenção no pequeno irmão. Depois de a minha mãe falecer assumi, em várias situações, o papel de interlocutor da “família” apesar de ser o mais novo. Mas isto não significa que liderava a minha família, mas sim que a ajudava e a apoiava. Foi assim que a minha própria família me ensinou, ajudar e apoiar as pessoas.

Já integrou o ranking Melhor Gestor de Pessoas e a Hilti tem alcançado a 1ª posição no ranking das Empresas Mais Felizes para trabalhar em Portugal. Sente que a missão está cumprida ou ainda há mais que pode ser feito?

Missão cumprida a 100%. Sinto-me extremamente feliz pelo que já foi feito aqui dentro. Mas nunca fiz nada sozinho. Fui sempre bem assessorado e muito bem acompanhado pelos diretores e colaboradores desta empresa. Todas estas pessoas me ensinaram a trabalhar, a crescer e a contribuir para o desenvolvimento da empresa.

Estes prémios e reconhecimentos devem-se à equipa da Hilti. São as pessoas que fazem a empresa. Elas é que escolheram a Hilti como melhor empresa para se trabalhar. Existe um questionário que é respondido por todos os funcionários, onde refletem um pouco sobre o ambiente que aqui se vive. Um ambiente tranquilo e feliz. Este ano fomos consideramos novamente, pela segunda vez pela revista Exame, como a empresa mais feliz para se trabalhar em Portugal. Isso não significa que aqui dentro trabalhamos todos a sorrir, mas sim que existe uma comunicação aberta e transparente com as pessoas. E aqui trabalhamos com as pessoas. Ajudamo-las a desenvolver e a crescer profissionalmente. Damos-lhe liberdade para errar e liberdade para trazerem novas ideias. Aqui todos assumem a sua responsabilidade e é assim que se vive um ambiente feliz. Estamos a falar de uma equipa de cem pessoas que gostam de trabalhar aqui. 2017 está a ser um ano bom. Estamos a contratar mais pessoas e a desenvolver pessoas para abraçarem novos projetos na Hilti, internacionalmente.

Não é fácil gerir uma equipa com tantas pessoas, mas dá-me um prazer enorme. Liderar para mim é apoiar e incentivá-las a fazer coisas fora da caixa. E, sobretudo, na Hilti confiamos nas pessoas.

Onde se imagina a terminar a sua carreira? Quer voltar ao Brasil?

Não. Hei-de voltar, eventualmente de férias e para visitar a minha família, mas o Porto é a minha casa agora. Estou há 15 anos na Hilti Portugal, já tive oportunidades para sair daqui, mas não o fiz porque encontrei o lugar onde quero ficar a viver. O Porto é uma cidade especial, com pessoas especiais e lugares especiais. Para não falar da comida portuguesa que é sensacional. As pessoas daqui são calorosas e mais acolhedoras. Aqui o sistema funciona, a segurança é ótima.

Então as palavras casa e lar para remetem-no para o Porto?

A 100%.

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Quem é António Raab

Qual é a sua qualidade?

A minha maior qualidade? Sou paciente. Mesmo as pessoas dizendo o contrário, sei que sou um bom ouvinte e sou paciente com as pessoas. Penso duas vezes antes de falar. Sou uma pessoa ponderada. Gosto de ouvir as pessoas, gosto de conversar com elas. E os colaboradores desta empresa sentem-se à vontade para falar comigo sobre qualquer coisa. Gosto de ajudar as pessoas ou de, pelo menos, amenizar os seus problemas. Isso deixa-me bem comigo próprio. Sei motivar as pessoas e mantenho sempre a mesma postura com elas.

E defeito?

Sem ser benfiquista como os meus amigos me dizem? (Risos) Sou um pouco caótico na organização. Guardo muitas coisas, não consigo desfazer-me delas. Mesmo com o meu e-mail ou com o agendamento de compromissos sou um pouco desorganizado. A desorganização é o meu ponto fraco.

Qual é a sua primeira lembrança de Portugal?

Lembro-me da minha primeira viagem a Portugal, da qual resultou uma história caricata e o porquê de ser benfiquista. Em 1987 viajava no mesmo avião que a equipa do Futebol Clube do Porto. A equipa estava a festejar a vitória e a conquista da Taça Intercontinental. Tudo bem até aqui. “As pessoas devem festejar. Sou adepto das comemorações”, diz-nos António Raab. O senão aconteceu aquando da chegada do avião no aeroporto. António Raab trazia consigo uma mala de viagem para ficar alguns meses, não conhecia nada da cidade e precisava de um táxi, mas por causa dos festejos foi uma missão impossível conseguir um. Começou andar a pé, durante 3h30, até um táxi parar. Enquanto isso passavam carros com adeptos a celebrar e a festejar a vitória do Porto. Quando entrou no táxi perguntou ao taxista se existia algum clube em Portugal que fosse o maior rival do FCP. O taxista respondeu: “claro que sim. O Benfica”. António Raab ripostou: “A partir de hoje sou benfiquista”. Hoje, António Raab tem grandes amigos portistas e ligados ao clube. Apenas se lembra do dia em que teve de caminhar durante 3h30 com uma mala com cerca de 25kg para conseguir apanhar um táxi (risos).

“Tenho só lembranças boas de Portugal, até a situação dos festejos do FCP é uma lembrança boa. Conhecer a cidade, conhecer as pessoas daqui, a praia, a ribeira são as primeiras boas recordações que tenho da minha chegada a Portugal. E, sem dúvida, os meus filhos, Bárbara e Rafael que nasceram no Porto. O Rafael estudou hotelaria na Faculdade do Estoril, mas seguiu o seu percurso profissional por outra área. Adora o que faz e escolheu o que o faz feliz. Devemos apoiar o que faz as pessoas felizes porque pessoas felizes são mais produtivas. A Bárbara estudou economia na Universidade Católica do Porto e está a seguir as minhas pisadas na Hilti Internacional vivendo e trabalhando atualmente em Chicago”, afirma António Raab.

Sendo a família a base de tudo, o nosso entrevistado foca ainda a sua esposa Regina Raab que sempre o apoiou. “Tem sido o meu pilar no desenvolvimento da minha carreira. E acima de tudo é o pilar da minha tranquilidade e harmonia na minha vida. Sem um bom ambiente na família não consigo desenvolver um bom trabalho. A família é um pilar extremamente importante para qualquer pessoa”, reforça António Raab.

Do que mais sente falta do Brasil?

Tenho muitas mais coisas das quais não sinto falta no Brasil do que sinto falta. Mas sinto falta das praias que são fantásticas. Durante muitos anos tive uma casa no nordeste do Brasil e todos os anos ia para lá de férias com a minha família. Também sinto falta disso. Sinto falta da minha família. Grande parte da minha família está no Brasil.