Nos cuidados intensivos tomamos decisões de vida ou de morte com imensa frequência. Tentamos tomá-las da melhor forma mas há sempre situações em que acabamos por perceber que afinal não foram as melhores. Sim, os médicos cometem erros, como em qualquer outra profissão”.

QUAL A VIABILIDADE DE UMA PESSOA? Qua a reversibilidade da situação clínica?

IMG_0894A necessidade de entender melhor esta questão levou o médico a pesquisar e a compreender o mundo da bioética de modo a tomar decisões – difíceis e, por vezes, irreversíveis – com mais ponderação.

O cariz ético é substancial porque “temos de entender que não estamos somente a tratar a doença mas o doente”.

O livro retrata as angústias e as preocupações em geral vividas pelos profissionais que trabalham na ala em que se está entre a vida e a morte.

CONTAR HISTÓRIAS, PARTILHAR EXPERIÊNCIAS E EXPLICAR CONVICÇÕES 

“No meio das histórias clínicas tento passar aquilo em que acredito em termos de biomédica – trata-se de um estudo que analisa as condições necessárias para uma administração responsável da vida humana – que concentra uma grande diversidade de pensamento”.

O prefácio do livro é da autoria de Mário Cláudio, autor de Retrato de Rapaz, entre muitos outros, pelo qual venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLAB 2014.

Para escrever o prefácio, Mário Cláudio explicou a António Maia Gonçalves que não entendia algumas partes do livro devido aos termos técnicos – o que levou o autor a modificar o livro e torná-lo acessível a qualquer pessoa que tenha vontade de o ler. Uma vez que, “as pessoas têm de ter alguma cultura sobre isto, porque é provável que algum dia, em qualquer momento da vida tenham de enfrentar este tipo de situações. Os cuidados intensivos são momentos de decisões importantes.

O jornalista Luís Osório e o Professor António Sarmento apresentarão a obra, no dia 25 de novembro, na Fundação Eng. António de Almeida, na rua Tenente Valadim, às 11h30, esta escolha deve-se à admiração pelo trabalho quer de um quer de outro.

UM LIVRO QUE CONTA HISTÓRIAS FELIZES E AS OUTRAS 

“No meio da imensa tecnologia dos cuidados intensivos e das magníficas condições de trabalho que existem por parte das equipas médicas e de enfermagem há mais… somos uma equipa muito coesa, não existe tempo para ter sono ou fome só há tempo para a humanização e para tomar decisões. Caso contrário torna-se assustador. Temos de partilhar o risco com as famílias. A gratidão neste tipo de medicina é imenso. Obviamente que temos de lidar com a mortalidade, não somos imunes a isso, mas temos obrigatoriamente de pensar nos casos de sucesso. Vamos aprendendo…”

No dia 25 de novembro vai poder descobrir muitas histórias no livro. Entre elas vai poder conhecer esta que não tem um final feliz, que não devia acontecer assim e que simplesmente não devia ter acontecido mas… aconteceu!

“Estava há pouco tempo naquele hospital… fui chamado à sala de emergência às 08h30, tinha feito 24 horas de serviço.

Cheguei à sala e lá estava uma criança com quatro anos, em paragem cardiorrespiratória. Os pais, desesperados, a mãe, grávida, no fim do tempo. Estive cerca de 60 minutos a reanimar a criança… sem sucesso. No meio daquela confusão toda a mãe entra em trabalho de parto. O pai, estava perdido, desesperado e sem saber a quem devia acudir – se à esposa se ao filho – ao fim de 60 minutos interrompi as manobras de reanimação e deixei a criança, o menino de quatro anos, em paz…Já não havia nada a fazer. O pai… é impossível descrever o sofrimento daquele homem. Mas tentámos apoiá-lo da melhor maneira possível, ele conseguiu assistir ao parto, o bebé nasceu bem. Passados três anos encontrámo-nos e ele disse-me: «Senhor doutor a vida continua e obrigada por tudo. A vida é assim mesmo, dá-nos umas coisas e leva-nos outras. O meu filho está bem». Até hoje não sei se ele se estava a referir ao que tinha nascido ou ao que tinha partido, não tive coragem de perguntar”.