A decisão sobre quem iria assumir a presidência do Eurogrupo foi tomada durante a tarde de ontem e o vencedor foi Mário Centeno. Visto como favorito à corrida desde o início, tinha três adversários, os ministros das Finanças da Letónia, do Luxemburgo e da Eslováquia.

Depois de uma primeira ronda de votações onde os candidatos teriam de conseguir atingir uma maioria de 10 votos – a maioria simples mais pequena que se pode gerar dentro do Eurogrupo que tem 19 membros – para serem eleitos, a candidata letã Dana Reizniece-Ozola decidiu desistir perante os resultados.

Após a segunda volta, Mário Centeno recebeu a notícia de que seria o vencedor, numa disputa com o eslovaco, Pierre Gramegna, depois da desistência do candidato luxemburguês Peter Kazimir.

No final da votação, o atual presidente, Jeroen Dijsselbloem, anunciou que Centeno tinha sido o escolhido entre “”quatro candidatos excelentes” e desejou-lhe felicidades para o novo cargo.

Notícias ao MinutoEram estes os quatro candidatos à liderança© Reuters

Dijsselbloem já anteriormente tinha sido portador de boas notícias, sem querer, ao dizer num deslize que Mário Centeno seria o seu sucessor. “Sou presidente até dia 12 de janeiro e Mário Centeno [assumirá o cargo] a 13″, disse aos jornalistas à entrada da reunião que iria decidir o vencedor.

E se à entrada da reunião, Mário Centeno referiu estar confiante, depois da vitória disse estar preparado e ansioso para formar consensos.

“É uma honra devido à relevância deste grupo, à qualidade dos meus colegas e à importância do trabalho que temos de fazer nos próximos anos”, declarou em inglês, durante a conferência de imprensa.

Com esta eleição não há margem nem para descuidos, nem aventurasO Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou a conquista do ministro das Finanças, mas reforçou alertas. Com esta eleição não há margem “nem para descuidos, nem aventuras em matéria financeira em Portugal”, avisou.

Se o Governo não estivesse a produzir bons resultados o presidente do Eurogrupo não seria o ministro das Finanças de PortugalA partir de Marrocos, António Costa referiu-se à eleição do seu ministro das Finanças como um reconhecimento internacional da credibilidade de Portugal numa área sensível. “Hoje já não discutimos défices excessivos, não discutimos sanções, hoje podemos congratular-nos de ver o nosso ministro das Finanças a ser eleito presidente do Eurogrupo”, fez sobressair. O primeiro-ministro aproveitou, ainda, o momento para garantir que se o Governo não estivesse a produzir bons resultados “o presidente do Eurogrupo não seria o ministro das Finanças de Portugal”.

Centeno conseguiu mostrar que era possível uma alternativa política cumprindo as metas orçamentaisOs partidos também fizeram questão de reagir a esta vitória, com o PS a afirmar, pela voz de João Galamba, que esta era “uma boa notícia para Portugal e uma excelente notícia para a Europa”, referindo-se a Centeno como um ministro que “não cortou pensões e conseguiu mostrar, quer em Portugal, quer na Europa que era possível uma alternativa política cumprindo as metas orçamentais”.

O problema não está na presidência do Eurogrupo, está no EurogrupoBloco de Esquerda manteve a dúvida de que esta vitória vá mudar a natureza do Eurogrupo. Mariana Mortágua considera que “o problema não está na presidência do Eurogrupo, está no Eurogrupo, que é um grupo informal de ministros das Finanças que não estava previsto nos tratados, mas que concentra em si um enorme poder (…) e, muitas vezes, pondo em causa decisões democráticas” de outros países.

Eleição não representa uma decisão positivaPara o PCP, a eleição de Mário Centeno, por outro lado, não traz nada de positivo para Portugal, deixando desde já o aviso de que pretendem combater eventuais tentativas de o Governo acentuar restrições ao investimento público. A eleição “não representa uma decisão positiva para a defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo português”, disse João Ferreira, numa declaração na sede do partido.

 ‘Os Verdes’ (PEV) reagiram à notícia com receio de uma maior submissão à União Europeia e aos condicionamentos da Zona Euro. Em comunicado, afirmaram que caso isso acontecesse “seria profundamente negativo para Portugal”.

Não é possível presidir ao Eurogrupo e depois prevaricar dentro de casaDo lado do PSD houve saudações, mas também alertas. Duarte Pacheco reagiu à eleição afirmando que este é “um aumento da responsabilidade de Portugal”, que fica assim comprometido com as regras europeias. “Sabemos que o Governo português, que já assumia isso como um compromisso de Estado, tem agora um compromisso pessoal também”, porque, vincou Duarte Pacheco, “não é possível presidir ao Eurogrupo e depois prevaricar dentro de casa”.

Política de oposição não mudará pelo facto de o ministro das Finanças ser presidente do EurogrupoTambém o CDS afirmou que a eleição deve ser valorizada, mas que o seu sucesso vai depender do “desempenho do próprio”. João Almeida alertou ainda que a “política de oposição não mudará pelo facto de o ministro das Finanças ser presidente do Eurogrupo”.

Pela Europa, o comissário europeu para os Assuntos Económicos e Financeiros, Pierre Moscovicisublinhou alguns dos desafios que Centeno irá encontrar na liderança do Eurogrupo, referindo que o ministro das Finanças assume a presidência num momento tão delicado como aquele que recebeu Dijsselbloem, há cinco anos.

Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia e ex-presidente do Eurogrupo, congratulou Mário Centeno, reconhecendo-lhe “todas as qualidades necessárias para assumir tão importante responsabilidade”.

Poucas horas depois de ter garantido a presidência do Eurogrupo, Mário Centeno voltou a comentar a sua eleição, desta vez apenas aos jornalistas portugueses. O governante reiterou a enorme honra que é assumir o cargo, mas garantindo que a eleição “não muda nada” na engrenagem da ‘geringonça’, referindo-se aos compromissos de governação assumidos com Bloco e PCP, os seus parceiros parlamentares.

O mandato de Mário Centeno inicia-se a 13 de janeiro de 2018 e tem duração de dois anos e meio, até meados de 2020 , continuando para lá da atual legislatura em Portugal.