ritual em honra do padroeiro do concelho cumpre-se pela 513.ª vez consecutiva e esperam-se milhares de visitantes no centro da cidade, em dois momentos do dia: de manhã, no cortejo cívico que é tradição local desde a implantação da República e que termina na missa de bênção das fogaças na Igreja dos Loios; e à tarde, quando as meninas dos 7 aos 16 anos exibem a fogaça prometida como voto ao mártir numa procissão pelo centro da cidade.

A gestão de toda a logística relativa a essas crianças e jovens cabe ao “Cantinho das Fogaceiras”,tutelado pela Divisão de Educação da autarquia, que reconhece este ano uma dinâmica “recorde” na movimentação de vestidos, calçado e acessórios para garantia de resposta a todas as solicitações.

“Generalizámos a possibilidade de se recorrer ao empréstimo de roupa para a festa e neste momento temos um ‘stock’ de 169 vestidos e 100 pares de sapatos”, revelou Ana Carvalhinho, uma das responsáveis pela referida estrutura. “Todos os vestidos foram requisitados e no sábado ainda vamos complementar o guarda-roupa das meninas com luvas brancas e com as faixas de cetim colorido que levam à cintura, sobretudo em vermelho e azul, que são as cores do brasão da Feira”, acrescentou.

Limite de idade máximo para a participação no evento não há, mas o mínimo exigido às fogaceiras é que cumpram 8 anos em 2018, para demonstrarem já “alguma maturidade” no desempenho da sua “missão” – que envolve muitas horas de pé, transportando uma fogaça à cabeça e exibindo sempre “postura de fogaceira”.

Esse comportamento está descrito no Manuel de Boas Práticas da Fogaceira, previamente distribuído por todas as escolas do concelho, e Ana Carvalhinho define-o como a capacidade de “perceber o sentido do voto a São Sebastião, cumprir as regras do branco singelo e discreto, e agir com educação, demonstrando boa conduta”.

Cátia Alves é mãe de três meninas que participam nos corsos da Festa das Fogaceiras e admite à Lusa que as suas duas gémeas “são particularmente terríveis”, mas reconhece que a solenidade do evento lhes incute em cada 20 de janeiro “uma outra postura”.

“A primeira a participar foi a Beatriz, que ao ouvir falar das Fogaceiras na escola ficou muito empolgada, quis inscrever-se e fica sempre muito contente ao participar porque gosta da festa e de fazer amigas novas”, revelou a mãe. “A Rita e a Sofia depois quiseram fazer o mesmo e agora tenho que gerir três fogaceiras em casa, o que é muito mais complicado porque são três vestidos, três penteados, três tudo!”, realçou.

A gestão desse guarda-roupa tem sido facilitada, contudo, pela dinâmica comunitária proporcionada pelo Cantinhos das Fogaceiras: só este ano, por exemplo, Cátia requisitou aí dois vestidos a título de empréstimo, oferecendo a esse banco de vestuário dois pares de sapatos brancos que deixaram de servir às gémeas.

O mais complicado continuará a ser o acompanhamento das meninas de 8 e 11 anos durante o evento, para as apreciar e tirar-lhes fotografias. “Como elas estão organizadas por idade e altura, é uma confusão correr para trás para ver a mais velha e depois correr para a frente para ver as mais novas”, conta.

O facto de este ano a festa coincidir com um sábado também não ajuda muito a mãe das três fogaceiras, que continua a trabalhar por turnos e não poderá orientar-lhes a ‘toilette’ durante a manhã, mas para esse serviço já requisitou um novo colaborador: o pai das meninas, que, emigrado na Suíça, aproveitará o facto de o evento ser ao fim de semana para vir ver as filhas sem ter que tirar férias para isso.

“Com quatro olhos vai ser mais fácil segui-las, pelo menos na procissão da tarde”, avalia Cátia. “E é mesmo melhor estar de olho porque, como o pai vai estar cá, elas este ano estão especialmente nervosas”, afirma.

Em todo o caso, o cumprimento da promessa feita há mais de cinco séculos para pôr fim à Peste Negra “compensa sempre qualquer stresse” e Cátia garante: “Sou de Chaves e também gosto muito dos nossos Reis de São Sebastião, com o banquete dos homens casados, mas adotei a fogaça e a Feira como minhas e acho que a festa é tão bonita que vale bem esta correria toda”.

Lusa