O SIMAS assenta num modelo organizacional de gestão focado na otimização de resultados, com vista aos recursos humanos e tecnológicos, de forma a criar valor acrescentado para os clientes e municípios envolvidos. De que forma funciona este modelo?

Os SIMAS, ao longo dos anos têm, efetivamente, aplicado os resultados obtidos decorrentes das suas atividades, em investimentos vários com o intuito de criarem, sempre, mais e melhor valor para o cliente. E isso verifica-se nas novas tecnologias que são desenvolvidas para melhorar o relacionamento com os mesmos, com mais rapidez, conforto, eficácia e contribuindo para a redução e, até, para a consequente eliminação do erro. Mas também se verifica ao nível operacional, com a constante intervenção na remodelação e substituição de redes de água e saneamento, com as campanhas de substituição de contadores e com o projeto piloto de telemetria que agora iremos iniciar e que envolve o desenvolvimento de uma nova tecnologia, num ambiente operacional.

Que tipo de intervenções fazem parte das vossas competências?

Todas as intervenções associadas à construção, gestão e manutenção de redes de água, saneamento de águas residuais e recolha de águas pluviais. Acresce, naturalmente, o relacionamento contratual com os munícipes de Oeiras e Amadora, no que diz respeito à ligação à rede pública de abastecimento de água para consumo humano e à rede de saneamento de águas residuais. Por esse facto, temos uma estrutura associada a um laboratório acreditado, que garante a qualidade da água que é abastecida e recolhida. Como adquirimos água a uma entidade terceira, em alta (EPAL), temos uma rede de reservatórios, nos dois Concelhos, que nos permitem assegurar o abastecimento, à população, na eventualidade de uma interrupção integral do abastecimento por parte dessa entidade, de mais de dois dias.

Quais são, na sua opinião, os grandes desafios que Portugal enfrenta na boa gestão da água?

O último verão demonstrou que a gestão, distribuição e reserva de água em Portugal está algo desequilibrada. Naturalmente que esta situação, não podendo ser considerada inesperada, aconteceu de uma forma bastante intensa e repentina, o que pode ter condicionado uma melhor resposta por parte de quem tinha a responsabilidade de fazer face a este problema.
Sequencialmente e porque já é algo que se arrasta há muito tempo, tarda em ser definitivamente resolvida, a estabilização da gestão territorial da água, em baixa, de acordo com aquilo que é o objetivo deste governo, mas também já era de outros, anteriormente. A intenção é nobre, pois passa por criar dimensão, competitividade e maior justiça social em serviços de pequena dimensão, através da criação de condições para que os mesmos se agreguem. Esta agregação, também poderia criar condições para a captação do financiamento necessário à realização dos investimentos necessários a uma cobertura mais alargada das redes de água e saneamento, algo que é muito difícil de assegurar, de forma competitiva, em muitas regiões do país, onde impera a dispersão territorial.
Importa, por fim, de uma vez por todos, fazer aprovar o Decreto-Lei do Regime Tarifário e legislar sobre a construção, gestão e manutenção das redes pluviais, nomeadamente, criando condições para se arrecadarem as receitas necessárias para fazer face a esse investimento (criação de uma nova tarifa?), dado que estamos a falar de uma rede que é propriedade dos Municípios.
Não quero deixar de falar de algo que me é muito caro e me acompanha, enquanto profissional do setor, desde há mais de dez anos a esta parte, que tem a ver com a reutilização das águas residuais. Num momento de seca extrema e severa que vivemos, que melhor altura para discutir, legislar e decidir sobre esta matéria? Claro que, enquanto for mais barato continuar a usar água para abastecimento humano para todos os fins, dificilmente se muda o paradigma. É isso e pedirem a Municípios urbanos, como são os nossos, para fazerem campanhas a apelar à poupança da água quando, de acordo com o Plano Nacional para o Uso Eficiente da Água, a pressão hídrica, nacional, situa-se, sobretudo, no setor agrícola, onde se utiliza cerca de 80% de toda a água consumida em Portugal!

As alterações climáticas são um assunto preocupante também no que diz respeito a recursos naturais como é o caso da água. Neste momento quais são as principais questões que estão em cima da mesa sobre o assunto?

Já tive oportunidade de me referir a esta questão, a propósito do período de seca que vivemos em Portugal. Esta situação não pode ser considerada alheia às alterações climáticas, pois os indicies de pluviosidade têm vindo a reduzir-se drasticamente nos últimos anos e, se isso se tem revelado inevitável e de combate difícil, já a prevenção e as ações que poderiam fazer face às consequências tão gravosas como aquelas que se verificaram este ano, deveriam ter sido mais eficazes e assertivas.
Considerando que estamos num ponto sem retorno, espero, sinceramente, que se desenvolvam as politicas públicas no setor, mais adequadas e conducentes às melhores práticas que já se verificam em outros países que sofrem com o mesmo mal. Aprender com os melhores não é sinal de impotência, mas, sim, demonstração de humildade e inteligência.

Os últimos incêndios em Portugal trarão mais consequências do que as já registadas?

As consequências dos incêndios, para a qualidade da água das albufeiras nas regiões mais afetadas, são violentíssimas, pelo arrastar dos sedimentos contaminados provenientes dos terrenos incendiados e que são arrastados pelas chuvas. Obriga a um maior controlo e monitorização, assim como a um tratamento mais intenso da água, o que poderá aumentar o seu custo, na origem, para além de poder fazer piorar os seus níveis de qualidade, os quais se têm revelado de excelência. Isto é algo que importa dizer, em reconhecimento pelo esforço que tem sido empreendido, ao longo dos últimos anos, pelas entidades gestoras, pelos sucessivos governos, pela entidade reguladora e pela Agência Portuguesa do Ambiente.

Recentemente, receberam financiamento do Fundo Ambiental para a aquisição de veículos elétricos para os serviços técnicos de Porto Salvo e Brandoa. Como está a ser a experiência?

É uma experiência bem-sucedida e a repetir. Só lamentamos que o financiamento seja, relativamente, escasso e as viaturas elétricas ainda não apresentem o preço competitivo que, com o tempo, espero que venham a apresentar. Acredito que seja este o futuro, mas, à semelhança do que sucede com o preço da água reciclada, também os carros elétricos não podem continuar a ser mais caros do que os carros movidos a combustíveis fósseis. Se assim for, tardaremos a chegar lá.

Têm componentes de educação ambiental e de responsabilidade social fortes, como funcionam ambas?

Os SIMAS sempre se focaram no seu impacto junto da comunidade. Como tal não têm sido poupados esforços na tentativa de elucidar a população para temáticas como a sustentabilidade ambiental. Sendo a comunidade educativa um dos principais alvos das campanhas de sensibilização, é através dela que tentamos alterar comportamentos, facultando conselhos práticos de utilização da água, através de vários projetos como o Clube da Água, o Programa de Educação Ambiental, as comemorações dos dias nacional e mundial da água ou, mesmo, da peça de teatro “Doce Gotinha”.
Também ao nível de campanhas internas, os SIMAS mantêm a preocupação relativamente à sustentabilidade e educação ambiental. Este ano foi lançada a campanha “1 copo 1 litro”, sensibilizando os trabalhadores para o elevado volume de resíduos diários provocados, sobretudo, pelo uso intensivo de recipientes de plástico.
Estivemos, também, presentes no Encontro de Delegados BCSD Portugal, afirmando o protagonismo crescente do conceito da sustentabilidade. A assunção de uma gestão prosseguindo práticas corretas, almejando objetivos adequados, assumindo responsabilidades sociais e práticas ambientalmente corretas e coerentes, em consonância com o crescimento económico e a sustentabilidade da organização, é assumida como uma estratégia de desenvolvimento enquanto instrumento privilegiado de reforço da competitividade, de otimização das capacidades e meios internos, e de envolvimento de todos os nossos stakeholders.
Para manter o bem-estar do público externo, e porque o que realmente importa são as pessoas, os SIMAS promoveram, também, diversas campanhas que estão relacionadas com os temas anteriormente referidos. Aí se insere, por exemplo, a campanha de promoção para adesão à fatura eletrónica, bem como a criação dos tarifários social e familiar.

O que pensa sobre a implementação de projetos de reutilização de águas residuais? Os portugueses vêm o tratamento e a reutilização da água como algo bom?

Já abordei esta temática na resposta a uma pergunta anterior. Considero que é um processo inevitável, face à escassez de água com que nos temos defrontado (os tempos áureas, em Portugal era um país cheio de água, não são mais do que isso, tempos áureos…) e ainda que possam existir algumas resistências, não podemos deixar de considerar essa hipótese com a responsabilidade de estarmos perante uma grande oportunidade. Tem é de se reduzir os custos de produção e tomar por boas e factuais, por exemplo, as declarações de Filipe Duarte Santos (por sinal, um dos oradores na Water Summit que iremos realizar no dia 22 de março):
“Deitar na sanita água que bebemos, é um luxo”.

Quais são neste momento as prioridades do SIMAS enquanto entidade de serviço público?

Os mesmos de sempre, porque os SIMAS são uma organização dinâmica, que está sempre a reinventar-se e a procurar seguir as melhores práticas do setor (a nível nacional e internacional). O nosso caminho, que nunca terá fim, será sempre percorrido rumo à excelência. À excelência no serviço ao cliente, à excelência na garantia de uma irrefutável qualidade da água, à excelência na equidade e no tratamento diferenciado dos clientes consoante o seu extrato social e familiar, à excelência na prossecução e aplicação das melhores práticas ambientais e sustentáveis, à excelência nos equipamentos que são instalados e na gestão da rede pública que transporta toda a água que é abastecido nestes dois Concelhos.
Tudo isto consegue-se com a implementação de novas tecnologias associadas ao serviço ao cliente, às leituras e medições, à gestão interna no apoio à decisão, à gestão comercial; com o continuado investimento na remodelação e substituição de redes; com a prossecução das campanhas de substituição de contadores; com a construção de mais dois reservatórios; com a construção (em curso) do novo edifício de serviços técnicos; com o aprofundamento do nosso envolvimento no Conselho Nacional para o Desenvolvimento Sustentável; e com o desenvolvimento do trabalho que temos vindo a fazer e a acompanhar no seio do fórum iGen, criado no seio da Comissão para a Igualdade no Trabalho e na Empresa.

A gestão eficiente e ambientalmente sustentável dos recursos hídricos passa por…?

Passa por todos os players neste setor assumirem, de forma consciente, as suas responsabilidades; passa por ter a coragem de contrariar ideias e práticas pré-concebidas, que estão a ser ultrapassadas pelos acontecimentos e pela realidade que nos entra pelos olhos dentro; e passa por capacitar os profissionais do setor para os grandes desafios que já chegaram e para todos aqueles que aí vêm e que não pedirão licença para entrar.