Com sede na ilha da Madeira, o Grupo Sousa tornou-se um dos três principais grupos portugueses do setor marítimo-portuário. Que fatores contribuíram para esta posição e solidez?

O Grupo Sousa iniciou a sua atividade há mais de 30 anos com o transporte marítimo de carga entre o Continente e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e na operação portuária. Consolidou as operações que progressivamente foi integrando na sua estrutura, alargando as suas atividades aos setores da logística, energia e turismo. Correspondemos à dinâmica dos mercados onde operamos com grande flexibilidade na ótica da prestação de serviços de excelência, para garantir um elevado nível de satisfação e fidelização dos nossos clientes, parceiros e colaboradores. A nossa solidez advém, sobretudo, do “saber fazer” dos cerca de 700 colaboradores que integram os nossos quadros, que atualmente se repartem entre o Continente Português, Madeira, Açores, Cabo Verde, Guiné-Bissau, mas também entre os quatro navios que constituem a nossa frota.

É considerado pela Alphaliner o maior armador nacional. Como definiria a estratégia do Grupo?

Prestamos serviços em toda a cadeia de valor: transporte marítimo, operação portuária, agenciamento de navios, terminais de logística, transporte rodoviário de mercadorias e serviços de manutenção. O nosso objetivo é fornecer soluções de transporte integradas, privilegiando a utilização de meios próprios nos setores marítimo-portuário, transporte marítimo de carga e passageiros, terminais e operações de logística, gás natural (Small Scale LNG) e energias renováveis. Temos vindo a fomentar parcerias estratégicas com operadores de referência e a antecipar as tendências do mercado, oferecendo soluções de vanguarda aos nossos clientes.

Ao longo dos últimos 20 anos o Grupo Sousa tem atuado em diferentes áreas de negócios. Que principais marcos ou etapas enumeraria como fundamentais para a história do Grupo?

Foram dados três passos importantes nos últimos dez anos. (1) Transporte marítimo: aquisição da Boxlines (2010) e da Port Line Containers International (2015) que conferiram profundidade estratégica e dimensão internacional às linhas marítimas operadas pelo Grupo Sousa, por agora entre Portugal, Marrocos, Canárias, Cabo Verde e Guiné-Bissau. (2) Energia: a operação logística de GNL, iniciada em 2014, entre o Terminal de GNL de Sines e a ilha da Madeira, através da qual mantemos o maior “gasoduto virtual de GNL” do Atlântico para a produção de energia elétrica. É uma operação pioneira em Portugal, uma referência internacional com mais de 5.200 contentores de GNL consumidos, que pode representar 25% da matriz energética da Madeira. Realizámos, também, o 1º abastecimento de GNL a um navio em Portugal no porto do Funchal, ao navio de cruzeiros Aidaprima, operação que mantemos até abril deste ano. (3) Indústria de Cruzeiros: O Grupo Sousa é o único grupo empresarial português do consórcio multinacional que, desde 2014, detém a concessão para a construção, operação, financiamento e transferência do novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa por um período de 35 anos, representando 30% do capital, do qual fazem parte a Global Ports Holding (Turquia), a Royal Caribbean (EUA) e a Creuers Ports (Barcelona).

Com uma vasta experiência em diferentes áreas de intervenção, qual é o caminho a seguir pelo Grupo Sousa?

Esse caminho já está a ser percorrido. Trabalhar, todos os dias, para continuarmos a ser o melhor operador marítimo-portuário de Portugal, especialista logístico de excelência que, privilegiando a utilização de meios próprios, está apto a proporcionar soluções inovadoras com reconhecida credibilidade, e que procura fazer sempre melhor.

A Indústria 4.0 ou a quarta revolução industrial está aí. Já se fizeram sentir os seus efeitos no setor marítimo-portuário?

Ao longo dos últimos anos têm vindo a ser dados passos importantes no âmbito do shipping 4.0. Hoje é comum utilizar sensores para supervisionar o que se passa a bordo de um navio em tempo real, sendo disso exemplo a monitorização dos parâmetros de contentores frigoríficos 24h/dia. Trata-se de informação crucial para que possamos atuar, sem demora, na reposição das condições de operação desses equipamentos, preservando a qualidade da carga e, portanto, do seu valor. Na atividade portuária existem hoje alguns terminais de contentores com elevado grau de automatização, dotados de máquinas e tratores com sensores e câmaras, controlados por operadores que atuam a partir de uma torre de controlo. Apesar destes exemplos, o setor marítimo-portuário tem ainda, no plano nacional, que recuperar o atraso tecnológico de que padece, pelo que a evolução proporcionada pela Janela Única Portuária e, recentemente, com a Janela Única Logística, constituem iniciativas importantes para a simplificação e digitalização do sector. No plano mundial estão a dar-se passos no sentido de criar um conhecimento de embarque eletrónico inteligente (Bill of Lading), utilizando a tecnologia Blockchain. Trata-se de um instrumento fundamental para a circulação marítima de mercadorias que há muito deveria estar a funcionar em formato eletrónico, reconhecido e validado universalmente.

Quais considera ser os fatores críticos para que se alcance o sucesso pretendido neste desafio que é a Indústria 4.0?

Em primeiro lugar, é indispensável desburocratizar os processos inerentes à circulação das mercadorias por via marítima, aproveitando as tecnologias de informação que estão disponíveis, num esforço conjunto de todas as entidades, públicas e privadas. Em paralelo, a questão da capacitação dos recursos humanos é determinante para que o processo de digitalização e interação com as máquinas, e com os navios em especial, se faça de forma eficaz. Por último, não menos importante, a liderança, já que estamos num processo de mudança que, apesar de tecnológico, comporta uma transformação que resultará em novas formas de trabalhar que permitirão obter ganhos de eficiência, cujo propósito é alavancar o negócio por forma a que as empresas sejam cada vez mais competitivas. Quem não acompanhar estas evoluções e implementar as que são viáveis, corre sério risco de ficar fora de mercado.

É uma realidade que começa a ter efeitos nos indicadores operacionais das empresas. Que ferramentas nos traz que permitem alterar beneficamente os setores de atividade?

Em termos de hardware, a produção e instalação dos sensores para recolha e transmissão da informação sobre a condição dos sistemas e equipamentos. Por outro lado, o software potente, inteligente e interoperável que possibilita filtrar, gerir e partilhar a informação pertinente. Estas capacidades, a par de comunicações fiáveis e seguras que permitam a transmissão em tempo real (real time), ou quase real (near real time), a baixo custo para o decisor, constituem ferramentas indispensáveis para o sucesso desta revolução.

Hoje, produtos, máquinas e pessoas estão ligados em rede, cada vez em maior número, através de plataformas digitais que disponibilizam informação em tempo real. Para si, o que acarreta esta revolução industrial?

No shipping já existem casos muito concretos da utilização de sensores nos navios. A exemplo dos contentores frigoríficos, a monitorização pode ser estendida a outros contentores, entre outros, os de transporte de GNL. A IOT (Internet of Things) tem permitido otimizar o consumo de combustível e as rotas em função das condições atmosféricas e oceanográficas prevalecentes. Sobre a manutenção dos navios certamente que também se verificará uma evolução, centrada na recolha, tratamento e transmissão de dados a navegar, relativos à condição dos seus sistemas e equipamentos, monitorizada pelas equipas de manutenção em terra em tempo real. São capacidades em permanente evolução, de aplicação transversal em muitas áreas de atuação do Grupo Sousa, designadamente nas operações portuárias e na logística.

A Quarta Revolução Industrial é considerada “a revolução da digitalização massiva, da Internet of Things, da aprendizagem automática (machine learning) e da robotização, mas também da nanotecnologia e dos novos materiais, e da biotecnologia”. Está o setor marítimo-portuário preparado para esta revolução?

Está a acompanhar e a preparar-se. No setor portuário assiste-se já, nalguns terminais, à automatização da estiva de contentores, controlada a partir de uma central e, a seu tempo, perspetiva-se que as operações portuárias sejam feitas numa base M2M (Machine to Machine), em resultado do machine learning, dispensando a intervenção humana. De igual modo, tem-se assistido a resultados promissores de investigação e desenvolvimento para os navios, que se traduzem na sua autonomia progressiva podendo, em última instância, ser integralmente dirigidos a partir de uma “ponte de comando” em terra. também neste caso, com o M2M, perspetiva-se, em última análise, a não intervenção humana neste processo. Importa, ainda, sublinhar que esta revolução tecnológica deverá ser acompanhada da revisão da moldura legal aplicável aos navios, à navegação e aos tripulantes, com impacto em Convenções e Regulamentos à escala global e em diplomas legais dos Estados, em matérias como a segurança da navegação, poluição do meio marinho, trabalho dos inscritos marítimos, seguros, mas também da defesa e proteção dos interesses dos Estados nos espaços marítimos sob sua jurisdição e soberania, um enorme desafio que é indissociável da revolução do shipping 4.0.