Sabe quanto tempo a informação fica disponível?

Daniel Gomes é investigador doutorado em Engenharia Informática pela Universidade de Lisboa e Gestor do Arquivo.pt na Fundação para a Ciência e Tecnologia, um serviço público que surge para preservar a informação que é publicada na web e para se tornar na memória da web portuguesa.

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Há dez anos, o Arquivo.pt era um “simples” projeto académico. Hoje é um serviço que funciona como backup e motor de busca do passado da web portuguesa onde é possível pesquisar por páginas web desde o ano de 1996.

O Arquivo.pt é hoje um serviço público e de acesso público da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Começou em 2001 como um projeto feito em colaboração com a Biblioteca Nacional, evoluindo, posteriormente, na Universidade de Lisboa.

Em 2006 Daniel Gomes faz o Doutoramento em Engenharia Informática pela Universidade de Lisboa e em 2007 inicia a transformação do projeto num serviço na Fundação para a Computação Científica Nacional (FCCN).

Em 2008 é feita a primeira recolha de conteúdos da web portuguesa para serem preservados e em 2010 é lançado o primeiro protótipo do sistema de pesquisa e de acesso à informação preservada.

Em 2016 o Arquivo.pt efetiva-se como serviço que é prestado à comunidade científica e académica, mas também ao cidadão comum.

INFORMAÇÃO PARA CRIAR CONHECIMENTO

A internet surge “a medo” em Portugal em meados dos anos 90. Hoje tudo está ligado à internet e a informação está toda online. Já não existe uma informação impressa que posteriormente é colocada online, mas sim informação que já nasce de forma online. A informação é já, nos dias de hoje, digital. “A sociedade produz toda esta informação que fica ao dispor para qualquer cidadão, mas durante quanto tempo é que esta informação fica disponível? Está disponível muito menos tempo do que estavam os livros ou os jornais em papel”, começa por referir Daniel Gomes.

A verdade é que 80% das páginas que estão disponíveis hoje daqui a um ano já não estão ou os conteúdos já mudaram. “Vivemos atualmente numa sociedade onde se produz muita informação, mas que também perde muita informação. Como é que conseguimos criar conhecimento com uma informação que é tão efémera?”, questiona o nosso entrevistado.

Esta é, portanto, a génese para criar os arquivos da web, ou seja, preservar a informação que é publicada na web, tal como os arquivos foram criados para preservar e dar acesso à informação impressa.

“Preocupa-nos potenciar a Ciência, contribuindo por exemplo para a História ou a Sociologia. Na prática, como é que conseguimos descrever um determinado evento que aconteceu há dez anos ou analisar um fenómeno sociológico se não acedermos aos conteúdos digitais?”, acrescenta, ainda, Daniel Gomes.

Mas o Arquivo.pt não responde apenas a questões históricas ou sociais. A vertente económico-social também terá benefícios com este arquivo. “Olhemos para as organizações que têm custos elevados associados à criação de sites e de proteção dos conteúdos. A informação aqui gerada pode perder-se. Estimamos que o dinheiro que foi investido para a criação dos sites que estamos a preservar no Arquivo.pt é equivalente ao PIB de Portugal em 2016, ou seja, perder esta informação é o equivalente a perder um ano do PIB português”, diz-nos Daniel Gomes. Estamos aqui a falar, portanto, de um serviço criado para funcionar como um backup e motor de busca do passado da web portuguesa. A principal missão desta iniciativa é preservar os projetos que vão sendo criados sob o domínio .pt.

Pode ser visto como um pilar essencial ao nível de informação para fins de investigação, mas o potencial do Arquivo.pt é muito mais do que isto. Estamos a falar da possibilidade de podermos aceder ao passado de tudo o que é colocado na web.

Os desafios, esses, passam por manter a qualidade do serviço considerando a evolução da web. A transformação digital será constante e a tecnologia está a evoluir num sentido em que diariamente surgem novas soluções, novas projetos e produtos inovadores. “Temos de conseguir acompanhar esta evolução constante da tecnologia e a forma como a informação surge e é publicada, ao mesmo tempo que mantemos acessível a informação que já foi publicada no passado”, explica o nosso interlocutor.

Daniel Gomes reforça que preservar não é sinónimo de armazenar. Armazenar é apenas uma parte da preservação e para preservar é necessário conseguir recolher, armazenar e manter o acesso ao longo do tempo.

Outro dos desafios passa por conseguir pesquisar, igualmente, imagens já preservadas. Neste sentido, está já a ser desenvolvido um serviço para assegurar esta vertente, cujo protótipo será lançado ainda este ano.

“A TRANSFORMAÇÃO DIGITAL AINDA NÃO ESTÁ COMPLETA”

A transformação digital ocorreu, está cá e agora precisamos de nos adaptar. Aqui surgem fatores como a iliteracia digital.

Hoje em dia toda a gente usa a internet, mas poucas pessoas têm o mínimo de conhecimento de como é que a internet funciona. “Para uma boa literacia digital é essencial, igualmente, ganhar a consciência da importância da preservação digital”, afirma Daniel Gomes.

A informação não deve ser só protegida e publicada, mas também preservada. “Toda a gente concorda que informação é poder e que é necessária informação para produzir conhecimento, mas esquecem-se que nos dias de hoje a informação é produzida e perdida. A transformação digital ainda não está completa enquanto não houver esta consciencialização de que é importante preservar também a informação publicada na Internet”, conclui Daniel Gomes.

80% dAS PÁGINAS DA web desaparecem ou mudam passado apenas 1 ano.