As memórias autobiográficas de Elias Canetti confundem-se “com a atribulada história do século XX”, descreve a editora Cavalo de Ferro, que, com mais esta edição, dá sequência à publicação em Portugal das obras do romancista e ensaísta Elias Canetti (1905-1994), vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 1981.

São três os volumes a lançar em 2018, o primeiro dos quais, “A língua resgatada — História de uma juventude”, que tinha sido editado pela Campo de Letras em 2008, trata o período de vida do autor entre os anos 1905 e 1921.

Traduzido por Maria Hermínia Brandão, o primeiro volume desta “extraordinária e singular odisseia cultural” — como lhe chamou a Haper’s Magazine — divide-se em cinco partes: “Ruse” (cidade búlgara), entre 1905 e 1911, “Manchester”, de 1911 a 1913, “Viena”, para 1913 a 1916, “Zurique — Rua Scheuchzer”, de 1916 a 1919, e “Zurique — Tiefenbrunnen”, de 1919 a 1921.

Este primeiro volume oferece um retrato do contexto pessoal e do desenvolvimento criativo de Canetti, durante os anos cruciais da sua juventude, segundo a editora.

“A minha lembrança mais antiga está pincelada de vermelho” — assim começa o autor, que se recorda de sair por uma porta, ao colo de uma rapariga, e ver um chão vermelho e uma escada também vermelha.

O autor conta como, com dois anos, viu um homem aproximar-se, mandá-lo pôr a língua de fora, ameaçar cortá-la e no fim recolher a lâmina deixando a promessa de o fazer no dia seguinte.

“Todas as manhãs saímos pela porta para o corredor vermelho, a porta abre-se e aparece o homem sorridente. Já sei o que vai dizer e fico à espera da ordem para mostrar a língua. Sei que ma vai cortar e tenho cada vez mais medo. Começa assim o dia, e isto acontece muitas vezes”.

O homem era afinal o namorado da sua ama — uma rapariga de 15 anos — que, desta forma, assegurava o silêncio do rapaz, o que conseguiu durante um período de dez anos, quando finalmente o autor interrogou a mãe sobre o assunto.

A partir daí, as suas memórias prosseguem até aos 16 anos, desde a cidade búlgara da infância, cruzamento de povos e culturas, onde Canetti tomou contacto com mais de seis línguas diferentes, à cosmopolita Manchester, ou da imperial cidade de Viena, à pacata Zurique.

Estes são os cenários que moldarão o crescimento do autor, sempre sob os efeitos da conturbada relação com a mãe, narrados de uma forma íntima, mas também intensa e veloz.

Um livro que, nas palavras do escritor americano Paul Theroux, “evoca paixão e poder” e “está repleto de cidades e cenários e pessoas extravagantes — lobos, amantes, lendas, guerra e disputas”.

O segundo e terceiro volumes, inéditos em Portugal, saem, respetivamente, em junho e no segundo semestre, em data ainda a determinar, com os títulos “O archote na orelha — História de uma vida 1921-1931” e “O jogo de olhares — História de vida 1931-1937”.

A autobiografia de Elias Canetti, que a Academia Sueca considerou “o ponto cimeiro da sua obra”, é apenas uma das facetas de um escritor eclético, cuja obra abrange os mais variados géneros e estilos literários, do romance e ensaio aos cadernos de apontamentos, dos epigramas ao teatro.

Autor de “um dos mundos literários mais envolventes do século” — como descreveu o escritor Salman Rushdie -, da sua obra “desponta uma das mais originais e perspicazes reflexões sobre a condição humana em sociedade, combinando erudição com fulgor narrativo”, destaca a editora.

A ensaísta Susan Sontag também se referiu ao estilo de Canetti, afirmando tratar-se de um autor que “dissolve a política em patologia, tratando a sociedade como uma atividade mental — do tipo bárbaro, claro — que deve ser descodificada”.

Proveniente de uma família de judeus sefarditas, a juventude de Canetti foi passada entre a Áustria, a Suíça e a Alemanha, integrando-se nos círculos literários e intelectuais de Viena e Berlim do final dos anos 20, e travando conhecimento com figuras importantes do seu tempo, como Kraus, Grosz, Babel ou Brecht.

Em 1938, após a ocupação da Áustria pelas tropas nazis de Hitler, Elias Canetti emigrou para Londres e, em 1952, obteve a nacionalidade britânica.

“Auto-de-fé”, o seu primeiro romance, datado de 1935, catapultou o nome de Elias Canetti para a categoria dos principais autores europeus e para a história da literatura.