Desafios dos novos paradigmas da mobilidade na integridade estrutural de pontes e viadutos

Helder Sousa, Consultor independente na área Structural Health Monitoring aplicado a estruturas de Engenharia Civil, fala-nos, na primeira pessoa sobre a sua experiência, opinião e visão acerca da integridade estrutural de pontes e viadutos, num contexto internacional. http://pontosdevista.pt/?p=30176

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No sentido de contextualizar o nosso leitor, qual é exatamente a sua função como Consultor em Structural Health Monitoring (SHM) aplicada a pontes e viadutos?

Em primeiro lugar, grato pelo convite para partilhar a minha experiência, opinião e visão numa área – SHM – que é seguramente uma via de futuro para uma maior eficiência na garantia daos requisitos de integridade de uma infraestrutura tão crucial e vital para a mobilidade de todos – i.e. pontes e viadutos. Numa linguagem simples e acessível, de há 15 anos para cá tenho desenvolvido, e aprendido também, num contexto tanto nacional como internacional, como aplicar SHM como ferramenta de apoio à manutenção e gestão de pontes e viadutos, em tudo similar à área da saúde – i.e. desenvolvimento de técnicas de prevenção (i.e., abordagem pró-ativa) em detrimento do tratamento da doença (i.e., abordagem reativa), por exemplo.

Segundo um estudo recente, 90 % das pontes em Portugal encontra-se num estado de conservação entre o razoável e o bom em 2017. Qual o estado atual de pontes e viadutos em Portugal?

Não posso responder a essa pergunta diretamente, pois não estou envolvido como responsável pela gestão deste parque de infraestruturas. No entanto, a minha experiência diz-me que os principais decision-makers em Portugal estão bastante atentos e interessados numa contínua melhoria de processos, nomeadamente em termos de eficiência de recursos. Portugal é internacionalmente reconhecido pelo seus peers, nomeadamente por liderar e/ou participar em projetos inovadores que lhes permita obter mais e melhor informação sobre o real estado da integridade deste importante parque de infraestruturas.

É preciso ter consciência que estamos atualmente a viver uma mudança de ciclo e/ou paradigma. Ou seja, de um país que tem como prioridade a contrução de novas pontes e viadutos, para um país em que a principal prioridade é garantir a integridade das mesmas. Um desafio à escala global, posso dizer.

De que forma é que os novos paradigmas de mobilidade estão relacionados com a saúde estrutural de pontes e viadutos?

De facto, esta pergunta toca num dos pilares fundamentais das técnicas SHM. Dito de outro modo, numa sociedade em que observamos uma dinâmica de mudança de paradigmas cada vez mais rápido e até por vezes imprevisível como podemos nós acompanhar essas mudanças e antecipar as implicações que isso tem na saúde das pessoas? As pontes e viadutos sofrem do mesmo efeito, ainda que numa escala temporal mais lenta, talvez. A mobilidade de hoje em dia não é a mesma de há 50 anos, e daqui a 50 anos não será a mesma de hoje, seguramente. Assim, como podemos nós prever como uma ponte construída há 50 anos (por exemplo) será capaz de dar resposta à mobilidade requerida ao longo dos seus cem anos de vida tendo em conta a evolução tecnológica dos veículos que circulam sobre estas estruturas, nomeadamente (i) cada vez mais inteligentes, (ii) capazes de transportar cargas cada vez mais elevadas e que por conseguinte (iii) afetam as frequências de circulação ao longo do tempo? Deixo a questão em aberto para discussão pública.

No domínio da saúde estrutural de pontes e viadutos, qual a importância da Inovação e das Novas Tecnologias?

As novas tecnologias afetam a sociedade de um modo transversal. É algo inevitável e consequência de um mercado (i.e. as Novas Tecnologias) cada vez mais acessível do ponto de vista de custo. No que diz respeito ao parque de infraestruturas de Engenharia Civil, onde se incluem as pontes e viadutos, está-se atualmente a trabalhar no sentido de as dotar com tecnologias que as tornem mais inteligentes, digamos assim. Ou seja, através da instalação de sistemas sensoriais especificamente desenhados, e suportados em algoritmos dedicados para o processamento da informação recolhida, de modo a permitir obter um conhecimento contínuo, ou pelo menos mais frequente do que o atual, sobre a efetiva integridade estrutural. Ainda que estejamos ainda a trabalhar para atingir o nível de maturidade requerida pelo mercado, é minha convicção que o futuro passará pela implementação de uma nova infraestrutura – sensorial (seja ela de que tipo for) – a qual sustentará uma melhor e mais eficiente priorização das estruturas a intervir, e por consequência um melhor racionamento dos recursos disponíveis.

Não são raros os casos em que quando existe um problema numa infraestrutura em Portugal é quase sempre referido que este problema estava sinalizado e que existia uma conclusão que identifica o(s) problema(s). Acredita que ainda existe uma carência ao nível comunicacional entre quem decide e quem realizar estes estudos e conclusões? É uma lacuna que urge ultrapassar?

É meu entender que esta questão não é exclusiva à problemática aqui em discussão. É transversal e cultural, do meu ponto de vista. Do que conheço noutros países e da experiência que tenho a nível profissional, e até pessoal, trata-se mais como a sociedade se organiza e prioriza o que é mais importante. Resumindo: melhor comunicação entre todos é algo que poderá melhorar, e em muito, a resolução de diversos problemas no nosso país.

A Tragédia de Entre-os-Rios da Ponte Hintze Ribeiro aconteceu há cerca de 17 anos, mais concretamente em março de 2001. De lá para cá, acredita que o cenário melhorou? É possível que algo semelhante volte a acontecer?

Tragédias como a que refere trazem como aspeto construtivo uma maior consciência dos problemas que a sociedade em geral enfrenta. E com isso, evolução nos procedimentos afetos. E como tenho vindo a partilhar ao longo desta entrevista, é minha opinião que há evidência na evolução dos procedimentos afetos à manutenção deste parque de infraestruturas. Quanto à possibilidade de acontecer novamente, é como se me estivesse a perguntar se alguém pode falecer devido a uma doença para a qual existe vacina, metaforicamente falando.

Investigadores do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) alertaram há seis meses o Governo para a necessidade urgente de obras estruturais na Ponte 25 de Abril. Acha que existe um sentido de despreocupação perante as infraestruturas em Portugal como pontes e viadutos?

Não se trata de uma questão de despreocupação, no meu entender, mas sim uma questão de priorização de recursos, pois estes não são infinitos, tendo em conta a gravidade e impacto dos problemas encontrados nestas infraestruturas num contexto socioeconómico. Se é um facto que o LNEC alertou o Governo para a ponte em específico, no meu entender só evidencia que há sentido de responsabilidade e consciência.

Na sua opinião, e no âmbito da integridade destas infraestruturas, Portugal está muito atrasado relativamente a outros congéneres europeus?

Ao longo dos meus 15 anos de carreira profissional, nomeadamente a nível internacional, é meu entender que estamos no grupo da frente na inovação no que diz respeito ao desenvolvimento de novas abordagens e paradigmas que permitam uma melhor e maior eficiência na gestão de infraestruturas de Engenharia Civil.

Isso é facilmente demonstrado pelo envolvimento, tanto das universidades/instituições, como do setor industrial, na investigação e desenvolvimento de novas tecnologias. Basta pesquisar na internet para constatar o que é uma verdade.

Para que exista um nível superior de segurança, é fundamental que haja um maior sentido de parceria entre Universidades e Empresas? Essa ligação é visível atualmente?

A minha carreira profissional sempre assentou entre a academia e a indústria, procurando sempre aprender com as necessidades de mercado porque, no final de contas, quem suporta a minha atividade de investigação são os contribuintes em geral, convém nunca esquecer. É interessante observar que, apesar de em muitos aspetos todos quererem o mesmo, a utilização de vocabulários distintos (i.e., e de um modo simples, a academia com os seus integrais enquanto a indústria com os seus custos) é um entrave a uma comunicação mais efetiva e, por conseguinte, mais profícua. Ainda assim, assisto claramente a um esforço comum, contínuo e até crescente na aproximação e aprendizagem mútua.

As novas gerações de Engenheiros, nomeadamente aqueles com mais sentido de empreendedorismo e inovação, têm contribuído significativamente para que o futuro seja mais cooperativo e sensível às diferentes perspetivas de todos os agentes envolvidos, na problemática da garantia da integridade requerida das nossas pontes e viadutos, numa base custo-benefício para a sociedade em geral.