No hospital a enfermeira Cláudia recebe um alerta na plataforma de telemonitorização: João está com febre e os valores de oxigenação estão no limite inferior do que é o seu normal. Uma videochamada coloca os dois em contacto e começa a teleconsulta. O João explica à equipa hospitalar as suas queixas e Cláudia aconselha as primeiras medidas a tomar. A Dra. Graça, pneumologista do João há muitos anos, está a par da situação e envia por SMS uma nova prescrição para reforçar a terapêutica e prevenir a descompensação. Antigamente, João esperava até não aguentar muito mais a falta de ar. Depois, ligava 112 e era transportado para o Serviço de Urgência. Passadas muitas horas no meio de outros doentes ficava frequentemente internado e longe da sua família.

Este cenário não é futurologia – já acontece em Portugal. Este ano, oito hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) já estão a desenvolver projetos de telemonitorização, prevenindo desta forma episódios de urgência e internamentos hospitalares.

As tecnologias de informação são cada vez mais ferramentas poderosas para criar novas formas de prestação de cuidados de saúde. A digitalização da saúde não é apetrechar os hospitais, centros de saúde e a casa do doente com gadgets ligados a internet. É mudar a forma como os profissionais se organizam em torno do doente e da sua família. É permitir ao doente e aos seus cuidadores um papel muito mais ativo na gestão da doença. É afastar a ideia de que consultas, diagnósticos, tratamentos e internamentos só podem acontecer nas instituições de saúde e no “horário de expediente”.

A inversão da pirâmide etária é um problema já bem identificado nos países da OCDE. Em Portugal o número de idosos por cada 100 jovens era 101,6 em 2001. Em 2016 o valor cresceu de forma vertiginosa para 148,7[1] e a tendência aponta para que esta relação se agrave cada vez mais no futuro. O envelhecimento traz, invariavelmente, o aparecimento de doenças crónicas e a perda progressiva de autonomia do indivíduo. Assim, a esperança média de vida[2] em 2015 de uma portuguesa aos 65 anos era de mais cerca 19,31 anos, mas apenas de mais 5,4[3] anos de vida saudável.

Quem cuidará desta população? A institucionalização em lares e cuidados continuados é viável e, sobretudo, desejável? Certamente que não!

A solução deste enorme desafio para as nossas sociedades passará consequentemente pelo desenvolvimento e adoção de novos modelos, abandonando aqueles que estão esgotados. A telessaúde é uma poderosa ferramenta para precisamente alavancar estes novos modelos. Ajudará a prolongar a autonomia do doente no domicilio e a capacitá-lo na gestão conjunta da sua doença com os profissionais.

Joana Rodrigues, 17 anos, estudante, vive numa pequena vila em Trás-os-Montes. Filipa, a mãe, está preocupada com um sinal na pele do antebraço de Joana – especialmente porque a tia de Joana falecera por melanoma há 2 anos.

O hospital com consulta de dermatologia está à distância de uma viagem de carro de três horas. Mas esta distância deixou de ser um problema. No Centro de Saúde o Dr. Henrique, desde sempre médico da família Rodrigues, tira uma fotografia digital e envia-a através dos sistemas de informação do SNS, acompanhada de informação clínica importante para o colega dermatologista. Este avalia e, pela mesma via, recomenda tirar o sinal através de uma pequena cirurgia que pode ser feita no hospital perto de casa. O resultado da análise do sinal descansa. É uma lesão benigna – não é cancro.

As teleconsultas de dermatologia, como a da Joana, já são realidade no SNS em 14 Centros Hospitalares, três hospitais, cinco Unidades Locais de saúde e nos dois IPOs.

É graças às teleconsultas que o local de residência deixa de ser uma barreira para o acesso a cuidados mais diferenciados – neste caso ao especialista. Na verdade, as tecnologias aproximam os doentes dos profissionais. Facilitam a comunicação e articulação entre profissionais e contribuem assim para uma melhor utilização dos recursos existentes. Evitam deslocações por vezes desconfortáveis, poupando desta forma tempo e dinheiro.

Carlos, 48 anos, é gestor de empresa. A sua vida profissional desenrola-se num ritmo acelerado, exige-lhe viagens frequentes e reuniões de última hora. Deixa-lhe pouco tempo para cuidar da sua saúde, nomeadamente da sua tensão arterial elevada e da diabetes diagnosticada há 2 anos. Carlos é seguido pelo seu médico assistente em consultas periódicas mas, por vezes, tem de as desmarcar. Ainda bem que, há um ano para cá, as consultas presenciais são intercaladas com teleconsultas por videochamada. Ainda ontem, de Madrid, conseguiu discutir com o médico o resultado das análises e das suas medições da tensão. Foi necessário ajustar a terapêutica. Ainda bem que não teve de faltar à consulta.

A teleconsulta com o médico assistente por videochamada, diretamente a partir do smartphone ou PC do doente, já é pratica em instituições de saúde no nosso país – e, esperemos, em breve também no SNS.

Hoje em dia tratamos das nossas finanças a partir de casa, organizamos viagens completas na internet e até enchemos o nosso frigorífico recorrendo a compras online. Fazemo-lo porque as nossas vidas atarefadas muitas vezes o exigem. As necessidades da população hoje são diferentes das de há 20 anos atrás e o ritmo de vida acelerou de forma vertiginosa.

Os cuidados de saúde não podem ficar presos no tempo. Têm de acompanhar a mudança e dar resposta às novas exigências – tirar partido das tecnologias de informação e criar modelos ágeis e resolutivos.

No entanto, tratar da nossa saúde não é exatamente igual a fazer uma transferência bancária, entregar o IRS ou comprar um bilhete de avião e fazer o check-in eletrónico. A saúde requer segurança clínica.

A Ordem do Médicos dedica o capítulo VII do seu Regulamento de Deontologia Médica à telemedicina. Estabelece regras e define responsabilidades para salvaguardar a relação médico-doente e garantir a qualidade e segurança do ato médico.

A Direção Geral de Saúde tem vindo a emitir normas para o exercício da telemedicina nas instituições do SNS.

Este trabalho de regulamentação clínica e técnica é importante para assegurar que estas novas formas de prestação de cuidados sejam seguras para o doente e acolham a confiança dos profissionais. É de salientar que, quer a Ordem do Médicos, quer a Direção Geral de Saúde, souberam regulamentar sem criar barreiras desnecessárias. Na verdade, criaram facilitadores da telessaúde, uma vez que abrem caminho para um desenvolvimento com regras claras para os diferentes intervenientes.

Os sucessivos Governos de Portugal têm vindo a reconhecer a importância estratégica da transformação digital e das novas tecnologias para a resolução dos grandes desafios da sociedade contemporânea. A saúde não é exceção. Pelo contrário, é uma das áreas em que estas novas tecnologias, como a telessaude, a inteligência artificial ou a robótica podem trazer grandes ganhos em saúde e em eficiência.

O Despacho n.º 3571/2013 do Ministério da Saúde, por exemplo, determina que os serviços e estabelecimentos do SNS devem intensificar a utilização das tecnologias de informação e comunicação de forma a promover e garantir o fornecimento de serviços de telemedicina aos utentes do SNS e define metas concretas.

A Administração Central do Sistema de Saúde I.P. (ACSS) desenvolveu instrumentos financeiros para incentivar a prática da telemedicina. Assim, por exemplo, o pagamento aos hospitais da produção de teleconsultas é majorado em 10%.

Em outubro de 2016 o Conselho de Ministros criou, através da sua Resolução 67/2016, o Centro Nacional de TeleSaúde (CNTS) no seio do Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), “através do qual pretende reforçar a estratégia nacional para a promoção da Telemedicina e promover a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação, como parte integrante de processos de reforma dos cuidados de saúde…”.

O CNTS, que tenho o prazer de dirigir, promove diariamente junto dos profissionais e organizações a prática da telessaúde, identifica bons exemplos e incentiva a sua replicação. Acompanha as equipas que desenvolvem na SPMS os sistemas de informação para o SNS, por forma a suportarem cada vez melhor estes novos modelos de cuidados.

Desde julho de 2016 o CNTS também coordena o Centro de Contacto do SNS (SNS24). Tornou-se assim, ele próprio, o maior prestador de serviços de telessaúde no país, com mais de 1 235 000 chamadas atendidas por enfermeiros desde então. Tudo para que em Portugal a telessaúde seja ainda mais do que a soma das iniciativas individuais e contribua para um SNS cada vez mais perto do cidadão.

É assim que a telessaúde está a mudar a saúde dos portugueses!

[1] www.pordata.pt/Portugal

[2] DGS: A Saúde dos Portugueses 2016

[3] www.pordata.pt/Portugal

OPINIÃO DE Micaela Seemann Monteiro, Diretora do Centro Nacional de TeleSaúde e Coordenadora do Centro de Contacto do SNS, SPMS

BIOGRAFIA

Micaela Seemann Monteiro é médica, especialista em medicina interna com grau de consultora. Detém também a Competência em Emergência Médica conferida pela Ordem dos Médicos. Estudou Medicina na Heinrich-Heine-Universität de Düsseldorf, Alemanha. Trabalhou como médica na Alemanha, Reino Unido e Portugal. Dirigiu Serviços de Urgência durante 10 anos. Nesse âmbito ganhou com a sua equipa o Prémio da Qualidade, Fundação Maria Amélia de Mello.

Foi vogal do Conselho Português de Ressuscitação. Investigou e publicou na área dos videojogos para a educação médica. Integra o Special Interest Group Technology and Process of Care da European Society of Emergency Medicine. Frequentou o Programa de Alta Direção de Instituições de Saúde na AESE e concluiu a pós-graduação em Gestão de Informação e Business Intelligence em Saúde na Nova Information Management School.

Em Setembro de 2016 assume a Direção de Planeamento e Desenvolvimento Organizacional da SPMS, E.P.E. Nessas funções é responsável pela criação do Centro Nacional de TeleSaúde. Desde Agosto de 2017 é Diretora do Centro Nacional de TeleSaúde e coordena o Centro de Contacto do SNS. Mantém a sua atividade médica.