Quisemos saber mais e fomos conversar com o atual Diretor do PNRVT, Artur Cascarejo, um homem da região e que conhece a fundo as principais necessidades e lacunas, ma      s acima de tudo as grandes potencialidades de uma região que se tem vindo a cimentar, cada vez mais, assente nas valias do Parque Natural Regional do Vale do Tua. Depois de ter este testemunho, acreditámos que vai querer conhecer este espaço, pois são tantas as singularidades e belezas ímpares, que será um desperdício se não o fizer.

O PNRVT, promove os fatores distintivos de cinco municípios, ou seja, Alijó, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor, sendo que foi criado na sequência construção da Barragem do aproveitamento hidroelétrico da foz do Tua e quando estes municípios foram confrontados com a existência dessa edificação, “foi encomendado um estudo que serviu de base à seleção do impacto ambiental da barragem. Queríamos, acima de tudo, conceber uma estratégia de caráter territorial para o Vale do Tua numa lógica que fosse supramunicipal”, revela o nosso interlocutor, lembrando que a filosofia passava por tudo aquilo que fosse conseguido como compensações para o território “fosse numa lógica que dividisse de forma equitativa em prol de todos os municípios abrangidos”.

Interessa compreender que foram dois os princípios básicos que tornaram possível o sucesso deste empreendimento. O primeiro passava pela dinâmica e lógica supramunicipal e o segundo assentou na coesão e na capacidade que os autarcas de então tiveram para reivindicar um projeto com esta dimensão de caráter supramunicipal e com projetos que embora estivessem distribuídos por todo o território, conseguissem ter impacto além deste território. “E, nessa medida, há cinco pilares/projetos que foram desenvolvidos ao longo deste tempo e que nos permitem compreender as razões que levaram ao surgimento do Parque Natural Regional do Vale do Tua.

Porque tudo tem de fazer sentido e de assumir um cariz de rigor e qualidade, o modelo realizado para aproveitar as medidas compensatórias e as verbas recorrentes das mesmas assentou na constituição de uma instituição denominada por Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Tua (ADRVT), sendo que a o PNRVT é um dos projetos da ADRVT. Este player é uma associação de direito privado, mas de interesse público porque é constituída pelos cinco municípios: Alijó, Murça, Carrazeda de Anciães, Vila Flor e Mirandela, mais a EDP. “Os municípios entram com o território e a EDP com o capital e daí a dimensão privada e pública. A ADRVT é o instrumento que criámos para gerir as contrapartidas decorrentes da construção da barragem e que estão assentes em cinco projetos”.

Projetos diferenciadores que alavancam o desenvolvimento

O primeiro princípio assenta na Mobilidade, ou seja, na capacidade de trazer turistas para o território através de barco, comboio e autocarro. É uma concessão que está a ser negociada com a Douro Azul e que pretende desenvolver a marca Tua associada à marca Douto. “Acima de tudo pretendemos fazer uma ligação entre todos os municípios através destes meios de transporte. Este projeto engloba a construção de um cais para o barco e da recuperação de parte da linha de comboio do Tua, algo que foi abandonado pelo Estado e que nós negociamos com o mesmo parte da recuperação da linha, numa lógica de mobilidade quotidiana e turística”, salienta Artur Cascarejo, lembrando que este desafio engloba um investimento na ordem dos 15 milhões de euros e que, segundo um estudo realizado pela Douro Azul, poderá levar à região, anualmente, cerca de 100 mil turistas.

O segundo vetor assentou na dinâmica da Dimensão Cultural, ou seja, foram recuperados dois armazéns na Estação do Tua que estavam abandonados, tudo isto em protocolo com a EDP. Assim, foi edificado um Centro Interpretativo do Vale do Tua (CIVT), no valor de 2,2 milhões de euros, que tiveram como desiderato a recuperação e manutenção dos armazéns deste CIVT durante os primeiros oito anos, garantindo a sustentabilidade do projeto neste período. “No fundo este investimento assume um cariz de porta de entrada do ponto de vista turístico, sendo que a gestão do mesmo é feita pela autarquia de Carrazeda da Anciães, mas é para todo o território”, revela o nosso entrevistado.

Ainda neste domínio da cultura, para além do CIVT, e será o terceiro pilar, foi realizado um investimento na recuperação de património classificado, em conjunto com a Direção Regional de Cultura do Norte, no valor global de um milhão e 700 mil euros, “dividido pelas cinco autarquias”.

Em penúltimo surge a vertente do apoio ao emprego e ao empreendedorismo, um programa com um investimento de cerca de 1,5 milhões de euros. Como? Através de um programa que somente nos dois primeiros anos promoveu a criação de 84 novas empresas na região em diversas áreas. “A ADRVT promove formação, apoio e aconselhamento a todos aqueles que pretendam apostar nesta vertente, através de um apoio concreto no âmbito da viabilidade prática do projeto, na criação do plano de negócios, nos estudos de mercado, na formação presencial e virtual, entre outros, “numa lógica do que de melhor se faz no âmbito da promoção do empreendedorismo e da capacitação institucional, que, na nossa opinião, era uma das coisas que faltava”, esclarece o diretor do PNRVT, revelando que esta iniciativa teve tanto êxito, “que nos levou a realizar uma candidatura a fundos comunitários para alavancar mais 600 mil euros, dando uma nova dimensão ao projeto”.

Mas porquê o PNRVT? O PNRVT foi a única hipótese que existia para aproveitar o capital que a EDP é obrigada a pagar pela concessão assinada de 75 anos, ou seja, a EDP para construir a barragem e para o seu licenciamento teve de pagar ao Estado 60 milhões de euros. Nesse contrato de 75 anos, há uma obrigação legal em que três por cento do aproveitamento líquido da barragem deve ser direcionado para o Fundo Ambiental, localizado em Lisboa, que terá como fito o financiamento do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

Se o PNRVT fosse um parque nacional natural como os comuns, teria de ficar sob a tutela do Estado Central “e não teríamos a possibilidade de desenvolver um vasto conjunto de atividades, ou seja, de reivindicar um cêntimo sequer desse Fundo Ambiental, algo que está inerente à legislação portuguesa, e daí termos decidido apostar um parque com as caraterísticas do nosso”.

Neste sentido, a primeira ideia passou por estudar o modelo de parque que era pretendido para o território, de forma a que esse capital ao invés de ser direcionado para um território que não teve o impacto da Barragem do Tua, e, nomeadamente, ao nível ambiental. “Ao criarmos o PNRVT, decidimos dar esta dimensão regional, e assim apenas respondemos, enquanto parque, perante os cinco municípios e a EDP, inserido na ADRVT e com isso garantimos autonomia administrativa, financeira e de gestão”, assegura o nosso interlocutor.

Desta forma, e respondendo somente ao próprio território, este dinheiro segue de forma direta para a ADRVT, que o disponibiliza para o PNRVT, algo que seria inviável e impossível caso o parque não existisse.

Além desta dimensão regional, o PNRVT pertence à Rede Nacional de Áreas Protegidas – RNAP, sendo o único, no seio desta rede, simultaneamente natural e regional, porque existe da recorrência da construção da Barragem do Tua. “Assim, garantimos esses tais 75 por cento para o financiamento do nosso plano de atividades, mas também nos podemos candidatar aos outros 25 por cento, garantindo, portanto, o funcionamento do PNRVT”.

PNRVT a «coser» todo o projeto

O modelo institucional do PNRVT foi aprovado em Diário da Repúblico a 27 de setembro de 2013, e no seio do conceito de parque natural/regional foram aprovados um conjunto de atividades assentes em duas componentes: natureza e ambiente e turismos sustentável. São 12 ações, sendo que seis refletem-se na área do ambiente e da biodiversidade e as restantes seis na vertente do turismo sustentável da região. “Aquilo que a nossa região tem de único, entre outras coisas, é ser um espaço cujo valor assenta primordialmente no ambiente, na natureza, na paisagem e na pureza. É este o nosso valor e o PNRVT desenvolve-me em torno desse valor e não o vamos desperdiçar”, assegura o nosso entrevistado, lembrando que se os outros quatro projetos são a curto/médio prazo, o quinto, o PNRVT, é o mais importante porque tem uma dinâmica a curto/médio/longo prazo, pois tem, pelo menos, 75 anos de duração e aqui é que esteve o grande pensamento estratégico, ou seja, ter o PNRVT como elo central de todo este património natural, construído e cultural e fazer de tudo isto um verdadeiro projeto integrado, de base territorial para esta região, mais concretamente para os cinco municípios envolvidos e, partindo da natureza, aproveitar as mais valias em outras áreas como a gastronomia, os vinhos, o alojamento, o emprego, entre outros. “No fundo, o Parque Natural Regional do Vale do Tua vai «coser» todo este projeto, dando coesão territorial, lógica e racionalidade a tudo o resto”.

marcanatural.pt – promoção da região além fronteiras

Aprovado em 2013, foi somente em janeiro de 2014 que o PNRVT começou o seu plano de atividades, sendo que a primeira preocupação assentou na integração das áreas protegidas. Depois disso, o grande desiderato assentou na adesão ao projeto lançado pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, designado por marcanatural.pt, uma plataforma de promoção de alojamento, de restauração, de produtos regionais que tem um alcance nacional e internacional. “Decidimos apostar neste projeto/plataforma porque as empresas aderentes possuem aqui uma excelente montra de promoção a nível nacional e internacional sem qualquer contrapartida financeira de investimento e isso é excelente”.

Projeto abrigos para Morcegos

Um dos pilares iniciais do nosso entrevistado e dos seus pares passou pela preponderância dada às parcerias, “pois sozinhos não faríamos nada. Temos a noção que o PNRVT isolado não faria qualquer sentido. Desta forma, depois da aposta no marcanatural.pt, decidimos dinamizar a vertente da sinalização do parque, ou seja, em todas as acessibilidades existe uma sinalética bem visível de quem somos e onde estamos. Isto pode não parecer importante, mas é, pois só assim o turista vem até nós”.

São diversos os projetos e as iniciativas levadas a cabo pelo PNRVT. Dos seis falados anteriormente no domínio da biodiversidade e do turismo sustentável, Artur Cascarejo decidiu abordar dois. No seio da biodiversidade, foi realizada uma candidatura aos 25%, no valor de 200 mil euros, em parceria com a Universidade de Trás os Monte se Alto Douro e com a Universidade do Porto, esta última tendo também presente o CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos. Aquando da construção da barragem, foi constatado que a água ia deixar submerso um conjunto de abrigos naturais de morcegos, que são fundamentais para eliminar um conjunto de pagas agrícolas na vinha, no olival e no sobreiral. “Assim, realizámos uma candidatura para instalar postos com abrigos para morcegos em todo o território. Estes morcegos funcionam como um ecossistema, ou seja, evitam que o agricultor tenha de despender de dinheiro em pesticidas e em mão de obra para eliminar estas pragas, pois os morcegos fazem-no de uma forma fiável e sem custos para o agricultor. Assim, e conhecedores disso mesmo, os agricultores da região aderiram imediatamente a este projeto, tendo sido assinado um protocolo com os mesmos, sendo que estes postos foram colocados onde tínhamos a vinha, o olival e o sobreiral. Devo salientar que as expetativas foram completamente superadas, porque no primeiro ano acreditávamos que os postos de abrigo dos morcegos teriam uma ocupação entre 20 a 30% e nós chegámos aos 80 % de ocupação total”, revela satisfeito o nosso entrevistado, assegurando que este é o projeto mais emblemático no domínio da biodiversidade, mas que não fica por aqui. “Depois desse processo, as fezes dos morcegos são recolhidas e analisadas pelo CIBIO, para assim sabermos se de facto os insetos comidos pelos morcegos são os que afetam o olival, a vinha e o sobreiral. Se isso se comprovar, é posteriormente apresentado do ponto de vista científico como uma boa prática que pode ser levada para outros territórios tanto a nível nacional como internacional. É facilmente percetível que este projeto apresenta duas dimensões: sócio económica e investigação cientifica”.

Percursos pedestres e o sucesso a nível internacional

Um dos pontos mais comuns em qualquer parte assenta nos seus percursos pedestres e o PNRVT não «escapa» desse desígnio, naturalmente. Como o PNRVT abrange todos os cinco municípios aqui referidos, neste momento, existem pelo menos dois percursos pedestres em cada concelho, que reúnem também uma dupla característica, ou seja, para além do tradicional percurso pedestre com vantagens, óbvias, ao nível da saúde, do desporto e do turismo de natureza, “temos também sete micro reservas onde temos a melhor fauna e flora do parque e onde as pessoas têm acesso a painéis interpretativos que explicam o que as pessoas estão a ver in loco ao nível da flora e da fauna, mantendo portanto uma linha de ligação com a biodiversidade e o turismo, algo que tem tido um enorme sucesso”, explica Artur Cascarejo.

Outra caraterística dos percursos pedestres «made in» PNRVT, preparados para pessoas dos 8 aos 80 anos, é que estes passam sempre por aldeias ribeirinhas, numa clara tentativa, conseguida com êxito, de revitalizar e dinamizar a economia local, sustentado em percursos circulares e de pequenas rotas, “e temos constatado que espaços comerciais que estavam a fechar ou que inclusive já estavam fechados começaram a reerguer-se e a reanimar-se e isso é um fenómeno extraordinário para a região”, explica o nosso interlocutor, assegurando que o público/turista internacional tem tido uma recetividade enorme, fruto, também, da dinâmica imposta nos percursos pedestres, pois se existe a possibilidade de realizar o mesmo de uma forma autónoma, existe ainda a possibilidade de o fazer com guias e de uma forma organizada, utilizando empresas deste setor para que isso seja uma realidade. “Estes percursos guiados criaram uma enorme dinâmica e o nosso feedback vem sobretudo dos operadores turísticos que os realizam. Temos turistas oriundos de diversos pontos do mundo como EUA, França, Noruega, Espanha, entre outros. Esta aceitação acaba por ter maior impacto na economia local porque esse turista não vem apenas um dia, pois fica mais tempo e usufrui de outras ofertas na região, o que acaba, invariavelmente, por aportar mais valias económicas a todos os agentes económicos existentes aqui”, esclarece o diretor do PNRVT

Portas de Entrada e o Mundo Interativo

A aposta no projeto das Portas de Entrada do Parque Natural Regional do Vale do Tua assume uma importância vital, até porque estas portas são centros de apoio turístico interativos que serão edificados em cada um dos cinco municípios e que terão como fito primordial a receção do turista, numa parceria entre as autarquias e o PNRVT. “As câmaras municipais oferecem o espaço físico e um funcionário e o PNRVT trata dos equipamentos em termos digitais, dando, portanto, uma dinâmica ligada à temática do parque, mas também aos fatores distintivos de cada concelho, permitindo que o turista conheça cada caraterística de cada município e assim queira conhecer mais”, revela, lembrando que neste momento esta iniciativa está em fase de concurso na vertente dos conteúdos interativos, tendo sido uma candidatura ao Programa Valorizar do Turismo de Portugal, na ordem dos cem mil euros por município, tendo sido financiada em 400 mil euros.

O PNRVT e os mais jovens

Os mais jovens e as escolas são, sem dúvida, elementos agregadores e potenciadores de qualquer iniciativa. Assim, o PNRVT promoveu dois projetos com os agrupamentos de escolas dos cinco municípios, para alunos do 3º ciclo do ensino básico ou secundário, sendo que um já foi concluído, e que teve como parceiro a Oikos – Cooperação e Desenvolvimento é uma Organização Não Governamental, e que consistiu em dar a conhecer à juventude as mais valias locais. Como? Através do concurso Festi-Vale do Tua, que teve como principal desiderato a distinção e divulgação das melhores curtas produzidas sobre o Parque Natural Regional do Vale do Tua. “Esta iniciativa ultrapassou as nossas expetativas e passou pela realização de micro filmes de três minutos, em que foram atribuídos prémios de mil euros ao aluno vencedor e o mesmo valor à escola desse aluno. O segundo prémio era de 750 euros e o terceiro de 500 euros, que foram convertidos em Cheques FNAC, pois não podemos dar prémios monetários”, revela Artur Cascarejo.

Face ao sucesso obtido, o PNRVT está já a realizar outro projeto envolvendo os mais jovens, ou seja, dentro da área da biodiversidade, está a ser preparado um projeto piloto que já foi lançado pelo Ministério da Educação abordando a flexibilidade do currículo, “em que uma parte do mesmo será standard e a outra pode ter uma vertente regional, e será lançado em 2019”. Além disso, vai ser lançada também a iniciativa, em 2019, denominado por «Junto à Terra», que assenta num conjunto de workshops práticos com os mais jovens, direcionado para os alunos do 8º ano. “Queremos que esses jovens, na disciplina de Biologia, apanhem os conteúdos sobre a origem do parque, a razão de existir, as vicissitudes das alterações climáticas, entre outros. Tudo isto terá um formato em sala de aula, mas não só, porque queremos, através das associações locais, levar os mais jovens para o terreno, onde poderão ver in loco todas estas coisas. No final, teremos uma apresentação dos projetos, em que vamos promover workshops sobre como resumir uma ideia em três minutos, no sentido de os ajudar a melhorar a sua capacidade de comunicação, como falar em palco, como apresentar um trabalho, ou seja, dar-lhes competências para a vida através de uma componente ambiental de educação”.

À boleia do Douro, firmar a marca Tua

Muito mais haveria para falar sobre um projeto de enorme simbolismo, riqueza e diferenciação e que pretende, segundo o nosso entrevistado, associar a marca Tua a outra marca de enorme sucesso, que é a marca Douro. “Queremos, um pouco à boleia do Douro, afirmar a nossa marca com a identidade desta região porque estes cinco concelhos fazem parte do Douro e do Tua. Acredito que este é um projeto único e singular e que vai transformar o Vale do Tua, porque o investimento será enorme e se não fosse esta oportunidade não estou a ver nenhum Governo de qualquer partido a investir os milhões que aqui foram, estão e vão continuar a ser investidos. É importante salientar também que este investimento não é no comum, ou seja, no cimento armado, nas rotundas, nas estradas e entre outros do género. É um investimento nas pessoas e no território. Estamos, sem dúvida, a ajudar as pessoas e a formatar um pacote/produto turístico desde o início aproveitando as potencialidades locais que são imensas”, conclui Artur Cascarejo, atual Diretor do Parque Natural Regional do Vale do Tua.