A tecnologia a favor da medicina

Ricardo Ribeiro, Investigador, fala-nos, em entrevista, sobre a biofabricação de tecidos e órgãos humanos, no âmbito dos novos métodos de diagnóstico e de terapia na medicina. Venha connosco saber mais.

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Para contextualizar o nosso leitor, o que é a biofabricação de tecidos e órgãos humanos? A escassez mundial de dadores para transplante de tecidos ou órgãos ainda é um problema de grandes proporções?

A Biofabricação é uma área científica multidisciplinar, com menos de 20 anos, que integra áreas tão distintas como a Biologia, a Engenharia de Materiais, a Física ou a Medicina. O seu principal objetivo é a manufatura aditiva de materiais biológicos, sejam eles tecidos ou órgãos, ou de estruturas de apoio à regeneração de tecidos. Visualmente, podemos imaginar uma impressora comum, em que a tinta é substituída por uma mistura de células e materiais, as chamadas bio-tintas. Arquiteturas tridimensionais são formadas através da deposição cumulativa destas “tintas”. Mas atenção, com as tecnologias existentes, a produção de órgãos em laboratório ainda não é possível. Para que tal aconteça será necessário desenvolver técnicas e/ou aparelhos que mimetizem as estruturas altamente definidas de órgãos, como os pulmões ou o coração. Por exemplo o controlo simultâneo do destino das diferentes células em culturas 3D ainda se encontra em estudo, sendo fulcral para a correta organização e orientação da multiplicidade de células que constituem um órgão humano. Porém, a ficção científica também tem o seu quê de realidade. Atualmente, com a Biofabricação é possível testar medicamentos em pequenos tecidos ou tumores, obtidos pela impressão das bio-tintas. Muitas multinacionais começam, felizmente, a substituir a experimentação animal, por esta nova e eticamente responsável estratégia.

Quanto à problemática da doação de órgãos, ainda existe uma grande escassez mundial. Começa, no entanto, a haver mais informação acerca desta prática, o que tem permitido aumentar o número de dadores – Entre 2008 e 2015, o número de dadores vivos aumentou cerca de 29%, segundo relatórios da UE.

Contudo, estas pequenas vitórias não têm um impacto significativo na redução das listas de espera uma vez que a compatibilidade e as condições dos órgãos se sobrepõem à consciencialização.

Com a biofabricação de tecidos e órgãos humanos este problema será completamente contornado?

Sem dúvida, é esse um dos grandes interesses desta área, visto que, em teoria, poderemos usar as nossas próprias células para produzir os nossos órgãos. Isto iria erradicar toda e qualquer lista de espera por transplantes, e os órgãos seriam fabricados à medida que fossem necessários. Em jeito de previsão, ao ritmo que a ciência tem avançado, é passível que esta meta seja atingida nos próximos 20 a 40 anos. Porém, apesar de contornada a escassez de dadores, esta “solução” apresenta um variadíssimo conjunto de novos problemas. A nível ético, irá isto transformar-se num negócio? Iremos todos ter acesso a este tipo de cuidados, ou apenas os mais ricos poderão obter a “salvação”? São discussões que começam a ganhar importância e sentido.

Para falarmos de biofabricação de tecidos humanos temos de falar de nanotecnologia?

Não necessariamente, mas a nanotecnologia poderá ser integrada na biofabricação. Determinados materiais/medicamentos “nano” poderão ser adicionados às bio-tintas e assim serem “impressos”.

Cada vez mais teremos a tecnologia a favor da medicina?

Sem dúvida alguma! Afinal é isso que a história nos tem ensinado. Se pensarmos que grande parte das descobertas fundamentais para o avanço da medicina foram realizadas no século passado, verificamos que apenas em 100 anos se clonaram animais, controlaram os genes de um bebé, fabricaram tecidos humanos, e até se iniciou a discussão de transplantes de cabeça em humanos. Creio que o futuro ditará exatamente as mesmas regras e, com a velocidade vertiginosa com que a tecnologia tem sido desenvolvida, imagino que grandes avanços poderão ser testemunhados nos próximos anos.

E quanto ao presente e ao futuro da investigação científica? Que papel assume a mesma na sociedade atual?

É no seio da investigação científica que novas ideias e produtos são concebidos, pelo que a importância manter-se-á elevada com o passar do tempo. Por exemplo, é possível verificar uma escalada no número de start-ups, cuja génese são os estudos desenvolvidos no decorrer dos percursos académicos dos seus fundadores. Estas acabam por beneficiar a sociedade não só através da oferta de novos serviços e tecnologias, bem como pela criação de novos empregos qualificados. Porém, mais apoios serão necessários para que Portugal consiga rivalizar com países estrangeiros. A nossa mão-de-obra é altamente qualificada, mas a falta de fundos e a precariedade vivida por grande parte da comunidade científica constituem, sem dúvida, uma grande barreira no desenvolvimento da investigação a nível estatal.