Este crescimento e desenvolvimento foi sendo realizado de uma forma paulatina, mas também sustentada e alicerçada na qualidade, na excelência e na diferenciação, pois só desta forma é que o Algarve poderá continuar a representar aquilo que é hoje, ou seja, um local privilegiado e que recebe da melhor forma todos aqueles que o querem visitar. Uma das personalidades que mais tem contribuído para este reconhecimento e crescimento é Desidério Silva, atual Presidente da Região de Turismo do Algarve e que, quase seis anos depois, deixará, no final de julho, a posição de liderança da instituição ao seu sucessor, João Fernandes, até agora vice-presidente da RTA.

Desta forma, a Revista Pontos de Vista conversou com Desidério Silva, que fez um balanço destes seis anos de liderança e que abordou algumas das necessidades do turismo algarvio, sem esquecer que a prioridade deve ser sempre o Algarve. “O Algarve deve ser sempre a base e a prioridade na gestão da RTA, como eu fiz sempre”, realça o nosso entrevistado, presidente da entidade algarvia desde 2 de novembro de 2012, que se congratulou com a contribuição do Algarve para o crescimento do turismo português, não tivesse a região, em 2017, contribuído para o PIB português com 4,6%, num ano em que as receitas turísticas globais atingiram os 7%.

“Balanço é extremamente positivo”

Mas qual o balanço que nosso entrevistado perpetua destes quase seis anos de gestão? Assegurando que tudo se deveu ao seu esforço e da equipa que com ele esteve, para Desidério Silva o balanço é “extremamente positivo” e se dúvidas houvessem, essas são ultrapassadas pelos números alcançados. “Em 2012 tivemos cerca de 14 milhões de dormidas registadas e em 2017 os números alcançaram os 19 milhões. Há seis anos o aeroporto de Faro teve pouco mais de 4 milhões de passageiros em trânsito e no final do ano passado quase 9 milhões de passageiros, e, portanto, isso são sinais do que foi realmente a evolução e o crescimento da região”, revela o nosso interlocutor, não se ficando por aqui. “Na altura da nossa entrada na RTA a taxa de ocupação da região na chamada época baixa (outubro a maio) andava próxima dos 50% e hoje situa-se entre os 67%”. Assim, para o nosso interlocutor, a grande novidade de todo o trabalho realizado assentou na capacidade de diversificação do produto e da oferta do turismo do Algarve, promovendo assim a valorização do território, sempre numa lógica de parceria com as forças locais como as universidades, a CCDR Algarve, a AMAL, entre outras entidades “e que permitiram que tivéssemos uma visão mais vasta e alargada do que eram as necessidades e do que era o fito da sustentabilidade da região e, nesse contexto, é com muito orgulho que falo destes seis anos e do que se conseguiu. Estou de consciência perfeitamente tranquila do trabalho realizado, da evolução da região e do que é hoje a imagem de marca da região e da confiança na mesma, pois superámos grande parte dos indicadores e dos patamares que colocam o Algarve como um destino turístico de excelência”, afirma convicto o nosso entrevistado, assegurando que é suspeito para falar, “mas não posso deixar de o dizer. O balanço é muito positivo. O trabalho realizado, o esforço, a entrega e a alma com que me agarrei a este projeto deixa-me extremamente feliz e satisfeito porque o Algarve melhorou significativamente”.

“Fica sempre alguma coisa por fazer… mas tudo fizemos para dignificar o Algarve”

Mas será que ficou alguma coisa por fazer? Bem ao seu estilo pragmático, Desidério Silva não tem dúvidas em afirmar que “há sempre coisas que ficaram por fazer, até porque o turismo é uma atividade muito dinâmica e em constante mudança e, independentemente de os números serem fortes, isso não invalidou ou inibiu que todos os anos tentássemos fazer mais, produzir mais, qualificar mais, diversificar mais, no fundo dignificar o Algarve”, esclarece, assegurando que esse “tem de ser, como foi, um objetivo permanente de quem está nesta função, ou seja, procurar reforçar a imagem da região e da perceção que os mercados têm da mesma, contribuindo, naturalmente, em todas as frentes, porque o Algarve não pode ser competitivo somente pela questão do preço comparativamente a outros mercados/destinos, mas sim através da qualidade de excelência do produto que oferecemos”.

Uma das principais particularidades da Região do Algarve passa pelas suas gentes e pela capacidade das mesmas em serem hospitaleiras, algo que funciona como um pilar do sucesso do turismo algarvio “e que tem sido essencial”, revela o nosso entrevistado que desde sempre teve como principal preocupação a criação de uma oferta diferenciadora que potenciasse o turismo algarvio na denominada época baixa, ou seja, entre os meses de outubro e maio, onde os números atuais confirmam uma subida radical e consolidada das taxas de ocupação nesse período. “Temos de compreender que as margens de crescimento só podem ser feitas nos meses em que não acontece, ou seja, na época baixa e foi aí que nos focámos mais, numa aposta clara de diversificação da oferta e de rede com outras forças da região que têm feito um trabalho muito positivo, nomeadamente o universo empresarial algarvio. Todos têm contribuído de uma forma decisiva e isso teve os seus frutos, pois os níveis de confiança no destino Algarve subiram exponencialmente”.

“O investimento é fundamental para o Algarve continuar a crescer”

Com todas as condições para continuar a crescer, o turismo do Algarve não pode ficar por aqui, até porque ainda existe muito mais para crescer e assim é necessário, segundo o presidente da RTA, continuar a promover uma oferta de qualidade, diversificada e competente, “até para podermos contrariar as tendências de deslocação de turistas para outros mercados”, assegura, lembrando que os países da bacia do Mediterrâneo “estão a criar condições para recuperar das crises que tiveram”.

Mas qual o caminho para contrariar esse panorama? “O investimento é fundamental”, explica, salientando que “temos de continuar a lutar por um forte investimento na promoção e na valorização da região no exterior. Se não houver esse investimento não iremos conseguir ter êxito, porque quem não aparece, acaba por esquecer e as coisas acabarão por não correr tao bem como têm corrido até aqui”, salientando que essa responsabilidade não depende somente da RTA, mas também do Governo, do Turismo de Portugal, das companhias aéreas, entre outros.

“O Algarve tem pouca força política”

Não é segredo para ninguém que o Algarve é hoje um dos principais destinos turísticos a nível mundial. Um conjunto de valias perpetua este legado nesta região portuguesa. Mas será que esta importância é devidamente acompanhada pelo investimento e apoios na região? Desidério Silva não tem dúvidas em afirmar “que a região do Algarve carece de apoios”, responsabilizando a centralidade excessiva que se vive no nosso país “e que define as verbas para as regiões. Nesse contexto, o que sentimos é que, ao longo de todos estes anos e de todos os Governos, foram preterindo a nossa região em função de outros investimentos e de outras regiões. Infelizmente não temos a capacidade de outras regiões em alavancar fundos comunitários, pois enquanto a região Centro, o Porto e Norte e o Alentejo possuem bases acima dos dois mil milhões de euros, o Algarve chega somente aos 360 milhões e isso reflete-se na capacidade de desenvolvimento”, explica, lembrando que existe necessidade de investimento não só no litoral, mas particularmente no interior algarvio, dando alguns exemplos claros dessa realidade, ou seja, de que os investimentos chegam, quando chegam, sempre atrasados em relação a outras regiões. “Chegam atrasados na eletrificação da linha, na requalificação das vias, na necessidade de transportes consolidados, na saúde, entre muitos outros. Há aqui um foco que tem sido comum, ou seja, prometer e não se fazer e isso é um histórico que concerne não só a ao atual Governo, mas também aos anteriores. Sejamos claros, o Algarve tem pouca força política, com poucos deputados e poucos habitantes e isso reduz a capacidade de reivindicação do que são os direitos e assim nem sempre as verbas necessárias são encaminhadas para a região e vão para outros destinos, com muita pena minha, porque se temos tido bons resultados com estas dificuldades, imaginem onde estaríamos se o cenário fosse mais justo para o Algarve e as suas gentes”.

“Que a TAP dê outro apoio ao Algarve, que bem merece”

É de conhecimento público que a relação entre a RTA e TAP não é das melhores, até porque segundo Desidério Silva, “a TAP poderia ser um parceiro muito mais forte, porque achamos que a transportadora aérea podia ter em relação ao Algarve um olhar diferente e atenções diferentes e, obviamente, um reforço das frequências”, esclarece, assegurando que isso é importante. O Aeroporto de Faro, neste momento, está ligado a cerca de 80 cidades europeias e essas, obviamente, estão quase todas ligadas ao Algarve através de companhias aéreas low cost e algumas de bandeira como a British Airways, a Lufthansa e outras. “Isto significa que a TAP no Algarve representa pouco, cerca de 3%. O ano passado, dos 9 milhões de passageiros que circularam no Aeroporto de Faro só cerca de 280 mil passageiros são da TAP o que revela a pouca importância estratégica que a companhia oferece ao Algarve, o que para nós não faz qualquer sentido”, esclarece o nosso entrevistado, lembrando que esta é uma «guerra» antiga e que “estou cansado de falar, mas, como estou de saída, espero que quem fique continue a lutar e a fazer essas exigências para que a TAP dê outro apoio ao Algarve, que bem merece”.

“A prioridade deve ser sempre o Algarve”

João Fernandes, até agora vice-presidente da RTA, será o novo presidente da RTA e Desidério Silva não quis deixar passar a oportunidade de deixar uma mensagem ao seu sucessor. “Esteve comigo na RTA durante cinco anos e, portanto, sabe perfeitamente quais são os principais problemas e as principais necessidades desta casa e da região. Espero que continue este processo de evolução que teve resultados e que continue a ser exigente e a ter uma forte intervenção na defesa da região. Não preciso de ensinar ou explicar nada porque ele sabe. A partir do momento em que foi eleito, saberá o que tem a fazer e a minha prioridade é e sempre foi o Algarve. Que defenda a região como eu sempre defendi em todos os momentos e que o Algarve esteja sempre em primeiro lugar nas decisões desta casa e naquilo que forem as abordagens, que seja bem feitas”, revela o nosso interlocutor, deixando ainda uma palavra para as gentes algarvias. “Que puxem e lutem por um Algarve turístico cada vez mais sustentável. Que lutem mais pelo todo da região, que vale muito, e não olhem somente para si e para os interesses pessoais, pois só dessa forma, em parceria, é possível continuar a levar e a elevar o desígnio Algarve mais alto e mais longe. Continuem como eu, a lutar por um Algarve Livre de Petróleo!”, conclui Desidério Silva.