De forma a elucidar os nossos leitores, o que se entende por energias renováveis offshore?

Energias renováveis offshore inclui todas as energias geradas por fontes renováveis a partir de tecnologias que são instaladas no mar, sendo as mais comuns a energia das ondas, a energia das correntes marítimas e a energia das marés. A energia eólica offshore é também incluída nas renováveis offshore embora a força motriz não seja o oceano, mas sim o vento.

De que forma é que a WavEC, outrora Centro de Energia das Ondas, uma associação privada sem fins lucrativos, se posiciona hoje no mercado enquanto empresa especializada em energias renováveis offshore?

Na sua trajetória de evolução o WavEC tem defendido como visão ser líder no desenvolvimento de soluções inovadoras em tecnologia marinha e tem assim hoje como missão desenvolver soluções sustentáveis para a Economia Azul através da inovação, transferência de conhecimento e disseminação. Esta missão é assegurada através do suporte tecnológico e científico às empresas e administração pública, fomentando uma maior participação em projetos de I&D e Inovação, realizando consultoria e interagindo com instituições internacionais.

A nível europeu podemos considerar que Portugal, além de pioneiro no desenvolvimento desta tecnologia, é um dos países com os melhores recursos para apostar neste segmento?

Portugal é um dos países com melhores recursos naturais para explorar as energias renováveis marinhas: tem uma vasta zona costeira, uma das maiores zonas económicas exclusivas da Europa e um contexto climático favorável ao desenvolvimento de fontes renováveis de energia associadas ao vento e ao mar. Além disso tem boas infraestruturas portuárias e uma rede elétrica junto à costa.

Em termos de impactos económicos quais os aspetos mais positivos que se traduzem na aposta das energias renováveis offshore?

Os aspetos mais positivos em termos de benefícios económicos traduzem-se no desenvolvimento em Portugal de uma cadeia de fornecimento baseada em conhecimento, know-how e mão-de-obra qualificada, potenciadora de exportação de bens e serviços gerando valor acrescentado bruto (VAB), além da criação de novos empregos.

Recentemente alargaram a vossa atividade à aquacultura offshore e a projetos de engenharia nos oceanos. Pode falar-nos um pouco sobre os mesmos?

A nossa aposta inicial começou por ser energias renováveis offshore, mais concretamente energia das ondas e energia eólica offshore flutuante, mas, entretanto, apercebemo-nos que as nossas competências e know-how poderiam ser facilmente aplicados a outras atividades no mar, igualmente interessantes, nomeadamente à aquicultura offshore. As soluções para alguns desafios que se colocam ao desenvolvimento da aquicultura em mar aberto estão muito relacionadas com o tipo de trabalho de inovação que realizamos nas renováveis offshore e que passam por ensaios experimentais, modelação numérica estrutural e hidrodinâmica, estudo das amarrações, ferramentas de planeamento de aquacultura, incluindo o controlo da produção, monitorização dos vários parâmetros e custos associados, elaboração de planos de negócio, entre outros. É um setor em crescimento que parece atrativo para Portugal e no qual já iniciámos atividade.

A indústria da aquacultura de salmão no Atlântico enfrenta dois desafios de relevo: minimizar o impacto ambiental, e controlar epidemias associadas à alta densidade de peixes em volumes de água limitados. Uma possível solução tecnológica para estes problemas é a utilização de jaulas flutuantes, rígidas e estanques. Realizámos recentemente estudos de modelação numérica do escoamento interno deste tipo de jaulas para uma empresa Norueguesa; refinámos também o desenho das jaulas para melhorar a qualidade do escoamento interno induzido.

Também temos estado envolvidos em diversos projetos de engenharia de apoio ao aproveitamento das energias renováveis offshore. As tecnologias de energias renováveis offshore requerem serviços periódicos de inspeção, reparação e manutenção. Há uma necessidade de reduzir o custo destas operações e alguns dos projetos em que o WavEC está envolvido tem a ver com o desenvolvimento de soluções técnicas com um custo suficientemente baixo e a elevada precisão necessária para muitas destas operações. O projeto EraKRAKEN financiado pela FCT e liderado pelo WavEC é um destes exemplos: tem por objetivo reduzir os elevados custos das operações subaquáticas através do desenvolvimento de um sistema de manutenção com um braço robótico que possa ser instalado em qualquer ROV e realizar todos os serviços que usualmente são executados por mergulhadores ou ROVs de classe superior. Daqui resulta uma diminuição em 50% da logística e dos custos operacionais envolvidos nos serviços subaquáticos. O ARTIFEX com parceiros Noruegueses e financiado pelo Research Council of Norway é outro projeto muito semelhante, mas virado para operações de reparação e limpeza das redes de aquacultura. Atualmente estamos a preparar um plano de negócios para aplicação de energias renováveis em sistemas de aquacultura.

O que precisa ainda de ser aperfeiçoado no setor para melhorar o potencial de Portugal?

É preciso uma abordagem ativa e integrada para atrair para Portugal projetos e parceiros com capacidade tecnológica, comercial e financeira, desenvolver uma cadeia de fornecimento competitiva, promover e captar inovação, tendo em vista promover emprego qualificado, exportações e atividades de alto valor acrescentado. Nesta abordagem, o desenvolvimento de zonas de teste no mar, para vários níveis de TRL, deve ser uma aposta. Nestas zonas de teste, deve haver apoio integrado, disponibilizado por equipas qualificadas, e esquemas de financiamento a fundo perdido para as fases iniciais de testes no mar, uma vez que é esta a fase mais crítica para os dispositivos/protótipos conseguirem avançar e ganhar a confiança dos investidores. Estes testes no mar envolvem um elevado grau de risco técnico e custos significativos. Antes de concluir estes testes é muito difícil para as equipas atrair investimento e fazer previsões sólidas do seu plano de negócios. Em contrapartida pelo financiamento dos testes (tipicamente um ano), a entidade financiadora poderia ter acesso total aos dados de produção e desempenho.