A Unidade tem como principal objetivo genérico o estudo do controlo da comunicação entre neurónios, ou seja da atividade sináptica, e avaliar se este controlo está perturbado em certas patologias. O objectivo é saber se essas alterações em situação patológica podem ser revertidas com o uso de fármacos e assim abrir caminho para a descoberta de novas abordagens terapêuticas.

Atualmente, a equipa é composta por seis sub-grupos de investigação encabeçados por seis doutorados e por estudantes de pós-doutoramento, de doutoramento e de mestrado. Avaliam em laboratório alterações do controlo da atividade sináptica em patologias como a doença de Alzheimer, síndrome de Rett, epilepsia, esclerose lateral amiotrófica, esclerose múltipla ou ainda em situações de consumo prolongado de canabinoides.

No caso da Doença de Alzheimer, o objetivo é estudar “disfunções muito precoces da actividade sináptica e identificar causas que levam a uma perca de eficácia de fatores de proteção. “Interssa-nos perceber como corrigir essas alterações iniciais de modo a travar a morte neuronal numa fase ainda muito inicial”, começa por explicar a professora. Este projecto é financiado pela Santa Casa da Misericórdia sob coordenação da professora Maria José Diógenes, pertencente à mesma unidade de investigação.

Outro projeto, sobre o síndrome de Rett, acontece com financiamento da associação francesa de familiares e doentes com esta patologia, e em parceria com um grupo de investigação em Portland, Estados Unidos. O sindrome de Rett é uma doença rara, neuropediátrica, de perturbação da maturação do sistema nervoso e que leva a uma deteorização progressiva de autonomia e de capacidades cognitivas, onde a qualidade e a esperança média de vida são muito reduzidas. “Idealmente gostaríamos de compensar o que já está errado nos neurónios para permitir a recuperação ou pelo menos a não deteorização de algumas funções”, elucida Ana Maria Sebastião. Mas há ainda um longo caminho a percorrer.

“Ambos os projetos (Alzheimer e Rett), andam muito em paralelo e são levados a cabo pelo mesmo sub-grupo de investigação. Têm muitas semelhanças, além da ironia de corresponderem a patologias nos extremos da vida: a infância e a 3ª idade”.

A relação entre neuroinflamção e epilepsia é outro projeto a que a equipa se dedica. “As convulsões facilitam os processos inflamatórios e o processo inflamatório facilita a ocorrência de mais convulsões. É um ciclo vicioso. Se identificarmos pontos chave deste ciclo, ao reduzir a inflamação cremos que podemos reduzir a probabilidade de novas convulsões”. No âmbito da epilepsia a equipa está também a iniciar um projecto em colaboração com um investigador do National Institute of Health (NIH) dos Estados Unidos, que visa perceber o mecanismo de acção de um novo fármaco com propriedades anti-epilépticas.

Relativamente à esclerose múltipla, não são os neurónios que são afectados inicialmente mas as células que os suportam. “Queremos perceber se conseguimos aumentar a capacidade de regeneração destas células”. Para além dos neurónios, há diversas células no sistema nervoso muito importantes para o bom funcionamento dos neurónios. Estas células denominam-se globalmente como células de glia. Perceber em detalhe diversos mecanismos de comunicação entre células de glia e neurónios, para ampliar a capacidade protectora dos neurónios, é também matéria de investigação do grupo.

No caso da esclerose lateral amiotrófica, onde é o neurónio motor que falha, Ana Maria Sebastião explica que o objetivo da investigação incide numa possibilidade de retardar o processo de redução de função e aumentar a capacidade sináptica a nível do circuito motor, amplificando o que ainda está a a funcionar”.

No projecto de canabinoides investiga-se como estes afectam as sinapses, a memória ou a ansiedade, e como afectam a própria função dos canabinoides que existem endogenamente no cérebro.

Ana Maria Sebastião está ainda envolvida em duas redes de investigadores, o Colégio “Mente Cérebro” e o Programa SynaNet

O Colégio Mente-Cérebro promove a partilha de conhecimentos dentro da Universidade de Lisboa. Tem como objetivo incrementar uma atividade científica transdisciplinar, que tem em comum o conhecimento do cérebro e da mente, das relações entre cognição e funcionamento cerebral, bem como e as suas implicações sociais. Promove diversas actividades, frequentemente organizadas pelos próprios estudantes de Doutoramento de diversas Escolas e programas. Predende-se que ao ampliar a interacção entre as diversas Escolas da Universidade de Lisboa, se facilite a partilha de conhecimento e de tecnologias, enriquecedora da formação dos estudantes e dos trabalhos de investigação. Tem também o objectivo de facilitar a transferência de conhecimento para a sociedade fora da Universidade. Dentro dessa acção promovem-se debates e outras actividades abertos ao público em geral, a escolas do ensino básico e secundário, frequentemente em parceria com o programa ‘Ciência Viva’ e a Sociedade Portuguesa de Neurociências. A participação intensa do Colégio Mente-Cérebro na Semana Internacional do Cérebro e na Noite Europeia dos Investigadores, é disso exemplo.

O programa SynaNet é financiado pelo programa de investigação e inovação Horizonte 2020 da União Europeia. Tem como objetivo a dinamização e partilha de conhecimento, de tecnologias, e intercâmbio de investigadores entre as quatro Universidades Europeias participantes. Permite igulamente a implementacao de atividas de treino avançancado ao nivel de estudantes de Doutoramento e troca de experiencias e conhecimento cientifico. Todos os parceiros do SynaNet estão ativamente envolvidos em projectos centrados no conhecimento do controlo da actividade sináptica e as implicações para o melhor perceber como combater doenças neurológicas ou psiquiátricas. Este programa europeu, coordenado pelo iMM e liderado por Ana Sebastião, está a dinamizar o desenvolvimento de novas valências a nivel regional e nacional na área das Neurociencias.

 

PERFIL ANA MARIA SEBASTIÃO

Professora Catedrática da Faculdade de Medicina
da Universidade de Lisboa

Investigadora no Instituto Gulbenkian de Ciências,
Oeiras (1987-1997) e da Faculdade de Medicina (1997-presente). Integra o iMM desde a sua formação em 2003.

Doutoramento (1987) em Fisiologia Celular, Universidade Nova de Lisboa; Licenciatura em Biologia (1982), Universidade de Lisboa.

Áreas de investigação: Neuromodulação da transmissão sináptica inibitória e excitatória, e da plasticidade sináptica, com foco sobre a acção da adenosina, cafeína, canabinoides, neurotrofinas; controle da excitabilidade neuronal inibitória e excitatória. Neuroproteção e reversão de lesões neuronais agudas e crónicas.
Papel das células da glia no controle da actividade
dos neurónios.