Usar as TIC para melhorar a experiência de mobilidade urbana

Opinião de Ana Aguiar, Professora auxiliar na Universidade do Porto Instituto de Telecomunicações.

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A mobilidade nas grandes áreas urbanas consome uma parte considerável do dia a dia de milhões de pessoas, e ao mesmo tempo produz uma elevada quantidade de gases com efeitos nocivos para o ambiente e para a saúde. Nos últimos anos têm sido desenvolvidos esforços a vários níveis para alterar os hábitos de mobilidade. Por um lado, melhorando a oferta de modos de transporte com menor pegada ecológica, como os transportes públicos, a bicicleta ou o andar a pé, e a intermodalidade. Por outro, incentivando os cidadãos a escolher esses modos mais sustentáveis, quando se adequem ao fim da deslocação.

Melhorar a oferta de soluções de mobilidade sustentável é um esforço desenvolvido e coordenado sobretudo ao nível das áreas metropolitanas e administração pública local. Os avanços recentes das TIC têm aqui dois papéis fundamentais: ajudar a recolher informação mais detalhada para suportar o planeamento de soluções de mobilidade mais eficientes, com especial foco na intermodalidade; e permitir uma monitorização da operação de cada modo de transporte.

No primeiro caso, a recolha de dados geo-referenciados dos veículos, desde táxis a autocarros e bicicletas partilhadas, com selos temporais precisos permite obter matrizes origem-destino, que expressam a procura de mobilidade. Fundindo esta informação com informação extraída de redes sociais sobre eventos e as funções dos locais, é possível ainda perceber algumas motivações das deslocações, como se tem feito no projeto URBY.Sense. Um exemplo são os estudos de mobilidade da comunidade da Faculdade de Engenharia de Universidade do Porto, realizados no âmbito do projeto Generation.Mobi em parceria com o CITTA através da recolha de trajetórias anonimizadas usando smartphones de participantes voluntários. Uma análise da utilização dos modos de transporte em 2016 e 2017 permitiu identificar que se todas as deslocações num raio de 3km fossem realizadas em modos suaves, a pegada ecológica da comunidade seria reduzida 14%. Também se observou um aumento da velocidade média das viagens de autocarro, e um aumento da duração das viagens de carro de um ano para o outro devido à colocação de parquímetros, o que provocou um maior tempo de procura de estacionamento não pago. Observou-se ainda a baixa velocidade média das deslocações em metro devido à distância que tem de ser percorrida a pé entre a FEUP e a estação mais próxima.

No seu conjunto, esta informação é preciosa para a organização da oferta, identificação de necessidades de melhorar acessibilidades, mas também para o planeamento de infraestruturas, como escolas ou supermercados, e para o planeamento das atividades logísticas (entregas de bens ao comércio ou particulares).

A monitorização dos veículos permite identificar pontos críticos da cidade, onde a velocidade é mais variável, onde atrasos são mais frequentes, ou zonas que têm impacto elevado no congestionamento do tráfego em várias outras zonas da cidade. Esta identificação permite focar análises de caso e intervenções localizadas com impacto mensurável. Uma análise deste tipo foi realizada para a STCP em 2014 no âmbito do projeto Future Cities na área da Praça do Carregal no Porto, levando à alteração da localização de paragens de algumas linhas até aos dias de hoje. Um outro exemplo foi a identificação de zonas da cidade cujo tráfego é um indicador do tráfego em zonas distantes, como foi realizado no âmbito do projeto CMU|Portugal S2MovingCity.

A monitorização contínua e detalhada permite ainda verificar quantitativamente o cumprimento de obrigações contratuais de operação de meios de transporte. Está ainda previsto que os dados de monitorização contínua de veículos sejam coligidos em plataformas de gestão inteligente de tráfego, que permitam soluções de mobilidade adaptativa mais eficientes. Um exemplo é o roteamento coordenado de veículos com objetivos simultâneos de minimizar o tempo de deslocação e as emissões de poluentes, como está a ser desenvolvida no projeto P2020 Mobi.Wise, liderado pelo Instituto de Telecomunicações, como caso de uso para as capacidades de comunicação e processamento de grandes volumes de tráfego em redes 5G.

Todos os esforços do lado da melhoria da oferta só produzirão efeitos se os cidadãos efetivamente adotarem quando possíveis soluções de pegada ecológica reduzida. Esta mudança de mentalidade é o grande desafio da mobilidade sustentável. Não se trata de usar sempre um dado modo de transporte, mas de usar o modo mais adequado à finalidade da deslocação. Não é sensato esperar que os cidadãos optem por fazer compras volumosas a pé ou de bicicleta, ou escolher a bicicleta num dia de tempestade (o que pode até ser desaconselhável). Mas é possível em várias deslocações escolher modos suaves, bicicleta ou andar a pé, transporte público, ou uma combinação dos dois. Para isso, é necessário melhorar a informação disponibilizada ao cidadão, para que possa escolher com confiança, e melhorar a experiência de uso dos modos mais sustentáveis, para incentivar o seu uso.

As TIC podem ter um papel determinante na melhoria da informação disponibilizada ao cidadão, aproveitando o interface privilegiado oferecido pelos smartphones, sob a forma de aplicações móveis. Ora estas aplicações têm por trás serviços de backoffice que aproveitam uma série de dados históricos, estáticos ou semi-estáticos (com variações escalas temporais de semanas ou meses), e de tempo real para dar ao cidadão informação útil para os seus propósitos. Para possibilitar estas soluções, são necessários avanços na disponibilização de dados com qualidade e granularidade elevada em modo aberto e através de interfaces conhecidos e interoperáveis, por exemplo sobre a qualidade do ar (e poluentes), como foi demonstrado num piloto do projeto Future Cities, ou sobre as condições de tráfego, e.g. o tempo para atravessar uma certa rua e o seu estado de congestionamento.

Por exemplo, para que as deslocações em modos suaves, a pé ou de bicicleta, sejam mais agradáveis, o desenho de rotas deve ter em conta não só a inclinação da rua, mas também a quantidade de sombra no Verão, a qualidade do ar naquela área, ou a existência de funiculares ou elevadores para as zonas mais inclinadas. Já para aumentar a atratividade da utilização de transporte públicos é imperativa a disponibilização de forma usável de informação fiável sobre tempos de partida, estimativas de tempo de viagem, e mesmo sobre a própria fiabilidade. Por exemplo, é importante o cidadão conhecer a confiança de uma dada hora prevista de chegada a uma paragem no momento de tomada de decisão, para que possa decidir se é aceitável  para a sua agenda. Este tipo de soluções estão a ser exploradas através de  pilotos e em conjunto com as cidades envolvidas nos projetos Mobi.Wise e Smart Pedestrian Net.

Um exemplo de melhoria da experiência do uso de transportes públicos é a disponibilização de conectividade Internet gratuita, hoje comum em autocarros em várias cidades. Um serviço desta natureza é disponibilizado pela STCP no Porto em parceria com a Veniam, uma spin-off da Universidade do Porto. O projeto Generation.Mobi também proporcionou o desenvolvimento de duas aplicações de apoio ao uso de bicicleta. Uma delas é um sistema silencioso de detecção de bicicletas roubadas, em que uma bicicleta pode reconhecer outra até 100m de distância e identificar se pertence a uma lista, e lançando um alarme remoto, desenvolvida em parceria com o Ceiia. A outra, é um sistema de comunicação em grupo, tipo walkie-talkie, para grupos de bicicletas, facilitando as interações sociais durante a viagem. Esta última aplicação pode ajudar a ultrapassar as barreiras iniciais de adopção deste modo de transporte, muito ligadas a desconhecimento de trajetos e receio de andar na rua.

Todos os cenários tocados neste texto assumem novos paradigmas de conectividade, sobretudo passando os veículos e dispositivos móveis a fazer parte essencial da infraestrutura, tanto para entregar conteúdos, como para recolher dados. As redes de nova geração 5G têm já em conta estes cenários, e estão a ser desenvolvidos esforços em várias áreas para ultrapassar os desafios que surgem da integração de nós móveis nas redes. O meu grupo de investigação, além do trabalho na análise de dados e interoperabilidade de plataformas da Internet das Coisas, tem focado vários aspectos da comunicação com nós móveis. Estes vão desde a utilização de autocarros ou veículos municipais  para recolher dados de sensores a custo inferior ao das comunicações celulares usando o paradigma de redes tolerantes ao atraso (delay-tolerant networking), desenho de soluções de utilização de redes WiFi em vez de celulares durante as deslocações, e desenho de mecanismos que permitam a veículos (carros, bicicletas, autocarros) uma utilização mais eficiente dos tempos de conexão com as várias redes WiFi disponíveis, reduzindo o custo das comunicações para o cidadão e libertando recursos na operadora celular.

 

PERFIL Ana Aguiar

Professora Auxiliar na Universidade do Porto Instituto de Telecomunicações

A autora é professora auxiliar na FEUP e investigadora no Instituto de Telecomunicações.

Este texto representa a visão pessoal da autora, e não a das instituições mencionadas ou envolvidas nos projetos. Projetos mencionados em que a autora participa

Future Cities, IP: João Barros, Instituição líder: Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

URBY.Sense, IP: Rui Gomes, Instituição líder: Universidade de Coimbra

Generation.Mobi, Instituição líder: Ibérica

S2MovingCity, IP: Susana Sargento, Instituição líder: Instituto de Telecomunicações

Mobi.Wise, IP: Susana Sargento, Instituição líder: Instituto de Telecomunicações