A Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução (S.P.M.R) é uma associação científica. Em que contexto surgiu a criação da mesma e com que propósitos?

A SPMR foi fundada há 40 anos com o objetivo de promover o conhecimento e a investigação científica na área da Medicina da Reprodução. Numa época em que a partilha de experiências entre os Centros nacionais e destes com os internacionais era mais difícil, foi decisivo o papel da Sociedade para que tal fosse possível.

 

O que se entende por Medicina da Reprodução e qual o contributo direto na mesma para a sociedade civil?

Medicina da Reprodução é a área das ciências médicas que se dedica ao estudo e tratamento da infertilidade bem como à promoção da fertilidade. São dois problemas complementares mas não sinónimos um do outro. Tem vindo a ganhar um protagonismo crescente em face do aumento da prevalência da infertilidade nas sociedades ocidentais, sobretudo relacionado com o estilo de vida das populações e da idade cada vez mais tardia em que se decide ter filhos. Este último ponto é particularmente sensível no caso da mulher, uma vez que o seu “relógio biológico” funciona a um ritmo muito mais acelerado do que no caso do homem. Para além do impacto emocional e de saúde em geral que a infertilidade representa em termos individuais, também se coloca o problema em termos de sociedade civil. Num país como o nosso, em que o número de nascimentos tem vindo a diminuir de forma consistente, o contributo da Medicina da Reprodução para esses nascimentos tem vindo a crescer. Em 2016, a percentagem de crianças nascidas após a utilização de técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) era já de 3% do total de nascimentos. A tendência é para que essa proporção aumente.

 

O desenvolvimento da Medicina da Reprodução permite aplicações cada vez mais amplas, quais são as consequências que daí advêm?

Esse é um assunto bastante complexo uma vez que a ciência tem sofrido uma evolução muito significativa nesta área. Se por um lado essa evolução tem permitido uma melhoria importante das taxas de sucesso dos tratamentos, a utilização das novas tecnologias poderia permitir a sua aplicação em áreas que a sociedade teria dificuldade em aceitar, nomeadamente por questões éticas. Felizmente Portugal é um bom exemplo de regulação desta atividade. A lei da PMA de 2006 veio estabelecer regras de conduta nesta área, tendo criado um órgão regulador para o efeito que é o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida.

 

Assumiu recentemente o cargo de presidente da SPMR. Quais são os objetivos a que se propõe neste início de mandato?

A SPMR é uma instituição prestigiada com uma longa tradição de promoção do desenvolvimento e conhecimento científico. Nesse aspeto vai ser difícil melhorar porque sentimos que o seu papel é já muito relevante. Mesmo assim temos a ambição de pelo menos manter o patamar de qualidade. Para tal vamos criar uma bolsa de investigação que permita ajudar financeiramente a concretização de projetos com mérito científico na área da Medicina da Reprodução. Por outro lado sentimos que é dever da SPMR ter uma maior abertura para com a Sociedade Civil. Essa é uma das suas vocações. Começamos por lançar uma petição à Assembleia da República para alertar os deputados quanto à necessidade de criar nova legislação que permita ultrapassar os problemas que resultaram do recente acórdão do Tribunal Constitucional, que na prática levantou a questão da constitucionalidade do anonimato dos dadores de gâmetas e embriões, bem como da gestação de substituição. Por outro lado pretendemos fazer campanhas junto dos nossos jovens, nomeadamente universitários, que os alerte para dois importantes problemas: como cuidar da sua fertilidade e como ajudar a ultrapassar a escassez de dadores de gâmetas em Portugal, uma prática altruísta que em muito tem contribuído para a resolução de inúmeros casos de infertilidade.

 

Na relação com a sociedade, quais diria que são os maiores desafios que a SPMR tem de ultrapassar?

Creio que os maiores desafios estão na base das campanhas que temos em mente. Informar e sensibilizar os jovens para os problemas da fertilidade. Por serem tão importantes é que os considerámos prioritários.

 

O que é que a população portuguesa ainda desconhece sobre medicina de reprodução?

Eu quase colocaria a questão ao contrário! O que é que sabe sobre medicina da reprodução? Infelizmente ainda há um grande desconhecimento, nomeadamente do seu potencial e também das suas limitações.