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Ana Rita Silva

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Crédito malparado nos bancos aumentou para quase 18 mil milhões

No entanto, se comparado esse valor com o mesmo mês do ano passado, houve uma diminuição do crédito vencido de empresas e famílias uma vez que em fevereiro de 2015 o total chegou aos 18.339 milhões de euros.

Os últimos dados disponíveis do Banco de Portugal indicam que, em fevereiro deste ano, o maior rácio de crédito vencido continuou a verificar-se no crédito às empresas, de 12.909 milhões de euros, numa subida de 264 milhões de euros face a janeiro.

O malparado das empresas representava em fevereiro 15,91% do total emprestado pelos bancos a estas sociedades (de 81.115 milhões de euros).

Já no crédito a particulares, o valor de malparado fixou-se em 5.075 milhões de euros, mais 12 milhões de euros do que em janeiro. O crédito vencido representava 4,27% do total de crédito a particulares (de 118.821 milhões de euros).

Dentro dos empréstimos a particulares, o crédito à habitação é maior parcela (97.269 milhões de euros), representando o malparado deste 2,61% do total, ou seja, 2.543 milhões de euros.

Apesar de o crédito malparado para a compra de casa ser uma fatia pequena do total concedido, é de sublinhar que em fevereiro houve um ligeiro aumento no valor total, de 23 milhões de euros, uma vez que em janeiro era de 2.520 milhões de euros.

O crédito vencido das empresas atingiu o seu auge em agosto de 2015, quando chegou aos 13.736 milhões de euros, e nos particulares o recorde deu-se em maio do ano passado nos 5.440 milhões de euros.

O tema do crédito malparado e da forma de ‘limpar’ os balanços dos bancos destes ‘ativos tóxicos’ está na ordem do dia depois de, no fim de semana, o primeiro-ministro, António Costa, ter defendido que é “útil para o país encontrar um veículo de resolução do crédito malparado de forma a libertar o sistema financeiro de um ónus que dificulta uma participação mais ativa nas necessidades de financiamento das empresas portuguesas”.

Nos últimos anos, este tema de criação de um mecanismo para tirar o crédito vencido dos bancos foi sendo falado, tendo sido mesmo motivo de conversas entre as autoridades portuguesas e a ‘troika’ no início do pedido de ajuda externa, em 2011, mas nunca avançou.

Na segunda-feira, a Associação Portuguesa de Bancos (APB) afirmou mesmo que propôs em 2011 ao governo liderado por Pedro Passos Coelho o lançamento de um veículo deste género e defendeu que vê com “com agrado” que se reflita numa solução “para acelerar a recuperação ou a venda dos créditos em mora, promovendo o fortalecimento do sistema bancário europeu”.

De acordo com a associação que representa os bancos que operam em Portugal, “tais soluções deverão ser compatíveis com o quadro comunitário e permitir minimizar potenciais perdas de capital”.

Este tema também tem feito parte das intervenções públicas do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que ainda a semana passada, na comissão parlamentar de inquérito ao Banif, disse que esse tema continua na sua “agenda” e que gostaria que houvesse em Portugal entidades semelhantes às que foram criadas em Espanha e Itália para absorver os ativos ‘tóxicos’ dos bancos dos dois países.

No entanto, o governador alertou que para isso é necessário “ter a capacidade para destacar do balanço dos bancos um conjunto de ativos e, simultaneamente, recapitalizar os bancos nesse montante” e que esse mecanismo poderia ter forte impacto nas finanças públicas.

Já a 05 de março, numa entrevista ao jornal Expresso, Carlos Costa tinha dito que “seria desejável encontrar soluções para retirar do balanço dos bancos os ativos punitivos, através da sua colocação em veículos que permitissem depois a sua venda a investidores finais”.

No entanto, afirmou, uma vez que quem compra esses ativos quer fazê-lo abaixo do preço de balanço, é necessário que haja “um sistema de garantias que permita titularizar esses ativos, e assim interessar investidores com visão de longo prazo e capazes de ficar com esses ativos nos seus balanços”.

 

CDS defende novo horário de funcionamento das creches

No Largo do Caldas, em Lisboa, os centristas enumeraram algumas das medidas que querem ver impostas de modo a promover a natalidade e a família. Uma das soluções apresentada foi um novo horário de funcionamento das creches, que deve ser conciliável ao horário de entrada e saída dos pais do respetivo trabalho.

“O que se pretende não é que a criança passe mais horas do que as que são aconselhadas na creche. O que se pretende é que existam creches para pais que trabalham por turnos. Temos muitas pessoas que trabalham ao fim de semana e não conseguem conciliar com o tempo que passam em casa”, explicou a líder do CDS em conferência de imprensa.

Além disso, foram também propostos incentivos fiscais a serem dados às empresas que se apresentem como “amigas da família”, isto é, firmas que adotem soluções favoráveis às famílias.

Foi ainda sugerido pelo CDS uma alteração ao complemento de bonificação do abono por deficiência. “Neste momento a diferenciação só diferencia dois aspetos: a idade da criança e se a família é monoparental ou não”. Por isso, o CDS defende a introdução de um outro modelo de diferenciação: “o rendimento disponível da família”.

“Para uma família inserida no primeiro grau do abono, com rendimentos disponíveis quase inexistentes, ter mais 59 euros ao final do mês não chega para quem tem um filho com deficiência”, justificaram os centristas.

 

João Vale de Almeida: “Nações Unidas são mais precisas hoje do que há trinta anos”

Está na hora de os europeístas saírem das sombras e oporem-se publicamente aos “populismos ocos” que abundam dos dois lados do Atlântico. Segundo João Vale de Almeida, embaixador da União Europeia na ONU, esta é a melhor forma de combater as respostas simples que abundam nos 28, mas também nos Estados Unidos — local onde representa a União Europeia desde 2010, primeiro em Washington e agora em Nova Iorque. Por isso, defende que problemas globais exigem respostas complexas, mas coordenadas e que passam por uma maior eficácia das Nações Unidas.

Para este lisboeta, o seu mais recente local de trabalho, as Nações Unidas, é “uma construção fantástica”. João Vale de Almeida entregou as suas credenciais como representante da União Europeia junto desta organização em novembro. Antes disso, foi embaixador da UE junto dos EUA, mantendo-se em Washington, e uma vasta carreira na Comissão Europeia. Apesar de trabalhar desde 1982 nas instituições europeias, Vale de Almeida defende que Bruxelas não tem todas as respostas e que a responsabilidade pelo rumo do projeto europeu é de cada cidadão. Deseja ainda as maiores felicidades a António Guterres na corrida pela liderança da ONU.

A ONU precisa de ser reformada? É um objetivo para a União Europeia?

A nossa posição traduz-se à volta de uma frase: o multilateralismo eficaz. Ou seja, um multilateralismo que não seja só um conceito vazio, mas que tenha efeitos práticos. Eu acho que as Nações Unidas, onde estou apenas há quatro ou cinco meses, são uma construção fantástica. De tal maneira fantástica que eu acho que se a quiséssemos fazer hoje não seríamos capazes. É um produto de uma série de circunstâncias do pós-guerra, não perfeito — as Nações Unidas não são perfeitas, estão longe de ser perfeitas –, mas nós não podemos deitar fora um produto porque ele não é perfeito, sobretudo se não formos capazes de fazer alguma coisa melhor. E neste momento tenho a certeza de que o mundo hoje era incapaz de fazer algo parecido.

Mas viver num mundo diferente também significa que há desafios diferentes…

Temos que preservar o que há de bom no sistema das Nações Unidas: o conceito de multilateralismo, o conceito de igualdade dos Estados no contexto das Nações Unidas, o conceito do primado do direito internacional. Tudo isso é fundamental preservar. Agora, temos que melhorar a eficácia do sistema das Nações Unidas. Eu acho que aí a eleição do próximo secretário-geral é uma oportunidade única para enveredar por novos caminhos, reforçar algumas das coisas que já começaram e mudar-se eventualmente outras. E aí o papel da UE é ser um grande apoiante das Nações Unidas. Não há grupo de países no mundo mais apoiante, mais em sintonia com a agenda das Nações Unidas, do que a União Europeia. Nós somos não só o principal financiador das Nações Unidas, como somos aqueles que do ponto de vista político, mais sustentamos o sistema.

New Head of Delegation of the EU presents credentials

Como é que isso se traduz?

Eu vejo isso no meu dia-a-dia em Nova Iorque e no alinhamento das nossas posições com as posições do secretário-geral. Está patente na agenda das Nações Unidas para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável até 2030, que é um documento excecional. É preciso agora cumpri-lo. E aí a União Europeia está no centro da ação, e a senhora Mogherini tem sido muito clara, ela é uma multilateralista ferrenha, como eu sou, e o nosso objetivo é fazer com que as Nações Unidas recuperem a sua pujança. Eu acho que o novo ciclo com o novo secretário-geral é uma boa ocasião para o fazer, tem uma enorme responsabilidade. Eu acho que as Nações Unidas são mais precisas hoje do que eram há trinta anos. Como aliás acho que a União Europeia talvez seja mais precisa hoje do que era há trinta anos — e é isso que me motiva em Nova Iorque.

Falou no próximo secretário-geral e é público que Portugal ter um candidato para esse cargo. Conhece António Guterres?

Conheço e tenho enorme respeito por ele.

Pensa que ele tem perfil para liderar as Nações Unidas?

Não me cabe a mim dizê-lo. Não tenho literalmente voto na matéria. Mas como cidadão português e cidadão europeu acho que seria um excelente secretário-geral. Mas está em concorrência com outros, por enquanto com outros sete, não é de excluir que outros candidatos apareçam. Sabe-se aqui em Portugal o contexto, há um problema eventual de rotação geográfica e uma questão que se levanta também sobre o género do secretário-geral. Dito isto, a corrida está aberta, o debate está aberto, os candidatos vão ser ouvidos agora. Vai ser certamente muito interessante e desejo as maiores felicidades a António Guterres.

“Temos que melhorar a eficácia do sistema das Nações Unidas. Eu acho que aí a eleição do próximo secretário-geral é uma oportunidade única para enveredar por novos caminhos”

Onde é que estava e o que é pensou quando soube dos ataques terroristas em Bruxelas?

Estava dentro de um avião da TAP a ir para Bruxelas. Quando nos estávamos a aproximar da pista para a descolagem, o comandante disse que havia problemas no aeroporto em Bruxelas e voltámos para trás. Ao fim de duas horas, o mesmo avião, a mesma tripulação e os mesmos passageiros, talvez menos 50 pessoas que preferiram não embarcar, partimos para o Luxemburgo. Estava em Bruxelas às 17h. Quando cheguei a Bruxelas, onde tenho a minha mulher, o meu filho e a minha neta, estava preocupado porque não conseguíamos falar devido ao congestionamento das linhas, mas, claro, não foi nada comparado com as vítimas diretas do atentado.

Como alguém que viveu em Bruxelas durante mais de duas décadas em funções nas instituições europeias, qual foi o significado destes atentados?

O que aconteceu em Bruxelas, tal como o que aconteceu poucos dias depois no Paquistão, no Quénia, e já tinha acontecido noutros países europeus, significa apenas uma coisa: ninguém está imune ao flagelo do terrorismo. É um dos grandes desafios deste início de século. O segundo desafio, ligado ao extremismo violento, é o populismo. Estes são os grandes desafios da democracia liberal tal como a conhecemos e talvez sejam os dois últimos grandes desafios da minha geração, que conseguiu os efeitos positivos da globalização, o alargamento da União Europeia e consolidação do projeto europeu, mas que está confrontada com as dificuldades de ultrapassar o terrorismo e a ameaça clara do populismo.

Como é que acha que o Serviço de Ação Externa, o serviço diplomático da União Europeia do qual faz parte e que auxilia a Alta Representante Federica Mogherini, pode contribuir para ultrapassar esses desafios?

Eu tenho o privilégio de representar a União Europeia nas Nações Unidas e parece-me que estas duas organizações vão ter um papel fundamental para enfrentarmos estes dois desafios. O mundo hoje é mais volátil e mais complexo, nalguns aspetos é mesmo impossível de governar. Saímos de uma situação de guerra fria, onde as coisas eram relativamente previsíveis e, embora fosse um equilíbrio do terror, havia um equilíbrio. Sabíamos quem era o nosso inimigo e onde ele estava. A primeira obrigação que temos todos é ter consciência da complexidade e a segunda obrigação é rejeitar quem põe em causa essa complexidade. O populismo é isso, são soluções simples para problemas complexos. Quem tem noção da complexidade tem de rejeitar essa tese. Por último, temos de encontrar formas de cooperação a nível regional e global porque já não há soluções só nacionais. Portugal não tem todas as soluções para os problemas portugueses. A minha posição atual, que é interessante e estimulante, é tentar cruzar uma solução regional, que é a União Europeia, com soluções globais na ONU.

E qual é o contributo da União Europeia nessas soluções?

Tem um contributo essencial a dar. Vejo isso nas próprias Nações Unidas. Somos de longe o conjunto de países com formas de cooperação e com os entendimentos mais fortes do mundo. Em termos económicos, ainda somos o principal ator económico do mundo e a maior potência comercial do mundo. Somos também a principal potência de ajuda ao desenvolvimento no mundo. E, às vezes, vejo os europeus pouco confiantes. Nós temos de ter orgulho naquilo que fizemos na União Europeia. Temos de estar contentes e orgulhosos nos nossos valores. Que outro modelo oferece a qualidade de vida e a clareza de princípios do projeto europeu? Eu não vejo nenhum outro modelo tão atrativo.

Mas pensa que este modelo vai durar muito mais tempo?

Sejamos claros, o nosso modelo está a ser posto em causa. E há modelos alternativos que aparecem com capacidade de atração: o capitalismo autoritário, a democracia musculada, os líderes carismáticos. Tudo isto existe e faz parte do imaginário do populismo. Tudo isto tem de ser combatido por aqueles que creem nos nossos valores. Precisamos que todos aqueles que se reveem no projeto europeu tenham consciência de que o mundo está em sérias dificuldades e que urge unir forças.

“Nós temos de ter orgulho naquilo que fizemos na União Europeia. Temos de estar contentes e orgulhosos nos nossos valores. Que outro modelo é que oferece a qualidade de vida e clareza de princípios que o projeto europeu? Eu não vejo nenhum outro modelo tão atrativo”

A Europa enfrenta problemas cada vez mais complexos. Depois da crise económica, que ainda não foi completamente ultrapassada, a União está agora confrontada com a crise dos refugiados e com o terrorismo. Que respostas é que Bruxelas pode dar ao populismo quando não parecem existir respostas eficazes para estes problemas?

Bruxelas tem um papel fundamental, mas não se pode pedir tudo a Bruxelas. Eu estive muitos anos em Bruxelas, em funções de relevância, e sei do que falo. Tal como o antigo presidente da Comissão dizia: “É muito simples atacar Bruxelas de segunda a sexta e pedir para que os cidadãos estejam a favor da União ao sábado e ao domingo, ou quando vão votar”. Mas fizemos isto tempo demais. A União Europeia são os Estados que a constituem, não é uma construção fictícia. São 28 Estados e 500 milhões de pessoas. As pessoas que estão em Bruxelas representam, facilitam e personificam através das instituições, mas não são mais do que isso. A responsabilidade é de cada um de nós.

Mas essa percepção não é fácil para os cidadãos da União Europeia neste momento.

Os tempos não são fáceis. Quando vejo o aeroporto de Bruxelas, onde passo todas as semanas, quando passo na estação de Maalbeek, a minha mulher passou por lá cinco minutos depois da explosão e descreveu como as pessoas estavam a sair de lá feridas, este acontecimento mostram que isto passou a ser o nosso quotidiano e já não está longe. A urgência é enorme. O mundo anda com más companhias e precisamos todos de ter uma conversa muito séria e essa conversa tem de começar por aqueles que têm mais responsabilidade. Há uma tomada de consciência da complexidade do mundo onde estamos e a rejeição do populismo, quer de esquerda, quer de direita e também deste populismo que existe agora, que eu chamo o populismo oco, que nem tem ideias. Há exemplos disso dos dois lados do Atlântico. E quem está contra isto tem de unir esforços. O meu objetivo em Nova Iorque é mesmo esse. Unir esforços, consolidar o bloco europeu e em conjunto com outros dentro da ONU que partilham as nossas preocupçãoes, e há muitos, construir consensos e fazer avançar a governação global.

Falou em populismo oco. Estando nos Estados Unidos acaba por ser um observador privilegiado do que acontece naquele país, nomeadamente na campanha para as eleições que está a decorrer. Antevia esta campanha e a crispação neste período que antecede as eleições?

Há várias realidades aí. Antes de mais, há um problema no Partido Republicano. Acompanhei este problema e reportei-o a Bruxelas enquanto estive em Washington. O partido está a passar por uma crise porque não acompanhou a evolução demográfica e sociológica dos EUA e representa uma franja reduzida da demografia americana. Esta franja sente-se encurralada ou acossada pela evolução do país. O segundo problema, mais geral nas democracias e que também acontece na Europa, é a incapacidade de explicar o que se passa e fornecer ao cidadão a sensação de que há alguém a controlar o que se passa. Muitos cidadãos, de países diferentes, não sabem quem manda. Há as autoridades nacionais e regionais, que têm competências, mas a sensação é que elas são rapidamente ultrapassadas por forças diferentes. A noção de globalização está a ter uma conotação muito negativa porque as pessoas sentem insegurança física, como acontece com o terrorismo, e económica, como o desemprego e a queda do rendimento. Um dos problemas da América, e que se reflete nas eleições, é o declínio da classe média. E quando há insegurança e incerteza é muito fácil para populistas agitar certos papões e tocar nos instintos mais básicos das pessoas. A globalização reduziu a diferença entre países, mas nalguns casos aumentou as diferenças dentro dos países e aumentou a noção que as pessoas têm dessas diferenças. E é isso que se reflete no debate americano. Porque se virmos, a economia americana está pujante e está em pleno emprego, mas olhamos para o sentimento da classe média e vemos que há dois candidatos, à esquerda e à direita, que estão a explorar esse sentimento.

No seu papel de diplomata da UE como é que encara esta crispação, que até já atravessou as fronteiras com trocas de tweets entre Donald Trump e Manuel Valls?

Acho que as pessoas que têm responsabilidades têm de ter mais cuidado no que projetam para os cidadãos como civismo político. E aí, tanto nos EUA como na Europa, tem-se descido abaixo dos patamares ideais e, nalguns casos, eu tenho visto a qualidade do debate descer estrondosamente. Isso desprestigia a política, muitos políticos podem achar que assim estão mais próximos dos cidadãos, mas eu penso que é ao contrário e eles acabam por afastar-se.

“Quando há insegurança e incerteza, é muito fácil para populistas agitar certos papões e tocar nos instintos mais básicos das pessoas. […] Olhamos para o sentimento da classe média e vemos que há dois candidatos, à esquerda e à direita, que estão a explorar esse sentimento”

Qual é o preço que as relações entre a Europa e os Estados Unidos podem vir a pagar devido a esta crispação?

Eu não tenho qualquer dúvida em relação ao interesse mútuo da relação transatlântica. É essencial o reforço da relação transatlântica. É essencial para a economia, da Europa e de Portugal, não só a nível comercial, mas também do peso que os dois podem ter nos contornos da globalização. Quando estava em Washington, ajudei a lançar o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), que é fulcral neste ponto. Mas mais importante que a economia é a questão dos valores. Falámos até agora do quão difícil é gerir este mundo e a primeira coisa é saber em que mundo queremos viver. O nosso ponto de chegada é claro: queremos democracia, respeito pelo primado da lei, queremos respeito pelos direitos fundamental e exercício do poder da maioria com respeito pelas minorias. Somos claros em relação às liberdades individuais. E estes valores partilhamos com os nosso parceiros do outro lado do Atlântico, com os EUA, mas também com o Canadá, com outros parceiros da América Latina e com outros países do mundo. Mas temos também de respeitar as diferenças. Eu não quero que a Europa seja os EUA e posso garantir que os EUA não se querem transformar na Europa. O que podemos fazer em conjunto, no quadro das Nações Unidas, é lutar por estes valores em comum. É muito perigoso tentar separar os Estados Unidos da Europa. Se virmos bem, esse é um objetivo comum ao populismo de esquerda e de direita.

E que serve os interesses de certos países…

Se formos ver o discurso desses populistas, os elementos fundamentais são: a rejeição da globalização; a rejeição do comércio livre e de acordos comerciais – esquecendo-se do essencial que para exportar é preciso importar, ninguém abre o mercado às nossas exportações se nós não abrirmos às importações deles –; e rejeição da América. A rejeição da América do lado europeu e rejeição da Europa do lado americano. Isto é constante à extrema-direita, à extrema esquerda.

O TTIP está neste momento em modo maratona para a sua conclusão. Acha que o TTIP vai ser concluído até ao final de 2016 e que TTIP é que vamos ter caso isso aconteça?

Eu já não acompanho esse dossier diretamente. Não deixa de ser um assunto com o qual tenha uma relação afetiva e, portanto, hei de acompanhá-lo sempre. Mas não tenho as últimas informações. Dou-lhe a minha opinião. Primeiro: eu acho que é claramente uma prioridade da política comercial europeia. Espero que também o seja da política comercial americana, não só agora, mas no futuro próximo. Eu acho que é uma urgência, quer do ponto de vista económico puro, quer do ponto de vista geoestratégico. Tudo o que se puder fazer para concluir o TTIP no mais curto prazo possível é absolutamente a coisa certa a fazer.

Mas com que acordo é que ficamos se for concluído num espaço de tempo tão curto, ou seja, até ao final do ano?

O TTIP deve ser um acordo vivo. Ou seja, um acordo que inclui na sua conceção modalidades de aprofundamento futuro, sobretudo na área da regulamentação, onde obviamente não se pode fazer tudo de uma vez. Tem é que se criar mecanismos para que na própria criação do tratado se permita preparar e antecipar diferenças, em vez de ter de as remediar diferenças. É tecnicamente complexo, mas a noção de que é um acordo vivo e que pode evoluir é muito importante e pode responder um bocadinho à sua preocupação, que é legitima, que é dizer no fundo que se acelerarmos agora, acabamos por fazer um acordo menos ambicioso do que seria. Eu acho que há maneiras de preservar a ambição futura do TTIP e ao mesmo tempo conseguir alcançar aquilo que é um objetivo político que me parece válido. Acho que a Comissão Juncker está no caminho certo, vamos ver o que é possível fazer. Agora não tenho dúvidas sobre a importância económica, também para Portugal, e sobre a importância estratégica, também para Portugal, da conclusão do TTIP.

Brasil é o país do mundo onde a venda de livros mais cresceu nos últimos anos

O Brasil é o país onde mais cresceram as vendas de livros em todo o mundo, de acordo com estatísticas divulgadas na abertura da Feira do Livro de Londres, que decorre até quinta-feira.

Depois de as vendas terem crescido 14,4% em 2014 relativamente ao ano anterior, em 2015 voltaram a subir mais 10,7%, segundo dados recolhidos pelas empresas de estudos de mercado Nielsen, OpenBook e GfK.

Não foram revelados dados sobre Portugal, mas a diretora da Feira, Jacks Thomas, mostrou-se otimista sobre o mercado britânico, “um dos poucos países europeus a registar crescimento” nas vendas de livros em 2015.

Os livros infantis são o principal motor deste bom desempenho, que viu os livros em todas as suas formas – papel, versão digital e áudio – vender mais cinco por cento em 2015 do que em 2014, somando receitas de 2,2 mil milhões de libras (2,8 mil milhões de euros).

A 45.ª edição da Feira do Livro de Londres, que recebe em média mais de 25 mil visitantes de 124 países diferentes, decorre até quinta-feira, contando na lista de escritores convidados, entre outros, Julian Fellowes, Judith Kerr e Jeffrey Archer.

O primeiro, criador e escritor das populares séries televisivas Downtown Abbey, vai apresentar um novo livro, “Belgravia”, que será serializado em 11 partes, a publicar uma por semana, através de uma aplicação para dispositivos móveis.

“Parece que estamos de volta aos tempos de Charles Dickens”, comentou Thomas, a propósito da prática no século XIX de publicação de romances em folhetim.

Durante o certame vão ter lugar uma série de eventos de celebração dos 400 anos da morte de William Shakespeare, a par de seminários com profissionais das áreas da edição, académicos, educação, tradução, comunicação, tecnologia.

A lusofonia devia estar representada através de um stand da Atlas Violeta, a Associação Cultural e de Apoio Social aos Países de Língua Portuguesa, que tem sede em Vila Nova de Gaia e que indica promover parcerias e iniciativas entre agentes de língua portuguesa.

Porém, hoje, no dia da abertura da Feira, o local estava vazio de pessoas e material.

Contactada pela agência Lusa, uma dirigente da Atlas Violeta, Cristina Bernardini, invocou uma circunstância inesperada para a ausência, não confirmando se a conferência sobre o Acordo Ortográfico marcada para quinta-feira teria lugar na Feira.

No entanto, garantiu que seria realizada uma “Tertúlia da Poesia Lusófona” na sexta-feira em Londres com os autores que estava previsto participarem na Feira do Livro de Londres: Adilson Pinto (São Tomé e Príncipe), Manuela Bulcão, Jorge Braga e Irene Silva (Portugal), Idalina Santos (Angola) e Vasco Barros (Guiné Bissau).

Enganadas, torturadas, violadas. O drama de 75 refugiadas sírias na Líbia

Levam consigo poucas coisas, além de esperança. Como quase todos os refugiados. Mas por vezes essa esperança é frustrada, fustigada. Aconteceu a 75 mulheres sírias que chegaram à Líbia: acabaram enganadas, torturadas e violadas. Viveram durante vários anos em cativeiro e foram feitas escravas e obrigadas a prostituir-se. Um dos médicos que acompanhava estas jovens vítimas de uma rede de tráfico humano confessou que terá procedido a mais de 200 abortos.

“Cheguei ao Líbano depois de perder a minha família na guerra. Numa tarde em Beirute conheci o P., que disse depois que estava apaixonado por mim ”, explicou a uma ONG local Sally, uma das vítimas, citada pelo “El Mundo”. A jovem, que tem agora 27 anos, confessa ter acreditado que iria casar-se com esse homem e ter filhos, mas acabou por estar presa num bordel em Junieh, situado a cerca de 20 kms da capital libanesa. Depois diz que desistiu de lutar contra uma situação a que não poderia fugir. Conta que eram agredidas nos pés e noutras zonas do corpo menos visíveis para não chamar tanto a atenção. “Mesmo assim, às vezes os clientes perguntavam o que nos tinha acontecido, mas ninguém fazia nada.”

Serena, outra jovem síria de 27 anos, diz que o seu processo foi semelhante. Conheceu um homem no Líbano que prometeu casar-se com ela, não imaginando que estava a lidar com um membro da rede de tráfico de mulheres. Ela e outras vítimas passaram fome, porque o seu “corpo não era desejável para os clientes”.

A Amnistia Internacional alerta que as refugiadas sírias enfrentam maiores riscos de exploração e abuso sexual, apelando ao maior cuidado por parte das autoridades libanesas.

Benfica recebe a ‘final four’ da Liga Europeia de hóquei em patins

O Benfica vai receber no Pavilhão da Luz a fase final da Liga Europeia de hóquei em patins, com as decisões a estarem marcadas para 14 e 15 de maio, anunciou o Comité Europeu de Hóquei em Patins (CERH).

“O CERH atribuiu ao Benfica a organização da ‘final four’ da Liga Europeia masculina de hóquei em patins. O mais prestigiante título europeu de clubes disputa-se a 14 e 15 de maio no Pavilhão Fidelidade”, refere o CERH.

Na fase final, o Benfica encontrará nas meias-finais os espanhóis FC Barcelona, vencedor das duas últimas edições e clube com mais títulos europeus (21), enquanto a Oliveirense, que eliminou o FC Porto, jogará com os italianos do Forte dei Marmi.

As ‘águias’ contam no seu palmarés com um título europeu, conquistado em 2012/13, numa edição organizada no Dragão Caixa em que afastou o Barcelona nas meias-finais e na final bateu o anfitrião FC Porto (6-5).

FC Porto, por duas vezes, Benfica, Óquei de Barcelos e Sporting, uma, são as únicas equipas portuguesas que já se sagraram campeãs europeias de hóquei em patins.

Hoje, na nota publicada no seu sítio na internet, o Comité europeu diz ter recebido três candidaturas à organização, do Forte dei Marmi, Benfica e Oliveirense, mas que por decidiu “por unanimidade” escolher a dos ‘encarnados’.

PSD-Lisboa não quer repetir solução que só venceu duas vezes

A maioria das corridas eleitorais à Câmara de Lisboa foram em conjunto (7 em 12 eleições), mas agora a concelhia do PSD de Lisboa não se mostra interessada em repetir a fórmula PSD/CDS.

Na história autárquica da capital, quando os dois partidos concorreram juntos, em coligação pré-eleitoral, o resultado não foi o melhor. Coligados, venceram apenas em 1982 e 1985, com Nuno Krus Abecassis. Os dois partidos concorreram juntos sete vezes (1979, 1982,1985, 1989, 1997, 2009 e 2013), mas nas eleições do próximo ano isso pode não acontecer. Pelo menos por vontade da concelhia de Lisboa, com o seu presidente a dizer em entrevista ao jornal i que “não deve haver coligação”. “Espero que se tenha aprendido com os erros do passado e que haja duas candidaturas no centro-direita”.

Mauro Xavier diz mesmo não ser “favorável a coligações pré-eleitorais” e que os dois partidos só se devem juntar-se “se gerarem maioria”. A dificuldade fica, desde já, identificada, segundo o presidente da distrital: “Dificilmente haverá uma maioria absoluta de centro-direita”.

O CDS também não se tem mostrado aberto a esta solução, com a líder do partido a dizer no congresso, no mês passado, que quer “uma candidatura forte, ambiciosa e mobilizadora” e com uma referência: “Que honre o nosso passado autárquico protagonizado por Nuno Abecassis. Seria muito bom podermos mostrar numa grande cidade do que é que o CDS é capaz”. O democrata-cristão foi, de resto, o único presidente da Câmara de Lisboa eleito pela coligação.

Na mesma entrevista, Mauro Xavier deixa ainda avisos internos, atirando a Luís Marques Mendes, que diz ser “o responsável pela perda da câmara de Lisboa quando tirou a confiança política a Carmona Rodrigues”, em 2007. E continua: “Entregou-se a câmara de mão beijada a António Costa, que veio a fazer o seu percurso de notoriedade política na Câmara de Lisboa e que hoje é primeiro-ministro. Marques Mendes tem muita responsabilidade nisso”. Sobre as autárquicas de 2017, diz que o candidato deve ser apresentado um ano antes das eleições e que o partido está a “terminar o perfil do candidato”.

Rei de Espanha volta a reunir com partidos a 25 e 26 de abril

O rei de Espanha vai voltar a chamar os partidos para uma ronda negocial, a terceira desde o impasse legislativo criado nas eleições de 20 de dezembro. Os encontros decorrerão nos dias 25 e 26 de abril, perto da data limite para ser aprovada uma solução de Governo, a 3 de maio. A decisão foi comunicada, esta terça-feira, ao Congresso dos Deputados.

Nesta terceira ronda, o chefe de Estado espanhol tentará perceber se é possível encontrar uma solução de formação de Governo que receba apoio da maioria ou se terá mesmo de dissolver as Cortes (Parlamento) e marcar novas eleições para o dia 26 de junho. Caso consiga encontrar um candidato, o plenário no Congresso dos Deputados terá de ser marcado no dia 27 de abril, com tempo suficiente para que pudesse haver duas votações com 48 horas de intervalo.

Os nomes dos representantes de cada partido que estarão presentes na ronda negocial com o rei, bem como a data e a hora a que serão recebidos, serão divulgados a 21 de abril.

Esta decisão do rei chega depois de, no início de março, o PSOE, de Pedro Sánchez, e o Ciudadanos terem levado o acordo de Governo a votos, e este ter sido chumbado pela oposição, incluindo PP e Podemos, fazendo Espanha mergulhar num impasse ainda maior. O PSOE diz acreditar que a solução do impasse passa por novas eleições.

Será que as pessoas menos inteligentes são mais felizes?

Porque é que algumas pessoas são mais felizes do que outras? Ninguém o saberá ao certo, mas Norman Li, da Universidade de Gestão de Singapura, e Satoshi Kanazawa, da Faculdade de Economia e Ciência Política de Londres (Reino Unido), pegaram na teoria da felicidade da savana (the savanna theory of happiness) para mostrar que as pessoas menos inteligentes são mais felizes se viverem no campo e que os mais inteligentes não precisam tanto de amigos. Mas talvez tenham puxado demais pelos resultados obtidos. Sem falar que Kanazawa não se priva de uma boa polémica.

Psicologia positiva

Aborda as potencialidades dos indivíduos, focando-se sobre temas como emoções positivas, traços positivos da personalidade, relacionamentos positivos ou instituições positivas.

A teoria que os investigadores apresentaram na revista científica British Journal of Psychology (BJP) pretende relacionar a psicologia positiva com a psicologia evolutiva (em que se usam os princípios da evolução em biologia para explicar os processos psicológicos), extrapolando o Princípio da Savana para a situação específica da felicidade. Bem, na verdade, os investigadores analisaram a satisfação com a vida, mas acabaram por extrapolar os resultados para a felicidade geral dos indivíduos.

Segundo o Princípio da Savana, o cérebro humano evolui mediante as condições em que vivam os nossos antepassados na savana africana, durante a época do Pleistoceno (que começou há cerca de 2,5 milhões de anos), e como tal terá dificuldade em tomar decisões em situações que sejam diferentes dessas condições ancestrais. Desta forma, os defensores desta teoria parecem basear-se unicamente nas características que são determinadas geneticamente sem ter em conta a influência que a educação ou o contexto cultural têm no desenvolvimento do indivíduo, incluindo do seu cérebro. Bom, a teoria da savana deixa alguma margem para os mais inteligentes, que são capazes de se adaptar a uma vida fora da savana.

O que Norman Li e Satoshi Kanazawa sugerem é que os constrangimentos à evolução do cérebro impostos pelo Princípio da Savana são mais fortes entre indivíduos menos inteligentes. “Os indivíduos mais inteligentes, que têm níveis mais altos de inteligência geral e, portanto, maior habilidade para solucionar novos problemas em termos evolutivos, podem ter menos dificuldade em compreender e lidar com entidades e situações evolutivamente novas”, escrevem os autores no artigo. Mas, embora se refiram à inteligência geral, os investigadores só analisaram, de facto, a inteligência verbal.

Ao aplicarem o Princípio da Savana ao nível de satisfação com a vida, os investigadores sugerem que o que nos trazia satisfação na nossa vida de homem primitivo ainda é o que nos dá mais satisfação hoje em dia (o mesmo para o que nos dá menos satisfação). “A teoria da savana sugere que esses efeitos das consequências ancestrais na satisfação atual com a vida serão mais fortes entre indivíduos menos inteligentes do que entre indivíduos mais inteligentes”, referem os autores. Ou seja, segundo os investigadores, seremos mais felizes a viver em ambientes rurais com densidades populacionais menores.

De um ponto de vista evolutivo, os nossos antepassados que mantinham contactos frequentes com amigos tinham uma maior probabilidade de sobreviverem e de se reproduzirem. Deste modo, as interações sociais representam uma vantagem evolutiva, que deveria conduzir à felicidade e bem-estar”, diz ao Observador Joana Arantes, investigadora no Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho.

A investigadora lembra que as condições sociais a que estavam sujeitos o homem primitivo, vivendo em grupos de cerca de 150 indivíduos, pouco ou nada tem a ver com as condições atuais. “Atualmente, vemos por dia centenas de pessoas, o número médio de amigos no Facebook é aproximadamente 350, e quer por motivos pessoais, quer por motivos profissionais contactamos periodicamente com um número muito elevado de pessoas.”

Este confronto entre as áreas urbanas com uma elevada densidade populacional e as áreas rurais com grupos mais pequenos, justificam, para os investigadores, a perceção da felicidade consoante o coeficiente de inteligência. As pessoas menos inteligentes estão melhor em meios rurais, mais parecidos com o nosso ambiente ancestral, porque terão, segundo os defensores desta teoria, menos facilidade em adaptar-se a novas condições, como os aglomerados de pessoas as grandes cidades. Nestes casos, as interações sociais podem tornar mais feliz a vida das pessoas menos inteligentes, mas não será obrigatoriamente o caso nas pessoas mais inteligentes.

Mas será que as pessoas menos inteligentes são mais felizes no campo porque não se conseguem adaptar à cidade ou não vivem na cidade porque são mais felizes? Será que as pessoas são mais felizes porque vivem em aglomerados mais pequenos ou as pessoas escolhem viver em aglomerados mais pequenos porque são mais felizes? Dois acontecimentos estarem correlacionados estatisticamente, não significa que sejam causa e consequência um do outro, lembra ao Observador João Daniel, investigador na Unidade de Investigação em Psicologia do ISPA – Instituto Universitário. E esse é um dos pontos que o artigo da BJP falha em explicar.

Os resultados até podem ser interessantes, mas em termos teóricos ficam um bocado aquém. A discussão não é muito forte na contextualização teórica dos resultados e conclusões obtidos”, refere João Daniel, biólogo e doutorado em psicologia.

Os dois autores do artigo avaliaram a frequência das interações sociais de mais de 15 mil indivíduos, entre os 18 e os 28 anos, nos Estados Unidos. Mas para Joana Arantes “mais importante do que a frequência das interações sociais com amigos é a qualidade dessas mesmas interações”. Além disso, a investigadora refere que “Li e Kanazawa questionaram apenas acerca da frequência das interações com os amigos, não especificando o que consideravam como amigos, nem analisado nenhum aspeto dessas interações”.

Contactada pelo The Washington Post, Carol Graham, investigadora em economia da felicidade na Instituição Brookings (Washington), refere outra das lacunas do estudo: a felicidade é definida como a perceção de satisfação com a vida, mas não considera questões de bem-estar, como o número de vezes em que o indivíduo se riu ou que se sentiu zangado. Sobre isto, os investigadores desvalorizam: “A teoria da felicidade da savana não está comprometida com nenhuma definição em particular e é compatível com qualquer conceção razoável de felicidade, bem-estar subjetivo e satisfação”.

Com os dados recolhidos, Li e Kanazawa concluíram que, “tal como previsto pela teoria da felicidade da savana, a associação entre a socialização com os amigos e a satisfação com a vida foi mais forte entre pessoas menos inteligentes do que entre pessoas mais inteligentes”. Joana Arantes acrescenta que a investigação na área da inteligência emocional tem mostrado que “as pessoas muito inteligentes podem precisar de interações menos frequentes, mas com maior qualidade do que as restantes pessoas”. Ou porque se adaptam mais facilmente a novos ambientes, ou porque “as atividades sociais acabam por ser desvalorizadas em detrimento dos seus interesses e objetivos principais”.

Relação entre a frequência das interações sociais e a inteligência na perceção da satisfação com a vida. Com uma escala que potencia a perceção de diferença, que na verdade é muito pequena

Li&Kanazawa(2016)BJP

João Daniel refere, porém, que estas “conclusões são exageradas”. Os autores são muito “hábeis na maneira como contam a história”. Com uma amostra de 15 mil pessoas – que o investigador refere como um ponto positivo – é fácil que mesmo as diferenças mais pequenas se tornem estatisticamente significativas, mas isso não quer dizer que a magnitude destas diferenças seja relevante. E chama a atenção para os gráficos, onde as diferenças são inferiores a 0,05. A diferença parece grande porque o gráfico não começa no início da escala, que vai de um a cinco (as conclusões não podem dizer mais do que os resultados, como já o tínhamos referido.

Assim, e como refere El Huffington Post, esta teoria da savana não é mais que isso mesmo, uma teoria. Não vale a pena abdicar já dos amigos. “A teoria da felicidade da savana é uma teoria das ciências fundamentais, iguais a todo o meu trabalho”, diz Satoshi Kanazawa. “Os cientistas fundamentais, como eu, só tentam explicar a natureza.”

Mas Kanazawa não tem sido absolutamente consensual nesta tentativa. Um artigo publicado no blogue Psychology Today, em 2011, foi alvo de muitas críticas, não só por haver um certo racismo implícito no título – “Porque é que as mulheres negras são fisicamente menos atrativas que outras mulheres?” -, mas porque todo o texto era baseado em má ciência, refere um texto de opinião no The Guardian. Já em 2006, o investigador tinha publicado um artigo científico em que afirmava que os povos africanos eram mais pobres e mais afetados por doenças por serem menos inteligentes. Um dos blogues da conceituada revista Scientific American levanta mais questões sobre a integridade do investigador.

Se a verdade ofende as pessoas, é o nosso papel como cientistas ofendê-las. Se o que eu digo está errado (porque não tem lógica ou porque carece de evidência científica credível), então o problema é meu. Se o que eu digo vos ofende, então o problema é vosso. Preparem-se para serem ofendidos. Faço ciência como se a verdade fosse importante e como se os vossos sentimentos sobre isso não”, escreve Satoshi Kanazawa na página da universidade.

Os corredores brancos da radioterapia de Coimbra ganharam cor e poesia

Os corredores de acesso ao tratamento de radioterapia e quimioterapia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) vão ganhar cor e poesia pela mão de artistas que de manhã pintaram telas a convite da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

O ‘hall’ de entrada dos serviços de radioterapia e oncologia médica do CHUC estava diferente de manhã. À volta de uma árvore e servindo-se da luz de uma claraboia, cinco artistas, equipados com cavaletes, batas e pincéis, pintavam em telas imagens inspiradas em versos que transmitissem esperança.

Maria Arminda, de 70 anos, não resistiu a dar uma volta pelos quadros que iam sendo pintados ao longo da manhã. Enquanto se deixava admirar pelas imagens, não pensou “noutras coisas”, conta a mulher de Anadia, que acompanhou hoje o marido a um tratamento à próstata.

“Nem sabia qual é que escolhia mas, por mim, levava-os todos para casa. Nem que fossem às costas”, sublinha Maria Arminda, dizendo que, com as telas, “a gente até vai mais levezinha daqui”.

A iniciativa, intitulada “Pinceladas de Esperança”, é organizada pelo Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro (NRC-LPCC) e pretende humanizar os corredores brancos onde doentes oncológicos esperam pelo tratamento, com a ajuda de oito pintores que criaram obras em torno de versos e frases de “esperança” de escritores e poetas como Florbela Espanca, Eugénio de Andrade, Miguel Torga, Vergílio Ferreira ou Fernando Namora.

Ao pintor Victor Costa coube pintar a partir de um excerto do poema “Urgentemente”, de Eugénio de Andrade, em que o poeta diz que “é urgente inventar a alegria”, “descobrir rosas e rios e manhãs claras”.

O poema, salienta Victor Costa, “tem todas as fases deste problema”, transpondo para a tela as “manhãs claras” e “o amor”, mas também “o silêncio nos ombros” de que Eugénio fala, numa tela em que a luz acaba por dominar e onde uma árvore simboliza “a regeneração, a vida e a superação”.

“Todos conhecemos histórias difíceis e de superação. A capacidade do doente acreditar que é capaz é fundamental para combater o cancro”, frisa o artista.

Na tela de Álvaro Portugal, as cores quentes dominam um quadro “alegre”, que procura “dar um sorriso” aos doentes oncológicos, explanou.

Já Maria Guia Pimpão pintou “uma mulher que se abre para a luz”. A professora reformada, que também é pintora, olha para o quadro como uma forma de ajudar os doentes “a esquecer o dia que passam aqui e a pensar num futuro mais luminoso”.

O presidente do NRC-LPCC, Carlos de Oliveira, recorda que quando os doentes saem do ‘hall’ de entrada e passam para os corredores, “muitos não sabem o que os espera lá dentro. Deparam-se com máquinas complexas ou tratamentos agressivos. Por isso, quando atravessarem o corredor, é importante encontrarem telas que humanizam o espaço”.

“Aquela parede é muito branca e muito fria”, aponta a diretora do serviço de radioterapia, Margarida Borrego, para o corredor de radioterapia, que sofreu uma remodelação e a introdução de um novo acelerador linear.

Por isso, a responsável desafiou o NRC-LPCC para encontrar algo que desse “um melhor ambiente e mais calor humano e cor” àquele espaço.

Assim que as obras estiverem afixadas, “a imagem que os doentes levam para casa depois do tratamento é aquela imagem bonita”, notou.

“Eles têm jeitinho para isso”, comentou Maria dos Anjos, de 78 anos, a fazer tratamento em radioterapia, sublinhando que é “importante” iniciativas como esta, porque, para superar, afirma, “é preciso ter esperança de que as coisas vão melhorar”.

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