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Venda do Novo Banco está quase concluída

Mais de três anos depois da resolução do Banco Espírito Santo (BES), no verão de 2014, e da criação do Novo Banco, parece estar a chegar ao fim um dos capítulos da história deste banco: a venda.

Um processo de avanços e recuos, que levou à suspensão da primeira venda, e, numa segunda fase, terminou com a escolha do fundo Lone Star, que ficará com 75% do Novo Banco, mantendo o Fundo de Resolução (seu único acionista) 25% do capital.

Contudo, a intervenção do Estado neste processo pode estar longe de estar concluída. Inicialmente, para ajudar a capitalizar o Novo Banco, o Estado emprestou ao Fundo de resolução bancário 3.900 milhões de euros. Este fundo – apesar de consolidar nas contas públicas e de ser gerido pelo Banco de Portugal – é detido pelos bancos que operam em Portugal, pelo que lhes caberá a eles devolver o dinheiro ao Estado.

Mas essa devolução será a muito longo prazo. Já este ano, o Governo acordou que os bancos poderão pagar essa dívida em contribuições regulares anuais até 2046. E as responsabilidades do Estado poderão não ficar por aqui. Uma das condições da venda ao Lone Star implica que, durante oito anos, o Fundo de Resolução terá de compensar o Novo Banco por perdas de capital resultantes de um conjunto de ativos ‘tóxicos’, no máximo de 3,89 mil milhões de euros.

Uma vez que não deverá ter dinheiro para injetar no Novo Banco, caso precise, o Fundo de Resolução deverá ter de voltar a pedir um empréstimo ao Estado ou pode financiar-se no setor bancário (provavelmente com garantia de Estado). O BCP meteu recentemente uma ação na Justiça para clarificar esta garantia, já que é dos maiores contribuintes para o Fundo de Resolução.

Por fim, ficou a saber-se, esta quarta-feira, que o Estado português poderá ser chamado colocar mais dinheiro no Novo Banco, caso o banco precise de capital e não haja investidores dispostos a recapitalizá-lo.

Uma venda que ficará na história da banca nacional

Quando foi criado o Novo Banco?

No verão de 2014. Na noite de 3 de agosto desse ano, um domingo de verão, o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, faz a primeira declaração pública ao país. O tema foi o Banco Espírito Santo (BES), que tinha apresentado prejuízos de quase 3,6 mil milhões de euros no primeiro semestre de 2014, os maiores de sempre de um banco em Portugal, e cuja gestão era suspeita de irregularidades.

Aí, anuncia a aplicação de uma medida de resolução ao banco da família Espírito Santo. Ao mesmo tempo, com o objetivo de proteger depositantes e contribuintes, é anunciada a criação do Novo Banco como instituição de transição para ficar com os ativos considerados menos problemáticos do BES.

O único acionista do Novo Banco é o Fundo de Resolução bancário, uma entidade pertencente às instituições financeiras que operam em Portugal (sendo as maiores fatias da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, dadas as suas dimensões), mas cuja gestão é feita pelo Banco de Portugal e que consolida nas contas públicas.

O BES desapareceu? 

Não. A entidade BES não terminou no momento da resolução, tendo ficado aí os chamados ‘ativos tóxicos’ do BES, nomeadamente os créditos sobre entidades do Grupo Espírito Santo (GES), em geral de muito difícil recuperação, e filiais, como o BES Angola.

O ‘banco mau’ BES registou prejuízos de 9,2 mil milhões de euros em 2014 e 2,6 mil milhões de euros em 2015. Os resultados de 2016 ainda não são conhecidos. A licença bancária do BES foi revogada pelo Banco Central Europeu (BCE) e esta entidade está agora em liquidação.

Qual o capital social do Novo Banco?

O Novo Banco nasceu capitalizado com 4,9 mil milhões de euros através do Fundo de Resolução bancário. Contudo, como o fundo não tinha dinheiro suficiente para capitalizar o banco, o Estado emprestou-lhe 3,9 mil milhões de euros, que estão a ser pagos pelos bancos que participam no Fundo de Resolução em prestações anuais que se prolongarão por mais 30 anos.

O capital social inicial foi desde logo considerado ‘à pele’ por analistas do setor financeiro, tendo em conta a dimensão e a qualidade de ativos com que ficou. No final de 2015, o Novo Banco seria novamente recapitalizado em 2.000 milhões de euros, com a decisão do Banco de Portugal de transferir obrigações seniores do BES – que inicialmente ficaram no Novo Banco – para o ‘banco mau’ BES. Assim, no total, o Novo Banco foi capitalizado com 6,9 mil milhões de euros.

Qual o posicionamento de mercado do Novo Banco?

O Novo Banco, atualmente liderado por António Ramalho, é dos maiores grupos bancário a operar em Portugal. Enquanto herdeiro de ativos do BES, mantém um enfoque de banca para o setor empresarial.

Em junho de 2017 – últimos dados conhecidos -, o Novo Banco tinha 32,2 mil milhões de euros em crédito a clientes e os depósitos totalizavam 25,4 mil milhões de euros, em ambos os casos abaixo dos valores que tinha em final de 2016 (4,3% e 0,80%, respetivamente).

Desde que foi criado que o Novo Banco tem vindo a passar por processos de reestruturação, tendo já saído mais de 1.500 trabalhadores (através de rescisões por mútuo acordo, reformas antecipadas e despedimento coletivo). No final de junho, últimos dados conhecidos, o Novo Banco tinha 5.321 trabalhadores em Portugal. Já nas operações no estrangeiro tem 385 pessoas.

Quais os resultados do Novo Banco?

Desde a sua criação e até junho de 2017, últimos dados disponíveis, o Novo Banco acumulou prejuízos de 2.527 milhões de euros. Os últimos resultados são do primeiro semestre deste ano, quando teve resultados negativos de 290,3 milhões de euros, uma melhoria face aos 362,6 milhões de euros negativos entre janeiro e junho do ano passado.

Como decorreu o processo de venda do Novo Banco?

A primeira tentativa de venda do Novo Banco arrancou no final de 2014, mas foi cancelada em setembro de 2015, com o Banco de Portugal a considerar que nenhuma proposta apresentada era interessante. Eram então três os interessados, os chineses Anbang e Fosun (que, entretanto, se tornou acionista do BCP) e os norte-americanos da Apollo.

Já no início de 2016 arrancou o segundo processo de venda e a escolha recaiu no Lone Star. A venda do Novo Banco foi um dossiê gerido pelo Banco de Portugal, tendo este contratado o ex-secretário de Estado do governo PSD/CDS-PP Sérgio Monteiro exclusivamente para esse fim, em conjunto com o Ministério das Finanças.

Quem é o Lone Star?

A Lone Star é uma gestora de fundos de ‘private equity’ norte-americana, que lançou o primeiro fundo em 1995 e que investe em diversos setores de atividade (como o imobiliário e a recuperação de crédito, além da própria banca) em diferentes geografias. Em Portugal, a entidade é a dona de quatro centros comerciais Dolce Vita (Porto, Coimbra, Vila Real e Lisboa) e de um empreendimento de Vilamoura (marina e terrenos), que está em processo de venda, segundo a imprensa.

Quais as condições da venda do Novo Banco?

A venda ao Lone Star é referente a 75% do capital social, uma vez que o Fundo de Resolução vai manter os restantes 25%. A venda não implica o pagamento de qualquer preço, tendo o Lone Star acordado injetar 1.000 milhões de euros no Novo Banco para o capitalizar, dos quais 750 milhões entrarão quando o negócio for concretizado e os outros 250 milhões até 2020.

A Lone Star comprometeu-se ainda não retirar dividendos do Novo Banco durante cinco anos, segundo o primeiro-ministro, António Costa. Contudo, o negócio implica um plano de contingência para perdas do Novo Banco, a ser assumido pelo Fundo de Resolução.

Durante oito anos, o Fundo de Resolução fica com a responsabilidade de compensar o Novo Banco por perdas que venham a ser reconhecidas com os chamados ativos ‘tóxicos’ e alienações de operações não estratégicas (caso ponham em causa os rácios de capital da instituição), no máximo de 3,89 mil milhões de euros. O BCP meteu recentemente uma ação na Justiça para clarificar esta garantia, já que é dos maiores contribuintes para o Fundo de Resolução, sendo que – em última análise – o que poderá querer é que seja o Estado ou outra entidade estatal a assumir esta garantia.

Para ter dinheiro para injetar no Novo Banco, caso precise, o Fundo de Resolução deverá voltar a pedir um empréstimo ao Estado ou pode financiar-se no setor bancário. Neste caso deverá contar com garantia de estado, segundo o acordo-quadro que o Governo celebrou com o Fundo de Resolução que garante “a satisfação de eventuais compromissos decorrentes da operação de venda do Novo Banco”.

Já hoje, a propósito da ‘luz verde’ da Comissão Europeia ao plano de reestruturação do Novo Banco, soube-se que o Estado português poderá ser chamado colocar mais dinheiro no Novo Banco, mesmo após a venda ao fundo norte-americano, caso o banco precise de capital e não haja investidores dispostos a recapitalizá-lo.

“Apenas na medida em que surjam necessidades de capital em circunstâncias adversas graves que não possam ser resolvidas pelo Lone Star ou por outros operadores de mercado, Portugal disponibilizará capital adicional limitado”, disse Bruxelas, em comunicado.

Não está, contudo, quantificado até quanto pode ir esta injeção de capital, nem se será o Estado a colocar o dinheiro ou outra entidade, como o Fundo de Resolução, mas é certo que é distinta do mecanismo de contingência que já era conhecido (de até 3,89 mil milhões de euros).

Porque está a demorar a concretização do negócio?

O contrato de promessa de compra e venda foi assinado em março e sete meses depois o negócio ainda não foi concluído.

Desde logo porque foi preciso conseguir as autorizações ao negócio dos reguladores dos países em que o Novo Banco opera e também a ‘luz verde’ do Banco Central Europeu (BCE). Na semana passada foi conhecido que Frankfurt autorizou o Lone Star a comprar o Novo Banco.

Faltava ainda o parecer da Comissão Europeia, que hoje foi conhecido, aprovando o plano de reestruturação que o Lone Star levará a cabo.

Além destas autorizações, o Novo Banco teve de avançar com uma operação de redução do passivo para poupar 500 milhões de euros, o que fez com recompra de dívida própria (com penalização para obrigacionistas).

Mais de 300 emigrantes lesados pelo BES protestam no Novo Banco

Mais de 300 emigrantes, que se queixam de ser lesados pela gestão do resolvido BES, estão hoje a protestar na sede do Novo Banco, em Lisboa, pretendendo ir em seguida para o edifício do Banco de Portugal, na Rua do Ouro.

Cerca de duas dezenas dos emigrantes lesados pelo ex-BES que estão hoje a manifestar-se à porta do Novo Banco, levantaram e empurraram contra a polícia as grades que protegem o edifício.

Após alguns minutos de tensão, o reforço do corpo de intervenção da PSP contrariou a investida e o protesto segue barulhento, mas pacífico.

Helena Batista, vice-presidente da Associação Movimento Emigrantes Lesados Portugueses (AMELP), disse hoje à Lusa os manifestantes estão ali para “mostrar às pessoas que há boa vontade e um compromisso com a administração para – queremos acreditar – encontrar uma solução para todos”.

“Creio que vai chegar a bom porto muito em breve, com estes problemas resolvidos”, salientou.

Aquela responsável informou ainda que os manifestantes vão em seguida protestar junto do edifício do Banco de Portugal na rua do Ouro, em Lisboa, sendo que, entretanto, uma delegação irá ser recebida pela administração do Novo Banco.

Os emigrantes e clientes do ex-BES queixam-se de dois produtos financeiros em que investiram e que ainda não têm solução, tendo investido mais de 140 milhões de euros em “EG Premium” e “Euro Aforro 10”.

A associação que representa os emigrantes lesados do BES revelou terça-feira um entendimento com o Novo Banco e o Governo do PS, que passa pela recuperação de 75% do dinheiro que investiram em produtos Euro Aforro 8, Poupança Plus 1, Poupança Plus 5, Poupança Plus 6, Top Renda 4, Top Renda 5, Top Renda 6 e Top Renda 7.

Contudo, os clientes dos produtos Euro Aforro 10 e EG Premium ainda esperam uma solução que estará ainda a ser trabalhada. As pessoas que aceitarem estas propostas terão de desistir das ações judiciais contra o Novo Banco e seus trabalhadores.

À sede do Novo Banco (ex-BES) chegaram cinco autocarros, com manifestantes, que se juntaram a cerca de uma centena de pessoas que já se encontrava no local, munidos de bandeiras de França e da Suíça, muitos cartazes, apitos, chocalhos e buzinas.

A PSP organizou um grande cordão de segurança em volta do edifício da instituição bancária, com grades reforçadas para prevenir eventual invasão e o trânsito está cortado no troço em que a rua Barata Salgueiro se cruza com a avenida da Liberdade.

Há acordo para lesados dos BES recuperarem investimentos

Foram precisos dois meses e onze reuniões para que o grupo de trabalho criado para analisar o processo dos 2 106 clientes lesados com a falência do BES chegasse a uma solução. O plano encontrado por representantes do Banco de Portugal, CMVM, Governo, BES e da Associação dos Lesados e Indignados do BES prevê a criação de um veículo que irá adiantar parte do dinheiro aos lesados que, em troca, aceitem desistir dos processos judiciais em curso.

Este fundo poderá ser dotado com cerca de 250 milhões de euros, quase metade do valor investido pelos mais de dois mil clientes que compraram ações da Espírito Santo Internacional e da Rioforte, do universo do GES, e deverá ser financiado através de empréstimos concedidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos e de outros fundos provenientes do Fundo de Resolução, neste último caso a ser desembolsado ao longo de cinco a dez anos. Para minimizar o impacto das perdas destes clientes, um primeiro montante que poderá ascender a 100 milhões de euros poderá começar a ser distríibuído antes do prazo dos cinco a dez anos.

Com esta solução, cerca de 85% dos lesados deverão beneficiar destes acordos. Mas, os responsáveis do grupo de trabalho alertam que, quem não tiver ações em tribunal contra entidades do universo GES, pode ficar excluído deste plano. O Ministério das Finanças vai agora analisar o documento e aprovar ou não as medidas fixadas.

“Buraco” no Banco Espírito Santo aumentou para 5.285 milhões em 2015

O Banco Espírito Santo fechou o ano de 2015 com prejuízos de 2.598 milhões de euros, o que fez disparar o capital próprio negativo para 5.287 mil milhões de euros. No final de 2014, a situação líquida do banco era negativa em cerca de 2.600 mil milhões de euros.

A principal razão para o agravamento do buraco contabilístico, a instituição que herdou os ativos problemáticos do BES, foi a decisão do Banco de Portugal de retransmitir as obrigações seniores do Novo Banco para o chamado “banco mau”. Esta operação, decidida no final do ano passado, teve um impacto negativo no balanço do chamado banco mau de 2.283 milhões de euros, incluindo o valor nominal e os juros devidos.

Por outro lado, e à medida que o passivo disparou para 5,446 mil milhões de euros no ano passado, o ativo encolheu de 196,6 milhões de euros para 159,3 milhões de euros.

8,4 milhões em obrigações sénior voltaram ao Novo Banco e já saíram

Em comunicado enviado à Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o BES confirma ainda a providência cautelar emitida a favor de um dos investidores que contestou em tribunal as obrigações seniores que passaram do Novo Banco para o Banco Espírito Santo.

Perante esta providência cautelar, e apesar de a ter contestado, o Banco de Portugal deu instruções para ajustar o balanço das duas instituições, “devolvendo” 8,4 milhões de euros de responsabilidades ao Novo Banco, a partir da data em foi notificada a providência cautelar, 5 de maio.

Entretanto, e de acordo com informação recolhida pelo Observador, o juiz que decretou provisoriamente e preventivamente a devolução destas obrigações ao Novo Banco, já aceitou a contestação apresentada pelo Banco de Portugal, pelo que deixou de haver efeito patrimonial enquanto não foi julgada a providência cautelar propriamente dita que pede a reversão desta operação.

As demonstrações financeiras agora divulgadas revelam ainda que as provisões para fazer face às responsabilidades resultantes de processos judiciais e reclamações subiram para 1.258 milhões de euros, com 1.090 milhões em 2014.

Avaliação do Banco de Portugal ao caso BES aponta falhas na supervisão desde Constâncio

A avaliação que o Banco de Portugal fez à sua atuação no caso BES (Banco Espírito Santo) aponta para falhas na supervisão desde que Vítor Constâncio era governador.

De acordo com o Jornal de Negócios, o documento que o regulador recusou entregar aos deputados, faz críticas à atuação do supervisor e aponta falhas no acompanhamento realizado ao Banco Espírito Santo que remontam até ao início da década passada, apanhando portanto o mandato de Vítor Constâncio, para além de Carlos Costa que assumiu o cargo pela primeira vez em 2010. Durante este período, a supervisão foi tutelada pelo vice-governador, Pedro Duarte Neves que deixou a pasta em 2014 quando foi substituído por António Varela, que se demitiu do cargo há poucas semanas.

Uma das questões apontadas nesta autoavaliação, segundo o Jornal de Negócios, é a existência de informação sobre o Grupo Espírito Santo e as operações em Angola do BES, que não terão sido utilizadas pelo Banco de Portugal no seu trabalho de supervisão ao banco.

O relatório que tem 600 páginas e foi elaborado pela comissão de avaliação às decisões e à atuação do Banco de Portugal na supervisão do BES e que foi nomeada pelo próprio supervisor. Esta comissão trabalhou com o apoio técnico da consultora Boston Consulting Group.

O relatório desta “auditoria” já foi pedido duas vezes pelo Parlamento. A primeira vez foi na sequência da comissão de inquérito ao BES, tendo o Banco de Portugal recorrido a um parecer jurídico interno para justificar a recusa em dar o documento, em nome do dever de segredo e da proteção de terceiros. O relatório voltou a ser pedido no quadro da comissão de inquérito ao Banif, com nova recusa do BdP.

O Banco de Portugal optou por divulgar as recomendações que saíram desta autoavaliação e onde se lê, nas entrelinhas, algumas autocríticas. O regulador assumiu que deveria no futuro ter uma especial preocupação em tomar “decisões de supervisão de forma mais tempestiva e determinada, mesmo que tal implique um maior risco de litigância”.

Carlos Costa recusa sair. Mas perdeu a confiança do governo

Carlos Costa – reconduzido por cinco anos no final do mandato do anterior governo, quando já sabia que a Passos Coelho poderia muito bem suceder António Costa – joga, por um lado, no facto de a lei dificultar tremendamente a sua demissão (“um governador só pode ser demitido das suas funções se deixar de preencher os requisitos necessários ao exercício das mesmas ou se tiver cometido falta grave”, dizem os estatutos do Banco Central Europeu, a entidade comunitária que tutela diretamente o banco central português)

Além do mais, o governador tem inteira cobertura por parte do presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi. Este, aliás, tem sido sempre muito cioso a sublinhar a independência dos bancos centrais nacionais face aos respetivos governos – o que significa que para o Executivo de António Costa abrir formalmente um processo visando o afastamento de Carlos Costa significaria também abrir um conflito com a direção central do BCE.

A questão dos lesados BES foi o pretexto quarta-feira usado pelo primeiro-ministro para um duríssimo ataque ao governador do banco central. “Tenho que lamentar a forma como a administração do BdP tem vindo a arrastar uma decisão sobre esta matéria, a impedir que rapidamente a solução proposta pelo Governo e aceite pela maioria dos lesados do BES pudesse estar já implementada”, criticou, manifestando esperança que “tão rapidamente quanto possível o BdP assuma a postura responsável que todas as entidades públicas e privadas estão disponíveis para assumir”.

Ontem foi a vez de o presidente do PS (e líder do grupo parlamentar) a voltar à carga: “Há uma realidade que os portugueses vivem de alguma falta de confiança, ou pelo menos de uma avaliação frágil, quer dos depositantes, quer dos utilizadores do sistema bancário, em relação ao regulador, o Banco de Portugal”, disse Carlos César, falando de “lentidão excessiva” do BdP no caso dos lesados do BES.

Para hoje está marcada uma reunião entre representantes do Governo, do BdP e da CMVM sobre o problema dos lesados do BES.

A história do desaguisado entre António Costa e o governador tem antecedentes que remetem para a campanha eleitoral. Quando foi contactado pelos lesados, o líder do PS propôs-lhes uma via extrajudicial. As manifestações dos lesados foram suspensas e Diogo Lacerda Machado negociou em nome de Costa. Desenhou-se um mecanismo de conciliação, mediação e arbitragem a que aderiram maioria dos lesados. Depois Costa fez o seu Governo e promoveu contactos com todas as entidades: CMVM, Novo Banco, BES “mau”, BdP. A CMVM aderiu com empenho, dispondo-se até a ajudar nos encargos de lesados sem meios económicos; Novo Banco e o BES também se envolveram.

No BdP – que o DN tentou, em vão, contactar – o registo terá sido sempre diferente (aparentemente porque para o regulador ainda não está resolvido o problema central que é quem pagará aos lesados). Terão sido adiadas respostas e prometidas reuniões depois não concretizadas.

Segundo o DN apurou, há três semanas que o primeiro-ministro insistia pessoalmente com o governador para acabar com impasse. Quando foi interpelado publicamente por lesados, o primeiro-ministro entendeu que tinha de pôr os pontos nos “is”, não podendo continuar a assumir ele próprio uma responsabilidade que achava pertencer ao BdP.

António Costa partiu a loiça mas para o mal-estar com o governador outros factos tinham contribuído. O PM já se sentira enganado quando percebeu que o contrato do BdP com o ex-secretário de Estado dos Transportes Sérgio Monteiro para este ficar com a tarefa especial de vender o Novo Banco só fora assinado já na vigência do atual Governo. Costa também não perdoa a forma como foi obrigado a resolver o caso Banif em 15 dias quando este já se arrastava há três anos e ainda o modo como o BdP lidou com os grandes credores do BES, criando grande agitação nos mercados no momento crítico de negociação do OE 2016 com Bruxelas.

Através de Luís Montenegro, líder da bancada no Parlamento, o PSD saiu em defesa do governador, acusando a cúpula do PS de estar a protagonizar um “ataque vergonhoso e despudorado” ao Banco de Portugal.

Estão de volta “os tempos da asfixia, da claustrofobia democrática”, afirmou o deputado social-democrata, dizendo estar-se perante “uma vergonha” que “configura um desrespeito institucional grave e lamentável”. “É ilegítimo que o PS e António Costa queiram mandar no Banco de Portugal. Isso corresponde a um desequilíbrio institucional que corrói a democracia. É disso que estamos a falar”, disse ainda o parlamentar “laranja”.

Passos Coelho diz haver “factos que têm gravidade”

Pedro Passos Coelho

“Há factos que têm gravidade, não vou disfarçar, e que se estão a passar em Portugal nessa matéria, mas não quero fazer em Bruxelas nenhum comentário sobre isso”, disse Pedro Passos Coelho, à entrada para a reunião do PPE de preparação da cimeira europeia de chefes de Estado e do Governo, que decorre até sexta-feira, em Bruxelas.

Às questões dos jornalistas portugueses, o antigo primeiro-ministro remeteu para mais tarde outros comentários às “questões, que são graves, mas que merecem ser devidamente respondidas em Lisboa”.

“Reconheço que há uma situação que tem gravidade, e que precisa de ser devidamente respondida, mas não aqui”, concluiu.

Esta manhã, também em Bruxelas, o primeiro-ministro, António Costa, escusou-se a comentar se Carlos Costa deve abandonar o cargo de governador do BdP, recordando que a instituição “goza de independência”.

O líder do PSD disse ainda esperar que “o Governo esteja comprometido” a afastar preocupações do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. Passos salientou que o dirigente comunitário também mostrou “satisfação (…) por ver o governo português a manifestar-se comprometido com a correção dessa perceção” negativa sobre o rumo das contas públicas nacionais.

“Acho que o governo deve ser sensível a isso. Ainda hoje ouvi uma declaração, creio que do presidente do Eurogrupo, a dar conta das preocupações que existiam com o processo orçamental, mas com satisfação (…) por ver o governo português a manifestar-se comprometido com a correção dessa perceção. E, eu espero que o governo português estava de facto comprometido com isso.”

Passos Coelho considerou que “os partidos podem ter as suas divergências quanto à melhor forma de proceder”, mas não podem deixar dúvidas no exterior, “sobre a nossa capacidade e a nossa vontade para cumprir os compromissos, que assumimos no passado, para manter a trajetória económica num sentido positivo”, advertindo que “sempre que do ponto de vista externo existirem dúvidas (…) isso prejudica-nos a todos”.

CMVM. Decretado fim das ações do BES

A decisão surge exatamente um ano e meio depois de terem sido suspensos.

A CMVM determinou “a exclusão de negociação em mercado regulamentado das ações e dos instrumentos de dívida perpétua e subordinada do BES”, refere o comunicado do regulador.

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