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A tecnologia a favor da medicina

Ricardo Ribeiro, Investigador, Newcastle University

Para contextualizar o nosso leitor, o que é a biofabricação de tecidos e órgãos humanos? A escassez mundial de dadores para transplante de tecidos ou órgãos ainda é um problema de grandes proporções?

A Biofabricação é uma área científica multidisciplinar, com menos de 20 anos, que integra áreas tão distintas como a Biologia, a Engenharia de Materiais, a Física ou a Medicina. O seu principal objetivo é a manufatura aditiva de materiais biológicos, sejam eles tecidos ou órgãos, ou de estruturas de apoio à regeneração de tecidos. Visualmente, podemos imaginar uma impressora comum, em que a tinta é substituída por uma mistura de células e materiais, as chamadas bio-tintas. Arquiteturas tridimensionais são formadas através da deposição cumulativa destas “tintas”. Mas atenção, com as tecnologias existentes, a produção de órgãos em laboratório ainda não é possível. Para que tal aconteça será necessário desenvolver técnicas e/ou aparelhos que mimetizem as estruturas altamente definidas de órgãos, como os pulmões ou o coração. Por exemplo o controlo simultâneo do destino das diferentes células em culturas 3D ainda se encontra em estudo, sendo fulcral para a correta organização e orientação da multiplicidade de células que constituem um órgão humano. Porém, a ficção científica também tem o seu quê de realidade. Atualmente, com a Biofabricação é possível testar medicamentos em pequenos tecidos ou tumores, obtidos pela impressão das bio-tintas. Muitas multinacionais começam, felizmente, a substituir a experimentação animal, por esta nova e eticamente responsável estratégia.

Quanto à problemática da doação de órgãos, ainda existe uma grande escassez mundial. Começa, no entanto, a haver mais informação acerca desta prática, o que tem permitido aumentar o número de dadores – Entre 2008 e 2015, o número de dadores vivos aumentou cerca de 29%, segundo relatórios da UE.

Contudo, estas pequenas vitórias não têm um impacto significativo na redução das listas de espera uma vez que a compatibilidade e as condições dos órgãos se sobrepõem à consciencialização.

Com a biofabricação de tecidos e órgãos humanos este problema será completamente contornado?

Sem dúvida, é esse um dos grandes interesses desta área, visto que, em teoria, poderemos usar as nossas próprias células para produzir os nossos órgãos. Isto iria erradicar toda e qualquer lista de espera por transplantes, e os órgãos seriam fabricados à medida que fossem necessários. Em jeito de previsão, ao ritmo que a ciência tem avançado, é passível que esta meta seja atingida nos próximos 20 a 40 anos. Porém, apesar de contornada a escassez de dadores, esta “solução” apresenta um variadíssimo conjunto de novos problemas. A nível ético, irá isto transformar-se num negócio? Iremos todos ter acesso a este tipo de cuidados, ou apenas os mais ricos poderão obter a “salvação”? São discussões que começam a ganhar importância e sentido.

Para falarmos de biofabricação de tecidos humanos temos de falar de nanotecnologia?

Não necessariamente, mas a nanotecnologia poderá ser integrada na biofabricação. Determinados materiais/medicamentos “nano” poderão ser adicionados às bio-tintas e assim serem “impressos”.

Cada vez mais teremos a tecnologia a favor da medicina?

Sem dúvida alguma! Afinal é isso que a história nos tem ensinado. Se pensarmos que grande parte das descobertas fundamentais para o avanço da medicina foram realizadas no século passado, verificamos que apenas em 100 anos se clonaram animais, controlaram os genes de um bebé, fabricaram tecidos humanos, e até se iniciou a discussão de transplantes de cabeça em humanos. Creio que o futuro ditará exatamente as mesmas regras e, com a velocidade vertiginosa com que a tecnologia tem sido desenvolvida, imagino que grandes avanços poderão ser testemunhados nos próximos anos.

E quanto ao presente e ao futuro da investigação científica? Que papel assume a mesma na sociedade atual?

É no seio da investigação científica que novas ideias e produtos são concebidos, pelo que a importância manter-se-á elevada com o passar do tempo. Por exemplo, é possível verificar uma escalada no número de start-ups, cuja génese são os estudos desenvolvidos no decorrer dos percursos académicos dos seus fundadores. Estas acabam por beneficiar a sociedade não só através da oferta de novos serviços e tecnologias, bem como pela criação de novos empregos qualificados. Porém, mais apoios serão necessários para que Portugal consiga rivalizar com países estrangeiros. A nossa mão-de-obra é altamente qualificada, mas a falta de fundos e a precariedade vivida por grande parte da comunidade científica constituem, sem dúvida, uma grande barreira no desenvolvimento da investigação a nível estatal.

Cientista de Coimbra recebe bolsa Marie Curie para estudo inovador do autismo

A investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da UC Catarina Seabra “acaba de obter uma bolsa individual Marie Sklodowska-Curie” (da Comissão Europeia), que irá “aplicar no desenvolvimento de ‘mini-cérebros’ tridimensionais (3D) de origem humana que permitam estudar o autismo de forma inovadora”, anunciou hoje a UC.

O estudo vai ser desenvolvido ao longo dos próximos dois anos, no âmbito do projeto ‘ProTeAN’ (Produção e Teste de neurónios e organoides cerebrais humanos: modelos avançados para o estudo de doenças do neurodesenvolvimento), liderado pelo investigador João Peça, do Grupo de Circuitos Neuronais e de Comportamento do CNC, adianta a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.

“Estes ‘mini-cérebros’ ou, em linguagem científica, organoides cerebrais, terão uma dimensão de quatro milímetros e vão ser produzidos a partir de células estaminais dentárias (presentes em dentes de leite e do siso) provenientes de pacientes com autismo”, acrescenta.

Com estes ‘mini-cérebros’ (assim designados por mimetizarem o processo de maturação cerebral) “vai ser possível explorar de forma inovadora as características do cérebro de pessoas com autismo, prestando especial atenção às mudanças morfológicas e à comunicação entre neurónios, e compará-las com a organização do cérebro de pessoas saudáveis”, explicam Catarina Seabra e João Peça.

Esta abordagem, sublinham os investigadores, citados pela UC, “tem a vantagem de obtenção de células através de um processo minimamente invasivo (através da recolha de dentes de leite ou do siso) e proporcionará uma plataforma biomédica e biotecnológica com potencial clínico para medicina personalizada”.

Isto é, “vai ser possível testar alvos terapêuticos ajustados às especificidades de cada doente”, salientam.

A utilização destes organoides cerebrais em laboratório permite, por outro lado, substituir os ensaios convencionais, como, por exemplo, testes em ratinhos.

“As perturbações do espetro do autismo são condições crónicas que afetam uma em cada 68 crianças e produzem grandes custos para a sociedade”, afirma a UC, sublinhando que “para entender melhor estes distúrbios, o acesso ao tecido neuronal dos pacientes é crítico”.

O projeto conta com a colaboração dos especialistas Guiomar Oliveira, da Unidade de Neurodesenvolvimento e Autismo do Hospital Pediátrico de Coimbra, João Miguel dos Santos, da Faculdade de Medicina da UC, e Guoping Feng, do McGovern Institute for Brain Research do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Boston.

As bolsas individuais das Ações Marie Sklodowska-Curie, inspiradas no nome da cientista franco-polaca galardoada com dois prémios Nobel e reputada pelo seu trabalho no domínio da radioatividade, são atribuídas pela Comissão Europeia no âmbito do Programa Horizonte 2020.

LUSA

Nova abordagem médica no tratamento da dor pós-cesariana

Uma investigação pioneira desenvolvida durante dois anos por uma equipa de especialistas da Universidade de Coimbra (UC) aponta novas perspectivas para a “abordagem médica personalizada no tratamento da dor pós-cesariana”, anunciou hoje a instituição.

Um estudo piloto realizado em “amostras de ADN de 55 parturientes adultas caucasianas portuguesas submetidas a cesariana programada, seguidas na maternidade do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), mostrou uma associação positiva entre as variantes genéticas da enzima CYP2D6 e a dor”, afirma a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.

Realizado ao longo de dois anos, o estudo revela que “as variantes genéticas que resultam na ausência ou redução da função enzimática da CYP2D6 estão associadas a mais dor”, sublinha Manuela Grazina, docente da Faculdade de Medicina da UC e coordenadora da equipa multidisciplinar de cientistas e médicos envolvidos na investigação.

“Este efeito está possivelmente relacionado com uma diminuição da síntese da dopamina pela actividade da enzima CYP2D6 no cérebro”, admite a cientista.

Trata-se de “um estudo pioneiro que traz novas perspectivas sobre a abordagem médica personalizada no tratamento da dor pós-cesariana”, destaca Manuela Grazina, citada pela UC.

A enzima CYP2D6, além de metabolizar um elevado número de fármacos no fígado, “apresenta actividade no cérebro e, em condições fisiológicas normais, constitui uma via alternativa para síntese de cerca de 12% de dopamina, um neurotransmissor essencial para o bem-estar, incluindo na resposta analgésica do organismo à dor”, explicita.

“A presença de variantes genéticas que se traduzem em actividade enzimática reduzida ou nula levará a menor produção cerebral de dopamina e, portanto, uma pontuação de dor mais elevada”, acrescenta a docente da Faculdade de Medicina de Coimbra que também é responsável pelo Laboratório de Bioquímica Genética do Centro de Neurociências e Biologia Celular.

Considerando que “a dor pós-parto aguda afecta um número considerável de mulheres” e 10% a 15% “desenvolvem dor persistente crónica após a cesariana, um estudo que permita um tratamento médico personalizado, de acordo com as características genéticas individuais, irá trazer grandes benefícios, permitindo ajustar as doses de analgésico para um tratamento mais eficaz”, adianta Manuela Grazina.

Os resultados da investigação, publicados na revista científica Pain Medicine, são, por isso, um contributo importante para “uma melhor compreensão de como a variabilidade genética da CYP2D6 afecta o resultado da dor”, salienta a investigadora.

“A análise genética do gene CYP2D6 constitui uma ferramenta promissora, rápida, acessível e credível, com uma contribuição muito significativa para a estimativa das necessidades analgésicas no tratamento da dor pós-cesariana”, conclui Manuela Grazina.

A dor é considerada um processo dinâmico e complexo que envolve acções em múltiplos locais, incluindo o genoma das células do sistema nervoso central.

De acordo com a International Association for the Study of Pain, “dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada com danos reais ou potenciais em tecidos, ou assim percepcionada como dano” e “continua a ser uma das grandes preocupações da Humanidade”, refere a UC.

 LUSA

Investigadoras criam farinha e temperos com resíduos da azeitona e tomate

O objetivo “é criar alimentos mais diversificados, com reforço de fibra e proteção antioxidante”, com subprodutos representativos de culturas vegetais com impacto em Portugal, indicaram as responsáveis pelo projeto Veggyflours.

Este projeto, que está a ser desenvolvido há quatro meses, surgiu a partir da vontade de Manuela Pintado, Tânia Ribeiro, Marta Coelho e Joana Costa, da Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da UCP, em responderem às diferentes necessidades do consumidor, promovendo a sua saúde e qualidade de vida.

Segundo explicaram à Lusa, estes produtos que estão a criar serão ricos em compostos bioativos, como a fibra e os carotenoides, que, em estudos realizados ao longo dos anos, têm demonstrado evidências na melhoria do trânsito intestinal, na recuperação desportiva, na regulação dos níveis de colesterol ou da função cardíaca.

Além da riqueza em fibras e elevada capacidade antioxidante, os produtos que a equipa está a desenvolver são isentos de glúten e têm uma maior capacidade de conservação, o que se irá refletir nos alimentos nos quais forem incorporados.

“Por fim, o concentrado de fibra antioxidante insere-se na nova tendência alimentar ‘Going full circle’ — Completando o ciclo, onde os consumidores valorizam, entre vários conceitos, questões como diminuição de desperdícios alimentares e a reutilizar subprodutos”, contaram as investigadoras.

De acordo com as investigadoras, um dos principais problemas enfrentados pela indústria alimentar é a acumulação e gestão dos seus subprodutos.

“Apesar do seu elevado valor nutricional, atualmente as aplicações dos subprodutos são limitadas e não criam valor acrescentado para a indústria, gerando, pelo contrário, custos elevados na gestão de resíduos, e, em alguns casos, com impacto ambiental”, indicaram.

Devido a isso, consideram que é “imperativa” a procura e criação de novas alternativas, que tragam valor acrescentado aos subprodutos.

“Disponibilizar os nossos produtos no mercado seria uma concretização pessoal, não só pela dedicação ao projeto, mas por acreditarmos que são uma forma sustentável de contribuir para a alimentação de uma população mundial crescente, que enfrentará, nos próximos anos, limitações de matérias-primas para a produção de alimentos”, referiram.

Apesar de as investigadoras já trabalharem com subprodutos há alguns anos, o projeto Veggyflours é mais recente, tendo surgido há cerca de quatro meses.

Futuramente esperam expandir a aplicação desta solução a outros subprodutos vegetais.

Com este projeto participaram no programa BIOTECH_agrifood INNOVATION, programa de pré-aceleração criado pela ESB-UCP, com o apoio da associação Portugal Foods e da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE).

Este programa tem como objetivo selecionar ideias inovadoras para o setor agroalimentar e apoiar a sua transformação em projetos de negócio.

LUSA

Vírus Zika eficaz contra células cancerígenas no cérebro de adultos

Os investigadores chegaram a essa conclusão, publicada numa revista científica norte-americana, depois de terem injetado o vírus em células que continham “glioblastoma”, o tumor do sistema nervoso central mais comum e maligno, dado que apenas 24 horas depois, o Zika já tinha eliminado metade das células cancerígenas.

Esse processo foi repetido nas horas seguintes sem que as células saudáveis fossem afetadas pela ação do vírus.

A experiência ocorreu sob a premissa de que o vírus Zika é consideravelmente destrutivo em células cerebrais em recém-nascidos, mas não em adultos.

“As células do bebé têm uma alta taxa de proliferação. Parecida com as do cancro, que nada mais é do que uma doença que prolifera de forma descontrolada. E as células saudáveis, não. Então ele protegeria as células normais do adulto, mas eliminaria apenas as células do cancro, tornando um tratamento mais específico do que uma quimioterapia”, explicou a investigadora Estela de Oliveira Lima, citada pelo portal de notícias brasileiro G1.

Além disso, os investigadores notaram que quando ocorreu o contacto entre o Zika e a célula cancerígena aumentou significativamente a quantidade de “digoxina”, uma substância responsável pela morte dos tumores e que é utilizada já na medicina no tratamento de algumas doenças cardíacas.

“A descoberta da substância e o mecanismo com que ela também atua no glioblastoma, nesse tipo de cancro, é inédito no mundo”, afirmou o médico Rodrigo Ramos Catarino, ao G1.

Após as descobertas em laboratório, o próximo passo será realizar testes com animais e, por fim, em humanos, o que poderá levar, a confirmarem-se os resultados da investigação, a um novo tratamento contra o referido tumor e mesmo ao desenvolvimento de uma vacina.

O Zika, tal como a dengue, a chikungunya e a febre amarela, é transmitido pelo Aedes aegypti, um mosquito cuja população se multiplica com a chegada do verão.

O Brasil foi um dos países mais afetados pelo Zika em 2016, que declarou estado de emergência antes de a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) alertar para a gravidade da doença.

Em 2016, foram registados 216.207 casos prováveis de febre pelo vírus Zika no Brasil e foram confirmadas laboratorialmente oito mortes.

LUSA

Novo tratamento para Sida com uma única cápsula por semana

Investigadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e do “Brigham and Women’s Hospital”, duas instituições norte-americanas, desenvolveram um novo tratamento para a Sida que prevê a ingestão de uma única cápsula por semana.

O novo fármaco, segundo os investigadores, pode resolver um dos grandes problemas relacionados com o tratamento do HIV que é a não adesão à medicação ou falta de rigor nas tomas dos “cocktails” de fármacos.

O avanço, afirmam no estudo publicado hoje na revista Nature Communications, pode tornar muito mais fácil aos pacientes aderirem a um plano rigoroso de dosagem, necessário para combater o vírus. A droga, explicam, é libertada no estômago gradualmente ao longo de uma semana e pode também ser usada por pessoas em risco de exposição ao vírus, para ajudar a evitar a infecção.

“Uma das principais barreiras no tratamento e prevenção do HIV é a adesão (ao tratamento). A capacidade de fazer doses menos frequentes melhora a adesão e tem um impacto significativo ao nível do doente”, disse Giovanni Traverso, do Brigham and Women’s Hospital, principal autor do estudo com Robert Langer, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT na sigla original).

O projecto tem o apoio de uma empresa, que está a desenvolver a tecnologia e que está a preparar um ensaio clínico. Robert Langer disse que o sistema pode ajudar pacientes com Sida mas também com outras doenças.

A cápsula consiste numa estrutura em forma de estrela com seis braços que podem ser carregados com os medicamentos e que se abrem do estômago, fazendo com que ali permaneça vários dias.

Os investigadores criaram uma estrutura constituída por um polímero forte no centro, com cada um dos seis braços com polímeros de carga diferente, que libertam os medicamentos em diferentes taxas.

“De certa forma é como colocar uma caixa de medicamentos numa cápsula, com compartimentos para cada dia da semana numa única cápsula”, disse Giovanni Traverso.

Testes em porcos mostraram que as cápsulas conseguiram alojar-se no estômago com sucesso e libertar três diferentes tipos de drogas contra o HIV durante uma semana, desintegrando-se depois em componentes mais pequenos, que passam pelo aparelho digestivo, segundo os investigadores.

As equipas estão a trabalhar na adaptação da tecnologia a outras doenças e em cápsulas que possam permanecer no corpo por períodos de tempo muito mais longos.

Embora a taxa de mortalidade por HIV tenha baixado significativamente desde que foram introduzidos os antirretrovirais, na década de 90 do século passado, em 2015 houve 2,1 milhões de novas infecções e 1,2 milhões de mortes relacionadas com a doença.

LUSA

Descobertas moléculas que podem ajudar a retardar doença de Parkinson

Este projeto, desenvolvido pelo grupo de Bioquímica Computacional da FCUP, tem como objetivo criar medicamentos que potenciem o efeito do fármaco Levadopa, impedindo que este seja degradado pelo organismo antes de chegar ao cérebro, que é o seu alvo, ajudando assim a retardar a progressão da doença, indicou à Lusa o investigador Pedro Fernandes.

Para descobrir estas moléculas, a equipa – que na última década se tem dedicado à descoberta de novos fármacos para doenças específicas – recorreu ao uso de supercomputadores, que vasculham bases de dados com milhões de substâncias, num período de seis meses, com um custo “muito mais baixo” do que se a tarefa fosse efetuada num laboratório tradicional.

Segundo Pedro Fernandes, a maioria dos fármacos são pequenas moléculas, ingeridas oralmente num comprimido, cujo efeito é provocado ao ligarem-se a outras moléculas existentes no organismo, designadas “recetores”, que originam doenças quando estão desregulados.

No grupo dos recetores, continuou, encontram-se as enzimas, que são responsáveis por acelerar as reações químicas no organismo.

No caso da doença de Parkinson, a equipa descobriu as moléculas que podem inibir uma enzima que acelera a degradação do fármaco Levadopa.

Uma vez descobertas, explicou o investigador, as moléculas foram compradas e estão atualmente a ser testadas em laboratório, numa colaboração com a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, para confirmar se as previsões computacionais encontraram realmente a “molécula mágica”.

Pedro Fernandes adiantou que, caso se verifique que as moléculas detetadas são mesmo as “perfeitas” para ajudar no tratamento do Parkinson, estas podem ser a base para o desenvolvido de um medicamento.

No entanto, esse é um “caminho longo”, sendo necessário realizar testes em células animais e humanas, antes de o medicamento ser aprovado para comercialização.

O grupo de Bioquímica Computacional da FCUP tem-se dedicado igualmente à descoberta de fármacos para a diabetes, a SIDA, o excesso de colesterol, o cancro e a hipertensão.

Para além de Pedro Fernandes, faz ainda parte da equipa a investigadora Maria João Ramos, sendo ambos do centro de investigação UCIBIO@REQUIMTE, do Departamento de Química e Bioquímica da FCUP.

Os projetos desenvolvidos pelo grupo, iniciados em 2008, são financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e pelo Programa Operacional Regional do Norte (Norte 2020).

LUSA

Universidade de Évora desenvolve ‘kit’ que deteta microrganismos no património

O ‘kit’ foi criado pelo Laboratório HERCULES, um dos centros de investigação da academia alentejana, no âmbito do projeto MICROTECH-ART, que visa o “desenvolvimento de uma ferramenta analítica rápida para deteção de microrganismos que proliferam no património cultural”.

Segundo a Universidade de Évora (UÉ), a ferramenta, considerada “inovadora”, está a ser desenvolvida por uma equipa de investigação liderada pela espanhola Marina González, investigadora de pós-doutoramento no HERCULES e bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

“Em apenas duas horas e meia e sem necessidade de intervenção de especialistas, o ‘kit’ de deteção vai possibilitar a identificação de vários tipos de microrganismos em superfícies do património edificado e obras de arte”, explicou a UÉ.

Marina González explicou à agência Lusa que o protótipo da ferramenta já se encontra criado, mas ainda está “na última fase de desenvolvimento”, para que “possa ser patenteado” ou para que seja “protegida a propriedade intelectual”.

“Ainda temos um ano de trabalho, porque o projeto financiado pela FCT está ativo até final de 2018. Temos de desenvolver o protótipo e testá-lo corretamente para oferecer ao usuário fiabilidade e sensibilidade” adequadas, disse.

Após o registo da propriedade intelectual, o passo seguinte será contactar empresas, nomeadamente na área da conservação e restauro, que “possam estar interessadas na comercialização” deste instrumento e em “continuarem com este projeto”, frisou.

E como é que esta ferramenta faz com que as bactérias, algas, fungos e outros microrganismos que deterioram monumentos e obras de arte “saltem à vista”, como referiu a UÉ, de conservadores e restauradores?

Marina González explicou à Lusa que o ‘kit’ funciona através de fluorescência, com uma tecnologia que já existia, denominada FISH (Hibridação Fluorescente In Situ), mas à qual a equipa da UÉ adicionou “inovações” que permitem aplicar o processo no património cultural “de forma rápida, simples e económica”.

“A tecnologia existia, até tinha sido aplicada no património, mas era demorada” e “os investigadores desistiam” devido aos “problemas que encontravam. O que nós estamos a fazer é ultrapassar estes problemas e conseguir desenvolver uma ferramenta mais rápida e simples”, disse.

Os microrganismos, que “degradam e têm efeitos muito danificadores no património”, não conseguem ser detetados “a olho nu”, mas, com o ‘kit’ e a aplicação de reagentes em amostras recolhidas de forma não invasiva, é possível detetar “a fluorescência (luz) que emitem”.

“Mais ou menos em duas ou três horas”, consegue-se “um sinal fluorescente, no caso de ter os microrganismos que estamos à procura, nomeadamente fungos filamentosos, bactérias ou leveduras”, indicou.

Consoante a cor dessa luz, assim é identificada a comunidade microbiana, podendo, depois, os conservadores e restauradores decidirem qual a metodologia ou estratégia a adotar “para inibir” a sua proliferação no património.

“O que se pretende é que, cada vez que um conservador ou restaurador pretenda fazer um restauro ou conservar uma determinada peça, antes de aplicar qualquer tipo de estratégia para inibir o crescimento destes microrganismos que degradam a obra, tem de perceber quais aqueles que estão presentes”, sublinhou.

A nova ferramenta, continuou, contribui para “facilitar o seu trabalho”, por um lado, “facilitando o investimento”, e, por outro, evitando o envio das amostras para um laboratório especializado: “Qualquer pessoa, um conservador ou restaurador, conseguiria aplicar” a ferramenta, mesmo “sem perceber nada de biotecnologia”.

LUSA

Bragança: Alunos procuram soluções para problemas reais das empresas

O responsável, Luís Pais, explicou à Lusa que o projeto assenta num modelo de inovação finlandês em expansão dentro e fora da Europa e que o politécnico de Bragança será a primeira instituição portuguesa a adotar a denominada Plataforma Demola, em representação do Norte de Portugal.

O lançamento da “Plataforma Demola North Portugal” será oficializado hoje numa cerimónia em que serão assinados os contratos com as cincos empresas para os quais os alunos, em articulação com professores e investigadores, vão estudar soluções para os problemas apresentados.

Equipas de cinco alunos de diferentes áreas do saber e níveis de ensino, desde os cursos profissionais aos mestrados, vão ao longo de três meses estudar as questões colocadas por cada uma das cinco entidades.

Luís Pais concretizou que se trata de soluções pedidas pela Câmara de Bragança para ajudar turistas que visitam a cidade, por uma empresa de segurança para apoio a idosos, por uma padaria que procura estratégias de venda no estrangeiro mantendo a frescura dos produtos e uma empresa de contabilidade que quer retirar papel dos procedimentos.

Os alunos vão ainda trabalhar em soluções para a medicação de idosos pedidas por uma empresa, a OldCare, que nasceu no gabinete de empreendedorismo do IPB e tem atualmente filiais no país.

Este modelo de cooperação tem como propósito “resolver problemas de empresas, dando aos alunos total liberdade para propor soluções”.

Segundo Luís Pais “há três atores neste projeto: a empresa, o facilitador, papel desempenhado por um professor, e os alunos.

As equipas que vão trabalhar em cada pedido das empresas são compostas por cinco alunos de diferentes áreas e nacionalidades. Entre o total de 25 alunos envolvidos no arranque, 12 são portugueses e 13 estrangeiros.

Cada equipa, como explicou o responsável, “oferece uma solução para a empresa, que pode comprar a ideia, se encontrar utilização prática”, não tendo as empresas outros custos.

O valor da venda “é para pagar aos alunos”.

“É um projeto inovador que pretende resolver problemas reais das empresas, ao mesmo tempo que os alunos aprendem e ganham competências complementares à formação”, indicou Luís Pais.

O responsável encara este projeto como “uma oportunidade para todos: para os estudantes que ganham competências conhecendo o mercado de trabalho” com a possibilidade de conseguirem emprego na própria empresa onde desenvolvem o projeto.

É também, continuou, “uma oportunidade para as empresas de pequena dimensão que não têm disponível capacidade de investigação e inovação para problemas reais e criação de novos produtos e serviços”.

O politécnico encontra aqui também a oportunidade de, “sendo uma universidade de ciências aplicadas, desenvolver investigação e trabalhar em estreita colaboração com as empresas”, como sublinhou Luís Pais.

“Ser mulher é uma vantagem”

É doutorada em Ciências da Engenharia, fez pesquisa a nível internacional que foi diversas vezes publicada e motivo de impacto. Esteve sempre envolvida em grandes projetos um pouco pelo mundo todo. Hoje, qual é o seu foco?

Hoje em dia são dois: i) a investigação na área biomédica, procurando alternativas às terapêuticas convencionais para o tratamento de várias doenças desde cancro às feridas crónicas e ii) a Associação Nacional de Investigadores em Ciência e Tecnologia (ANICT), que tem como objetivos: apoiar e representar os Investigadores Científicos que trabalham em Portugal; agir como parceiro no diálogo entre os Investigadores e o Governo, assim como outras instituições que participam na definição da política de Ciência em Portugal. Nos últimos anos à frente da ANICT visamos promover a excelência na investigação, a autonomia e liberdade, em todas as áreas e contribuir para a disseminação do conhecimento científico para o público em geral. 

O que a motivou a escolher a investigação como percurso profissional? 

A curiosidade! Acho que nunca deixei a idade dos porquês. Sempre senti a necessidade de saber mais. Trabalho todos os dias para deixar uma marca positiva na sociedade contribuindo para um mundo melhor. A investigação torna-se parte de nós.

É Presidente da ANICT – Associação Nacional de Investigadores em Ciência e Tecnologia, cujo um dos objetivos é “apoiar e representar os Investigadores Científicos que trabalham em Portugal”. Como surgiu este projeto na sua vida? 

Sou investigadora de pós-doutoramento desde 2005 e logo me deparei com as dificuldades de uma carreira de investigação em Portugal. Decidi aproveitar a experiência adquirida em diferentes laboratórios europeus e japoneses e contribuir para o desenvolvimento do sistema científico em Portugal. Comecei por fazer parte de grupos de trabalho da ANICT a convite do antigo Presidente Nuno Cerca. A partir daí fui-me envolvendo cada vez mais na ANICT. Como investigadores é importante não só realizarmos o nosso trabalho laboratorial, mas também contribuirmos para o desenvolvimento de carreira de investigação baseada no mérito.

Quais são os maiores desafios que os investigadores em Portugal enfrentam? 

Os investigadores em Portugal enfrentam vários desafios, desde o financiamento, à necessidade de uma carreira de investigador, estabilidade, políticas científicas a médio e longo prazo. Neste momento estamos atravessar um período particularmente importante na dignificação da carreira de investigador. A ANICT desde a sua génese que tem trabalhado e contribuído para a profissionalização da carreira de investigação. Sempre defendemos que, após o doutoramento, todos os investigadores devem ter um contrato de trabalho. Anos a fio as instituições abusaram na figura de bolseiro (normalmente atribuída a um estudante). Finalmente, este ano foi promulgada a Lei 57/2017, a qual reconhece que é essencial que os investigadores tenham um contrato de trabalho, limitando assim a figura altamente precária de bolseiro. Há ainda um longo caminho a percorrer, mas garantidamente não iremos deixar de trabalhar em prol da ciência e para que os cientistas sejam reconhecidos como trabalhadores de pleno direito.

Alguma vez se sentiu discriminada pelo facto de ser mulher? De que forma lidou com o assunto?

Não. Acredito que ser mulher é uma vantagem, temos a capacidade de gerir várias situações ao mesmo tempo, desde a vida profissional, às exigências de uma da vida familiar preenchida. 

Qual é o seu sonho enquanto investigadora? 

O sonho de qualquer investigador é ver os resultados da sua investigação aplicados no dia-a-dia. No meu caso é saber que contribui para o bem-estar de um paciente, que de alguma forma contribuí para o aumento da sua qualidade de vida. Como presidente da ANICT é contribuir para a erradicação da precariedade dos investigadores e a profissionalização da carreira de investigador.

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