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“Temos de saber aproveitar as oportunidades existentes no universo da aeronáutica”

De que forma é que o projeto da Escola de Aeronáutica tem evoluído no sentido de se tornar um baluarte ao nível formativo e académico no âmbito da aviação e da aeronáutica?

A Escola de Aeronáutica, formalmente, foi criada neste verão, baseada na experiência acumulada de mais de dez anos no ISEC Lisboa: criamos as primeiras licenciaturas e o primeiro mestrado dedicado à aviação civil em Portugal entre 2005 e 2011. Começámos pela licenciatura em Ciências Aeronáuticas, que aporta duas grandes áreas de saída: piloto de linha aérea e operações de voo, e a área de manutenção de aeronaves.

Dois anos depois, em 2007, lançámos uma licenciatura totalmente orientada para a gestão da aviação civil, para cargos de gestão intermédia em empresas e entidades reguladoras do setor, cobrindo as principais áreas dos aeroportos às companhias aéreas. Em 2011, criámos o mestrado em Operações de Transporte Aéreo, tendo igualmente realizado várias pós-graduações executivas em parceria, designadamente com a ANA Aeroportos e com a Associação de Pilotos Portugueses de Linha Aérea. Na sequência desta experiência, nasceu esta nova escola do ISEC, numa altura em que de facto a necessidade à escala global de novos profissionais para este setor, aeronáutica e aviação civil, é gigantesca.

o crescimento do transporte aéreo, que é liderado pela Ásia, vai implicar, daqui a 15/20 anos, que o tráfego aéreo na Europa duplique. Portanto, face às encomendas de novas aeronaves, à ampliação e construção de aeroportos um pouco por todo o mundo, é necessário apostar na contratação de novos profissionais devidamente qualificados. Neste momento, as organizações de formação não têm mãos a medir. Portanto, os cursos do ISEC são uma aposta muito forte e necessária, e isso espelha-se no índice da empregabilidade que vemos transversalmente na área da aeronáutica, tipicamente acima dos 90 a 95%, também em Portugal.

Esses níveis de empregabilidade elevados incluem a Escola de Aeronáutica do ISEC Lisboa?

Sem dúvida, inclui a nossa instituição. As duas licenciaturas que temos no ISEC têm um índice de empregabilidade acima dos 93% e isso é fantástico.

Sente que ao nível de recursos humanos e pessoas formadas e capacitadas para a indústria da aeronáutica Portugal ainda está atrasado comparativamente a outros congéneres europeus e mundiais?

Já não está propriamente assim tão atrasado. Cada vez se vêm mais exemplos e boas práticas de trabalho em redes internacionais e em ambiente de cluster, que em Portugal tem uma tradição muito forte, designadamente na área da engenharia aeronáutica, e isso é importante.

Mas falta dar o passo para o sucesso completo…?

Falta fazer o passo para a aviação civil, em contexto operacional. Não necessariamente ligada à engenharia, mas à aplicação dos conhecimentos e das soluções tecnológicas que são propostas. Temos excelentes exemplos, porventura ainda mal conhecidos no país, de empresas que, por exemplo, trabalham diretamente para fabricantes de aeronaves como a EMBRAER ou a AIRBUS. Isso já se vê no país e esse esforço tem de ser feito em ligação com as instituições de ensino superior, onde é produzido o conhecimento, com os Centros Tecnológicos e os Laboratórios de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico, e esse sinal é cada vez mais claro. Portanto, na indústria da aeronáutica, Portugal está no bom caminho.

De que forma é que a Escola de Aeronáutica perpetua nos alunos um nível de conhecimentos elevados e de excelência que levem o mercado a optar pelos vossos alunos aquando do primeiro emprego?

A aviação civil, enquanto área do conhecimento, não tinha tradição em Portugal, como aliás não tinha em toda a Europa e se quiser um pouco por todo o mundo. Por exemplo, o primeiro doutoramento em Gestão da Aviação surgiu nos EUA há sete ou oito anos. É muito recente. E nessa lógica, a aposta que o ISEC fez foi de garantir que os alunos tivessem um contacto directo em sala de aula com profissionais da indústria. Isso significa que, não tendo as instituições essa tradição académica, é necessário trazer as pessoas da indústria para dentro da sala de aula e essa é uma das mais-valias que o ISEC consegue e conseguiu desde o início, e por isso é que todos os cursos do ISEC de aviação são em horário pós-laboral, porque temos um fortíssimo contributo de quem está na indústria, nas companhias aéreas, nos aeroportos, nas engenharias, na manutenção às aeronaves, na gestão do tráfego aéreo, entre outros. Isso permite que os alunos saiam daqui com conhecimento teórico valioso, mas também com a compreensão do que é a realidade das empresas neste setor. E este aspeto é crucial.

Este setor ainda é muito alavancado apenas por players privados, ou seja, sendo um setor de enorme potencial, acredita que faltam apoios estatais neste sentido?

Eu diria que sim até porque, se quiser e do ponto de vista político, considero que ao longo de várias décadas o transporte aéreo tem basicamente sido ignorado. Quando se fala de política de transportes, há tendência para se discutir apenas os sistemas rodoviário e ferroviário. Temos de ser claros: hoje é tempo do transporte aéreo ser um elemento central das políticas do país.

Mas este ano já tivemos uma boa notícia para o setor, o reconhecimento formal pelo Estado português da figura do cluster aeronáutico português… É Importante?

É uma excelente notícia. Obviamente que está assente sobretudo nas engenharias, mas não deixa de ser muitíssimo relevante. Está dado o passo para, progressivamente, colocar o transporte aéreo no centro da política de transportes do país, até porque somos um pequeno país inserido numa economia global que depende fortemente deste tipo de transporte. E, portanto, havendo muito caminho a percorrer, é tempo também das entidades públicas adoptarem o transporte aéreo como uma área prioritária para o país.

Sente-se que a indústria aeronáutica vive neste momento uma espécie de era dourada. Será mesmo uma fase muito positiva ou apenas uma moda, sabendo que as modas inevitavelmente mudam ou terminam?

Essa noção de moda é um pouco verdadeira, especialmente no caso português. Fala-se muito da indústria aeronáutica exatamente por grandes projetos em Portugal, e isso leva a uma certa noção de que está na moda falar de aviões, das escolas de pilotos, etc… Tudo isso é verdade. Sendo certo que, se olharmos para o transporte aéreo ao longo das décadas, este tem sido resistente a todas as crises existentes nos últimos anos, seja do petróleo, seja o 11 de Setembro, seja do colapso económico em 2008. A verdade é que o transporte aéreo, à escala global, tem resistido sistematicamente a todas as dificuldades e, portanto, não faz sentido falar de moda. O transporte aéreo esteve sempre a crescer nas últimas décadas, assegurando a mobilidade de pessoas e bens à escala global.

Tem sido muito comum ouvirmos notícias de problemas que envolvem as companhias aéreas e o respetivo corpo de recursos humanos. O último exemplo é o da Ryanair, onde muitos voos foram cancelados com prejuízos para a companhia e clientes. Os recursos humanos da área da aeronáutica ainda são o «parente pobre» desta indústria?

Depende dos setores e dos modelos de negócio, bem como das posturas das empresas. Neste ponto de vista não é diferente das outras áreas. O transporte aéreo é muito competitivo, exigente e caro, porque é muito regulamentado e ainda bem, porque é fundamental que se garanta a segurança de voo. Mas de vez em quando há excessos e este exemplo da Ryanair é paradigmático, e de facto aquela ideia romântica de outros tempos que temos do piloto e do tripulante de cabine hoje quase não existe. Mas isso também acontece com outras profissões. Em parte, é verdade o que questiona, mas não devemos generalizar, porque há excelentes exemplos de gestão de recursos humanos de forma transversal no transporte aéreo, e que são absolutamente inatacáveis.

Mas este cenário de convulsão preocupa-o? Na relação que têm com os empregadores deste setor, existe essa preocupação em aconselhar ou fazer perceber que os recursos humanos são essenciais no sucesso e competitividade das empresas?

Claramente. Temos essa preocupação, e é uma mensagem que não desisto de comunicar. Uma coisa é empregar profissionais. Outra coisa é garantir que se empregam verdadeiros talentos e que a indústria é capaz de os reter. Porque historicamente há muitos exemplos onde de facto a indústria de transporte aéreo geriu mal as carreiras e os talentos. Não é que o faça intrinsecamente mal, mas não o fez de maneira tão eficaz como o fazem noutras áreas do conhecimento. Se perguntarmos a um jovem em idade escolar quais as profissões aeronáuticas que conhece, vai responder duas: hospedeira e piloto. Provavelmente desconhece outras profissões (as que existem por exemplo num aeroporto). Outras indústrias são muito mais apelativas porque comunicam no registo certo com esses mesmos jovens. A indústria de transporte aéreo começa agora a compreender que tem de mudar o discurso e dar mais atenção à promoção e divulgação das carreiras (atuais e futuras) em aviação, sob pena de falharem por completo a captação e retenção de talentos. Com a evolução tecnológica que se espera, e que é imparável, teremos um quadro de carreiras totalmente diferente das que conhecemos hoje. As empresas têm de perceber que a sua força é a qualidade das suas pessoas. Portanto, temos o cuidado de trabalhar estreitamente com as empresas que assumem esta postura.

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