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Erdogan diz que decisão de Trump lança Médio Oriente para “círculo de fogo”

“Fazer isso é lançar a região para um círculo de fogo”, afirmou Erdogan, aos jornalistas, a partir do aeroporto de Ancara.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu na quarta-feira Jerusalém como capital de Israel, tornando-se no único país do mundo a tomar essa decisão que representa uma rutura com décadas de neutralidade da diplomacia norte-americana no âmbito do dossiê israelo-palestiniano.

“Trump, o que é que tu queres fazer? Os líderes políticos não estão lá para agitar as coisas, mas antes para as pacificar. Agora, com estas declarações, Trump cumpre as funções de uma batedeira”, disse Erdogan, aos jornalistas, no aeroporto da capital, perante uma multidão que exibia cartazes com mensagens como “Abaixo Israel” ou “Não te rendas, a nação apoia-te”.

“Os Estados não respeitam de todo as decisões da ONU. Até agora, além dos Estados Unidos e Israel, nenhum país violou a decisão da ONU de 1980”, afirmou o Presidente turco em referência à resolução das Nações Unidas que define Jerusalém como cidade ocupada e apela para que não sejam ali instaladas embaixadas até que o conflito seja resolvido.

“É impossível entender o que é que Trump pretende conseguir ao trazer novamente este assunto para a ordem do dia”, observou Erdogan, sublinhando que Jerusalém é uma cidade santa para judeus, cristãos e muçulmanos.

O Presidente turco recordou a convocatória de uma cimeira extraordinária de líderes da Organização para a Cooperação Islâmica, a ter lugar na quarta-feira na cidade de Istambul, para abordar a questão, indicando que se planeiam também “atividades depois” dessa reunião.

“Estou a chamar vários dirigentes, e não apenas de países islâmicos. Pedi para falar com o papa [e] iremos conversar esta noite ou amanhã, porque [Jerusalém] também é um templo para os cristãos. Falarei com [o Presidente russo, Vladimir] Putin, com a Alemanha, Inglaterra, França, Espanha”, salientou Erdogan.

“Se Trump pensa que é forte e, por isso, tem a razão, engana-se. Os fortes não têm razão, os que têm razão é que são os fortes”, concluiu o Presidente turco antes de partir para uma visita oficial à Grécia, a primeira de um chefe de Estado turco em 65 anos.

LUSA

Família palestiniana expulsa da casa onde morava há 50 anos por polícia israelita

Para os apoiantes dos Shamasneh, não há qualquer dúvida de que se trata de mais um exemplo da judaização deste bairro da parte palestiniana de Jerusalém ocupada e anexada por Israel.

Após a expulsão, alguns homens judeus entraram na casa sob a proteção de polícias, constatou a agência France-Press (AFP).

O caso dos Shamasneh atraiu a atenção das organizações não-governamentais contra a colonização e dos diplomatas atentos à situação em Jerusalém Oriental, uma das questões mais difíceis do conflito israelo-palestiniano.

Na pequena casa de algumas dezenas de metros quadrados viviam Fahmiyeh Shamasneh, 75 anos, o seu marido doente de 84 anos, o seu filho e a família deste, que dizem não ter para onde ir.

“Há maior injustiça do que esta?”, lamentou-se Fahmiyeh Shamasneh, adiantando: “Vamos talvez dormir na rua”.

Os Shamasneh foram expulsos por decisão da justiça israelita e a casa fica para os herdeiros dos judeus a quem a habitação pertencia antes de 1948, quando foi criado o Estado de Israel e que fugiram quando os jordanos se apoderaram de Jerusalém Oriental durante a primeira guerra israelo-árabe.

A família palestiniana mudou-se para a casa em 1964.

Em 1967, Israel conquista Jerusalém Oriental e os Shamasneh e os inquilinos palestinianos na mesma situação ficam sob a autoridade de um organismo israelita.

Segundo a organização israelita Paz Agora, desde 2009 que aquele organismo, juntamente com os herdeiros dos antigos proprietários e um advogado conhecido pela sua ligação às organizações de colonos, tenta expulsar os inquilinos palestinianos.

Algumas centenas em 1967, os judeus são agora cerca de 195.000 numa população de 450.000 pessoas em Jerusalém Oriental.

Israel considera a totalidade de Jerusalém como a sua capital indivisível, embora a comunidade internacional não reconheça a sua anexação e considere a colonização dos territórios ocupados ilegal, além de um obstáculo à paz.

Os palestinianos querem fazer de Jerusalém Oriental a capital do Estado ao qual aspiram.

Entrou em vigor na Síria a trégua em que quase ninguém acredita

Um cessar-fogo cujo texto não é conhecido, que não abrange todas as facções rebeldes, que permite excepções e que não implica consequências para quem o desrespeite entrou em vigor ao pôr-do-sol desta segunda-feira na Síria. Foi resultado de um acordo negociado entre os EUA e a Rússia.

A 18ª iniciativa de paz para a Síria é encarada com muito cepticismo por todos, de americanos a sírios; ao mesmo tempo, uma suspensão das hostilidades é desesperadamente necessária numa guerra na qual morreram já mais de 400 mil pessoas.

Horas antes da entrada em vigor do cessar-fogo, mais de 30 camiões de ajuda humanitária sob supervisão das Nações Unidas preparavam-se, na fronteira com a Turquia, para se dirigir a cidades cercadas pelo regime de Bashar al-Assad, em especial Alepo, a grande cidade do Norte do país entretanto destruída por bombardeamentos, barris de explosivos lançados de avião, e armas químicas – a situação é tão desesperada que a dada altura, crianças na cidade queimaram pneus para que os aviões do regime não tivessem visibilidade para atacar a cidade.

Por isso, a reacção dos habitantes da parte oriental de Alepo, que ainda resiste ao regime, era de cautela. “Não se pode ficar contente quando se vive em terror”, disse um habitante da cidade ao The Guardian. “Há bombas a cair dia e noite”, dizia outro morador, Abu Abdullah, à emissora britânica BBC. “Os civis já não têm esperança.”

Os grupos rebeldes criticaram o acordo, mas deram a entender que o iriam respeitar. Este começa com uma promessa de trégua de 48 horas prolongável por mais uma semana, após a qual Estados Unidos e Rússia começarão a planear ataques conjuntos contra dois grupos radicais: o autodenominado Estado Islâmico e a antiga Frente al-Nusra, entretando redenominada Fatah al-Sham, que combate junto de outros grupos rebeldes moderados.

Os rebeldes anti-Assad temem, assim, vir a ser alvo de ataques destinados aos radicais da antiga al-Nusra , que se desligou da rede da Al-Qaeda.

Antes da entrada em vigor do cessar-fogo, e como aconteceu já noutras tréguas na Síria, a intensidade dos ataques aumentou: o regime bombardeou um mercado em Idlib e voltou a lançar bombas sobre Alepo. Mais de 90 pessoas morreram durante o fim-de-semana.

Comentando o acordo, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, sublinhou que o compromisso da Força Aérea de Assad não sobrevoar as zonas onde está a oposição era o ponto nuclear do cessar-fogo. Segundo a estação de televisão norte-americana CNN, Kerry destacou a aviação síria como “o principal causador de vítimas civis” na guerra, que já dura há cinco anos.

Mas ninguém duvida que este cessar-fogo favorece Assad, que para os Estados Unidos é alguém que não só atacou o seu povo com armas químicas, como permitiu a radicalização dos seus opositores, enquanto para a Rússia, é a grande esperança de estabilidade, segundo descreveu David Miliband, o antigo ministro britânico dos Negócios Estrangeiros que é agora director executivo da organização humanitária International Rescue Committee, ao diário The Guardian.

Embora antecipe que esta é a melhor altura para uma trégua destacando um aparente “maior empenho russo”, Miliband diz que a médio prazo nada resolve esta divisão fundamental.

“Esta é a melhor opção de todas as más opções”, comentou por seu lado Fawaz Gerges, da London School of Economics, em declarações à CNN. “Para onde se vai a partir daqui? A realidade é que o equilíbrio de poder favorece Assad.”

“Dois milhões presos em Gaza são a bancarrota moral do mundo”

Na noite em que nos reencontrámos em Ramallah, onze anos depois da última entrevista para o PÚBLICO, Amira Hass tinha acabado de mandar para o Haaretz, diário israelita onde trabalha, uma investigação sobre como o exército israelita está a tornar deficientes muitos jovens palestinianos, que atiram pedras, ao disparar balas de verdade para as pernas. A história ia ser o destaque de primeira página no dia seguinte, Amira estava contente, achava “corajoso” da parte da direcção. Há 22 anos que o trabalho dela é contar aos israelitas a realidade dos Territórios Palestinianos Ocupados, primeiro em Gaza, onde morou três anos, e desde então na Cisjordânia. Dependendo dos editores, das épocas, nem sempre foi fácil, apesar do Haaretz ser considerado um jornal de esquerda, hoje uma raridade em Israel. Começámos pela nova geração na Palestina (ver reportagem na edição de domingo).

Como viu o levantamento de jovens há um ano, que chegou a ser chamado de Intifada?
Chamo-lhe levantamento privado. E mesmo em relação ao termo levantamento, sou cautelosa. Certamente não Intifada, porque isso implica um movimento popular, toda a gente mobilizada, o que não aconteceu. Mas havia uma sensação de revolta. Foi uma revolta privada.

No sentido de individual?
Porque eles decidiram sozinhos, sem nenhuma organização. E a sociedade teve muitas oportunidades de se juntar, de fazer grandes manifestações, e não o fez, decidiu contra um levantamento, claramente. Só houve manifestações alargadas pela devolução dos corpos [de jovens palestinianos, atacantes ou suspeitos de quererem fazer ataques, que foram mortos pela polícia].

Mas sendo uma revolta privada, aqueles miúdos representam sentimentos de muitos, de que as pessoas já não aguentam mais isto. Não foram apenas razões políticas, mas também pessoais, psicológicas. E muita gente podia empatizar com esse sentimento, de que a vida já não merece ser vivida. Uma ideia muito perigosa, mas essa era a mensagem. E havia ódio, claro, porque as pessoas têm todas as razões para odiar. Não me surpreende que o tenham feito, surpreende-me que mais não o tenham feito. A sociedade reagiu de forma um pouco esquizofrénica. Por um lado, honrou-os como heróis, por estarem a fazer a revolta que mais ninguém fazia, por outro duvidavam que tivessem esfaqueado ou o quisessem fazer.

Há várias diferenças entre os casos. Viu padrões?
O desejo de imolação teve um grande papel. Mas vejo esse desejo desde a Segunda Intifada [2000]. Portanto, não sei se é uma coisa da geração do Facebook.

Um seguir o outro.
Sim, imitar. A imitação era perturbante. Via-se isso. Li os interrogatórios de alguns miúdos presos por terem com eles uma faca, e alguns diziam que tinham visto aquilo no Facebook: vamos comprar uma faca, vamos esfaquear um judeu. Depois, o único judeu que reconheciam era um religioso, ficavam com medo porque havia soldados, desistiam, portavam-se de forma suspeita, porque os israelitas já suspeitavam de toda a gente, e eram apanhados. Na forma como explicam isso não há uma compreensão política. Mas há muitos sentimentos, e isso também é político, porque ele são os ocupados. Ao mesmo tempo, desempenham um papel na peça. O que lhes agrada, porque essa é a peça à volta deles. E os pais nem têm ideia do que se passa.

Alguns tinham 13, 14, 15 anos.
Até 12 anos. Houve um de 12 anos que saiu com uma faca, cooptado por outro. No caso dos muito jovens, em geral, há um mais velho que os leva. E o mais velho, em geral, tem problemas em casa. Depois há os que querem resolver os problemas, serem heróis. Acham que serão melhor aceites, ou querem punir os pais. Há muito isso, mas como a sociedade é muito renitente a criticá-los, não têm forma de saber que o que estão a fazer é sem sentido, que não é heroísmo, especialmente os que vão matar civis. Esse é um padrão. O ódio é compreensível, consigo entendê-lo. Mas são arrastados por um mais velho.

Onde colocaria um caso como Baha Alyan [22 anos, protagonista da reportagem na edição de domingo]?
É o caso dos mais velhos, zangados devidos a casos anteriores, pelo que aconteceu a outros miúdos. E esses também também estavam a vingar alguém. É uma cadeia, em que o desejo de imolação tem um papel. Um imita o outro, mas como tem mais recursos, fá-lo de uma forma chocante: Baha e o amigo mataram dois idosos e um homem de meia-idade num autocarro. Mas foi num colonato. E quando olhamos para Jabal Mukaber [o bairro de Baha] e para Armon Hanatziv [o colonato em cima do bairro] realmente podemos sentir toda a arrogância da ocupação em meio quilómetro quadrado.

Baha foi uma excepção?
Em relação a quem está num campo de refugiados e não tem um futuro, sim. Ele tinha um futuro. Mas houve mais como ele. Um rapaz que tinha estudado Medicina, por exemplo. Eles são enterrados com os seus segredos, e no fim de tudo não sabemos.

Qual foi o clique…
Sim, o que realmente pensaram. Depois, há alguns influenciados por Hamas ou Jihad Islâmica. Há uma influência dos media islâmicos, e também dosmedia ligados à Fatah, menos oficial.

E há as mulheres, que, em grande maioria, tinham fugido de casa. Não é novo: até há dois anos, elas sabiam que iam a um checkpoint, mostravam uma faca e seriam presas, e desejavam isso, porque tinham problemas em casa, incesto, violência. A diferença desde o ano passado é que agora os soldados as matam. Mesmo que elas não os tenham atacado.

Um suicídio.
Um suicídio. Acho que esta vaga começou quando mataram uma jovem de 18 anos que tinha uma faca, foi a um checkpoint em Hebron, creio que para ser presa, porquê, não sei. E foi morta de forma terrível. Varreram-na com balas. Isto encheu as pessoas com tal raiva que fermentou a vaga. Um brasileiro tirou fotografias, o que  tornou o caso conhecido.

É uma forma de suicídio através de um soldado. Numa sociedade que não aceita o suicídio, é mais digno ser assim.

São principalmente de zonas rurais?
Não. Muitas são de Hebron.

Chamo a estes jovens a geração perdida de Oslo [cidade dos acordos de paz de 1993, assinados entre Arafat e Rabin]. Sem futuro, sem se poderem ancorar no heroísmo dos pais, nem na memória de convívio com os israelitas . Quem tenha 40, 50 anos tem alguma memória de convivência entre seres humanos. Agora, tudo o que eles vêm são colonos e soldados. Não há promessa nenhuma, e as promessas anteriores não foram cumpridas. Tudo isto inchou como um balão e explodiu.

Vê também uma tendência de despolitização, no sentido de “eu quero viver a minha vida, ser feliz”?
É outra tendência. De certa forma, um fenómeno de classe. Quem mata são sobretudo os pobres. Não sempre, mas a maioria. Muitos de campos de refugiados, de aldeias pobres. Nesse sentido, Baha é de facto uma excepção.

Embora não fosse rico.
Não, mas tinha um futuro. E é preciso perguntar, porque uma pessoa como ele está a fazer isto? O que isto diz sobre este regime? De alguma forma foi o que ele escreveu nos seus mandamentos de um mártir no Facebook, um ano antes, quando disse que não queria que os políticos o aproveitassem. É uma geração sem qualquer confiança em líderes, do Hamas, da Fatah.

E porque é que a sociedade decidiu que não se ia envolver massivamente?
Porque sabia que não ia conseguir nada. Não queria sacrificar-se. Na Segunda Intifada, [os bombistas suicidas] eram enviados por grupos. A grande maioria também não se juntou à luta armada, mas aceitou ser punido colectivamente. E agora ainda aderiram menos. As manifestações foram sobretudo nas universidades, e em algumas aldeias.

O colectivo não é estúpido, sabe quando é o momento. E intuiu que não ia conseguir nada, que seria em vão. Porque não há uma liderança, não há aliados, também não há aliados entre a maioria dos israelitas, Israel é muito cruel. E as pessoas perderam o hábito de luta popular: é preciso prática, uma rede de ligações, a sociedade está fragmentada. Mal a Segunda Intifada começou, circularam pela Cisjordânia, apesar dos checkpoints. Isso não aconteceu agora. Em Fevereiro, quando houve uma greve de professores, milhares contornaram os checkpoints da Autoridade Palestiniana [AP], que não queria essas manifestações. Portanto se tivessem querido protestar contra a ocupação tinham conseguido. O argumento de que não se manifestam porque a AP os reprime, não faz sentido. Quando há uma massa, a AP não consegue reprimir.

Chegando a Ramallah ao fim de anos, é impressionante a quantidade de construção, carros, trânsito. Há dinheiro a circular.
Sim, muitos empréstimos.

As pessoas têm empréstimos, carros, casas. Isso também contribui para que não haja mobilização? As vidas estarem mais estabelecidas?
Sim. Mas também tinham casas na Primeira Intifada, estavam em relativa boa situação. Talvez de forma menos “luxuosa”, mas quem se envolveu tinha coisas a perder. Acho que as pessoas se disporiam a perder o que têm agora se sentissem que conseguiriam algo. Não é tanto o medo de perder, mas perder em nome de alguma coisa. Quanto pode ser sacificado quando as lideranças são estas.

E como é que esta liderança de Mahmoud Abbas ainda está no poder, se não acha um palestiniano que o apoie? Quem o apoia?
O mundo. O mundo quer ver uma solução dois Estados. Não faz nada por isso, mas quer manter a pessoa que a representa, então dá-lhe dinheiro, e ele controla todo o dinheiro. E é assim que controla a Fatah. Acho que uma parte da Fatah ainda espera um milagre, que o mundo intervenha. Mas não é isso que está a acontecer.


JAAFAR ASHTIYEH/AFP

Por que não aparece uma nova geração de líderes?
Não há um mecanismo que o permita. A educação política é muito má. Os novos que foram presos protestam por causa do dinheiro que deviam estar a receber. Os velhos prisioneiros ficam supreendidos, dizem: na Primeira Intifada, dávamos dinheiro à organização, não esperávamos dinheiro dela. Isto foi um resultado de Oslo, toda a gente ter um salário, um posto, o que criou uma atitude diferente em relação ao que é lutar pela liberdade. Tornou-se algo convertível em dinheiro. A AP, o Hamas em Gaza, recrutam pobres para as organizações militares, que são uma forma de criar clientela, quem não tem dinheiro ganha um salário assim. Portanto, cria-se lealdade a um regime mas não a uma ideia.

Das universidades não veio nada de novo?
A BDS [sigla de Boycott, Divestment, Sanctions, movimento palestiniano e internacional contra a ocupação israelita] é um facto novo, mas não é um movimento grande, a maior parte do que fazem é no estrangeiro, não aqui. Têm seguidores nas universidades palestinianas, mas não sei até que ponto continuam envolvidos depois de saírem.

Quem viaje pela Cisjordânia agora vê tudo cheio de colonatos. Assistiu à transformação deste território. Parece-lhe possível uma solução dois Estados?
Podemos dizer que não é uma boa solução, mas não porque os colonatos cresceram. Não desisto da exigência de os desmantelar. Todo o israelita que se muda para um colonato deve saber que é um criminoso, que todos os que lá vivem são criminosos, e que tornam as suas crianças criminosas. É contra a lei internacional. As pessoas não concebem a ideia de desmantelar os colonatos para a paz, mas concebem que os palestinianos sejam privados dos seus direitos básicos? Isto é racista. Ou seja, não devemos desistir da exigência de que os colonatos sejam desmantelados. É difícil mas possível. E se o mundo se levantasse, e nos punisse por continuarmos a construir colonatos, acho que a maioria dos israelitas ia concordar: ok, separamo-nos da Cisjordânia.

Israel tinha 19 anos quando ocupou a Cisjordânia, passaram 50 anos. Ainda assim, a proporção é de menos de 10 por cento de israelitas lá. Pensamos, são 600 mil colonos [sem contar Jerusalém Leste]: é muito. Mas é menos de 10 por cento. E as pessoas são tentadas a ir para lá a todo o momento, recebem tantos subsídios. Se tivessem compensações, muitos sairiam.

Se os colonatos fossem removidos, a solução dois Estados seria a melhor?
Nada na história é final. Algumas pessoas acham que a solução dois Estados é sionista…

E é, no sentido em que preserva um Estado para os judeus.
Mas se é sionista, por que Israel fez tudo para a impossibilitar? Creio que se tivéssemos uma soluçao dois Estados, tal como pensámos nos anos 70, isso permitiria uma democratização nas duas sociedades. Até hoje, uma grande maioria de palestinianos também não quer viver com judeus no mesmo país.

Portanto, esta sociedade estaria mais confortável com uma solução dois Estados?
Sim. Se voltarmos às fronteiras de 1967, sim.

E os refugiados [que estão no Líbano, Síria e Jordância desde 1948]?
É uma grande questão, claro. Por isso digo que nada é final.

Os palestinianos não são uma minoria, talvez possam de facto voltar às suas casas, mas à custa de quanto sangue? Queremos isso? Neste momento, qualquer solução é tão longe quanto outra.

Não tem uma ideal?
Prefiro falar de princípios. Pode haver várias. Quando me perguntam se sou por dois Estados ou um, digo, sou socialista. Se é para sonhar, sonho com a União dos Estados Socialistas do Médio Oriente.

Por que é que continua a viver aqui?
Começou como uma decisão jornalística que fazia sentido, quando mudei para Gaza. Também tinha a ver com a minha curiosidade, de viver sob ocupação. Agora vejo isso de forma mais ampla, analisando o meu percurso. Digo, meio a brincar, meio a sério, que sou uma típica judia que acredita na diáspora, e encontrei a minha diáspora aqui. Em certo sentido, saí de Israel. Aqui vivo com menos contradições. Viver com palestinianos faz-me estar mais ligada ao lugar. Nunca me senti muito ligada; nasci em Israel, mas por acidente. Os meus pais vieram como refugiados, não como sionistas. E eu podia ter nascido noutro lugar qualquer se eles tivessem sido mais espertos. Mas é a minha língua, é o meu lugar, fiquei ligada às cores, à luz, e às pessoas, claro.

O que também descobri, é que é doloroso ir a Israel e ver tão vividamente aNaqba [para os palestinianos, O Desastre, o que perderam na criação de Israel]. É doloroso para mim. As pessoas podem sonhar com o retorno, é o direito delas, claro. Não vejo isso acontecer no nosso tempo de vida, e não penso que haja uma forma fácil de o fazer. Mas penso que ao lutar contra a brutalidade israelita aqui na Cisjordânia, abrimos as portas a diferentes atitudes. Acho que Israel ficou mais brutal com os colonatos, nos últimos vinte anos. Manter os colonatos implicou ficar muito mais brutal.

Sente uma diferença no mainstream internacional em relação a Israel? O boicote, e todas as outras campanhas, fazem alguma diferença lá dentro?
Ainda não. Trouxe algum mal estar, é desconfortável. Mas acho que é muito importante para os palestinianos, a sensação de que têm um instrumento. Não sinto que que tenha feito tremer a economia israelita ou a autopercepção israelita. Acho que Israel é menos detestado no mundo do que as pessoas tendem a pensar. É a minha impressão. Mas o ponto não é o ódio, é parar com esta impunidade. E temos de continuar a luta. É muito mais difícil do que a luta contra o apartheid na África do Sul. Não temos um mundo bipolar, os que parecem ser aliados da Palestina são os maus, porque são muçulmanos, etc. Na África do Sul havia o bloco soviético e Cuba. Claro, sabemos o que era a URSS, uma grande prisão para as pessoas, mas apresentava-se como emancipadora, a ideologia que as pessoas atribuíam à URSS era progressista. E isso não é algo que possamos atribuir à maioria dos regimes árabes, que agora nem sequer estão com os palestinianos. Então, a luta dos palestinianos contra o apartheid israelita é muito mais difícil.

O Estado Islâmico [ISIS na sigla em inglês] tornou tudo pior?
As pessoas têm medo. Há palestinianos que têm medo de uma aproximação ao ISIS.

Vê algum sinal disso?
Há alguns sentimentos, que vêm do desespero, do ódio, da frustração.

Aqui na Cisjordânia?
Sim. Acontece. Sei por amigos palestinianos. E preocupo-me com isso. E em Gaza também.

O que sabe sobre o que se passa em Gaza?
Demasiado pouco. Sei que a repressão isrealita está a apertar. Os habitantes de Gaza estão dentro de uma prisão desde antes de Oslo, não têm liberdade de movimento, e isso tem consequências, claro. E agora estão internamente presos pelo endurecimento do Hamas, da repressão do Hamas. Mas sei muito pouco, porque as pessoas não falam ao telefone. Há muitos detalhes que precisamos de ter, como jornalista, preciso de saber detalhes. Mas sei que é terrível. Só a ideia de que quase dois milhões de pessoas estão dentro de um enorme campo de concentração. E nem estou a falar da catástrofe ambiental. Não é amanhã, é agora. Quando há um risco permanente de inundações de esgoto, quando 95 da água é imbebível, isto é uma catástrofe. E as pessoas não poderem sair, não consigo sequer conceber. Fecha todos os horizontes, todas as esperanças, todas as capacidades do ser humano. E ainda assim há muita criatividade em Gaza.

Acho que Gaza é um dos maiores falhanços e traições internacionais, ter-se permitido que Israel mantivesse Gaza como uma grande prisão durante tantos anos, e sob o disfarce do processo de paz. Porque isto começou antes de o Hamas chegar ao poder. Acho que é a bancarrota moral do mundo, mais do que qualquer outra coisa. Porque é algo que se pode solucionar politicamente. Posso perceber que a certa altura seja muito difícil parar uma guerra como a da Síria. Mas isto? Deixar dois milhões de pessoas numa prisão durante tanto tempo? E quando quem está a fazer isto é aliado, alguém que podemos influenciar? É realmente a bancarrota do Ocidente.

Guerra de palavras incendeia tensão entre Teerão e Riad a dias da hajj

A guerra de palavras entre a Arábia Saudita e o Irão atingiu um novo patamar em vésperas do início da hajj, a grande peregrinação a Meca, na qual os iranianos não vão participar este ano, pela primeira vez em quase três décadas. Responsabilizando-a pela morte de centenas de peregrinos em 2015, o ayatollah Ali Khamenei defendeu que a monarquia saudita – “a descendência maldita e maléfica” – deveria perder a custódia dos lugares santos do islão, ao que o grande mufti da Arábia Saudita respondeu dizendo que os líderes iranianos de “não são muçulmanos”.

O conflito em torno da hajj – um dos cinco pilares do islão, que todos os muçulmanos deveriam realizar pelo menos uma vez na vida – é apenas uma das faces (embora a mais sensível) da disputa entre a grande nação xiita e a mais influente das monarquias sunitas, que assenta precisamente o seu predomínio por ser a guardiã dos locais onde o profeta Maomé ergueu as bases da fé muçulmana. Na luta pelo domínio do Médio Oriente, os dois países ocupam campos opostos em quase todos as guerras que se travam na região, sobretudo na Síria (onde Teerão é um dos aliados vitais do Presidente Assad) e no Iémen (onde Riad interveio para travar a rebelião xiita de tomar o poder), agravando a centenária tensão entre as duas maiores seitas do islão.

A peregrinação deste ano, tornou-se ainda mais tensa perante o corte das relações diplomáticas entre os dois países, na sequência da invasão da embaixada saudita em Teerão durante um protesto, em Janeiro, contra a morte de um líder religioso xiita saudita. As tentativas para superar o bloqueio e permitir a ida dos peregrinos iranianos a Meca colapsaram em Maio, com o governo iraniano a acusar Riad de não oferecer as garantias necessárias para a realização em segurança das viagens, e as autoridades sauditas a acusarem Teerão de estar a tentar politizar a hajj.

Mas nem mesmo estes desentendimentos faziam adivinhar a dureza das palavras que as duas capitais trocam entre si a dias do início da peregrinação, no próximo domingo, dia 11, num preocupante sinal de que a tensão política se infiltrou no sensível domínio da religião, ameaçando desenterrar velhas quezílias. “Temos de compreender que eles não são muçulmanos. Os seus principais inimigos são os seguidores da Sunnah [os sunitas]”, disse nesta quarta-feira ao jornal Makkah o xeque Abdel Aziz ben al-Cheikh, grande mufti saudita, numa resposta às declarações do Supremo Líder do Irão.

Na véspera, o aytollah Khamenei tinha defendido que se deveria “reflectir seriamente sobre a gestão dos locais santos” de Meca a Medina. “Caso contrário, o mundo muçulmano será confrontado com problemas ainda maiores”, afirmou, numa referência à morte por esmagamento de centenas de pessoas nas cerimónias de 2015 – oficialmente Riad reconhece 700 mortos, mas a contagem por país aponta para mais de duas mil vítimas, dos quais 450 iranianos.

As palavras do líder religioso saudita provocaram uma imediata reacção do chefe da diplomacia iraniana. “Com efeito, não há qualquer semelhança entre o islão dos iranianos e da maioria dos muçulmanos com o extremismo fanático que o líder wahhabita [corrente radical do sunismo seguida por Riad] e os mestres do terrorismo saudita pregam”, escreveu no Twitter Mohammad Javad Zarif. Pouco depois, o ayatollah Ali Khamenei, que tem a última palavra tanto sobre os assuntos religiosos como políticos do Irão, foi ainda mais longe no seu ataque a Riad, ao afirmar que “a catástrofe de 2015 mostra uma vez mais que esta descendência maldita e maléfica não merece gerir os lugares santos do Islão”.

Mas o Líder Supremo, que discursava perante familiares de peregrinos mortos no ano passado, não se ficou apenas pela questão religiosa, acusando a monarquia saudita “está a derramar o sangue dos muçulmanos no Iémen, na Síria, no Iraque e no Bahrein” com a “cumplicidade” dos EUA.

Também o Presidente Hassan Rohani, principal promotor do acordo nuclear com Washington, saiu ao ataque, desafiando os “países da região e do mundo muçulmano a unirem-se para punir o governo saudita” pelos “crimes que cometem na região e pelo seu apoio ao terrorismo”. Um apelo que terá pouco eco fora dos países na esfera de influência de Teerão – reagindo à guerra de palavras, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG, que agrega os países sunitas da região) afirmou que as afirmações dos dirigentes iranianos “incluem acusações e alegações completamente incompatíveis com os valores e os preceitos do islão”.

“Estes ataques verbais mostram que a tensão [na região] atingiu o seu apogeu”, disse à AFP Jane Kinninmont, especialista em Médio Oriente dothink-tank londrino Chatham House. “Trata-se de uma verdadeira guerra fria à qual o mundo não está a prestar a atenção que devia”.

Esta portuguesa está a mudar as “abayas” do Médio Oriente

Estilo árabe cool e moderno. Assim se apresentam as peças da Boho Abaya, uma marca de roupa criada pela portuguesa Sara Marques, atualmente a viver em Omã, “um país maravilhoso do Médio Oriente”, como ela o descreve.

Habituada aos calções curtos, aos tops sem questões quanto ao decote e às cores e padrões alegres, Sara teve de adaptar o guarda-roupa a uma nova realidade: a das mulheres que cobrem o corpo com longasabayas – um género de túnica comprida que completa a indumentária árabe feminina. Foi então que em abril deste ano, “inspiradas pela atmosfera e motivadas pela necessidade”, Sara e uma amiga madrilena, também ela amante de roupas curtas e decotadas, identificaram uma oportunidade: “Decidimos criar uma marca de roupa na qual pudéssemos reunir o estilo mais cool da Europa — o boho — com a clássica tradição árabe — a abaya.”

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Sara Marques usa as próprias roupas que cria. © Michael Matias / Observador

E assim nasce a Boho Abaya, pela necessidade de oferecer às mulheres do Médio Oriente vestuário prático, com respeito à tradição local, cruzando-o com padrões de estilo étnico e sofisticado, e alguns detalhes como franjas ou alças a cruzar nas costas.

Os costumes locais exigem alguma contenção, pelo que as minissaias, os calções curtos e os grandes decotes, além de não serem bem aceites, tornam-se até desconfortáveis. Não obstante tal facto, a verdade é que as mulheres locais são, além de lindíssimas, bastantes elegantes e sensuais, o que prova que, ainda que tapadas, podemos sempre mostrar o nosso próprio charme”, explica Sara ao Observador, durante uma passagem por Portugal.

Com muita dedicação envolvida na escolha dos tecidos — “perdemos bastante tempo na procura e depois tentamos usar o tecido da forma que melhor se ajuste ao nosso conceito” — a marca tem feito sucesso em Omã, e desde abril já foram vendidas 200 peças.

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As criadores da marca investem bastante tempo na procura dos tecidos. © Michael Matias / Observador

No Médio Oriente somos constantemente paradas na rua por pessoas que querem saber como comprar as nossas peças, já tivemos, inclusivamente, uma encomenda de uma noiva”, conta a designer.

E se o público-alvo eram de facto as mulheres árabes ou as expatriadas residentes no Médio Oriente, rapidamente se percebeu que o sucesso poderia ir além-fronteiras, quando algumas portuguesas decidiram fazer encomendas. “Em Portugal já vendemos 25 e temos vários pedidos de mais abayas para produzimos já no regresso de férias”, diz Sara.

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O estilo da Boho Abaya está também a cativar as mulheres portuguesas que agora começam a fazer encomendas. © Michael Matias / Observador

As Boho Abayas custam entre 45€ e 150€ e brevemente serão fabricadas e comercializadas em Portugal. Para já, as encomendas podem ser feitas na página de Facebook da marca, mas nada como espreitar mais modelos e pormenores na galeria de imagens inicial.

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