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“É preciso ousadia de mostrar ao mundo que em Angola há angolanos que fazem bem”

A DEFENDIDEIAS surge em 2009 em Luanda, Angola, como empresa de design. Estamos a falar de quase dez anos de existência. Para si são dez anos de…?

De completos desafios, em que todos os dias te “reinventas” para conseguir ultrapassar as situações anómalas que surgem… São dez anos de realização total porque o dia-a-dia vai muito para além do aspeto meramente profissional… acabas por ser a chefe, a mãe, a amiga…

A DEFENDIDEIAS é mais do que uma empresa, é um projeto de vida. Pode falar-nos um pouco mais sobre como surge este desafio?

Sim, é o projeto da minha vida que mais não é que a continuidade do projeto de vida dos meus pais, numa outra dimensão e em ‘parâmetros’ diferentes. Prometi ao meu pai que voltaria à terra que ele amou como sua, honraria o trabalho deles com o meu trabalho conferindo-lhe a mesma dignidade e respeito pelos outros, a mesma garra e o mesmo amor!

Pretende elevar o nome de Angola e promover a valorização da identidade angolana. Trata-se mesmo de uma missão? Sente que tem sido bem-sucedida nesse propósito?

Sim, é uma missão, sinto-o quase como a missão da minha vida… Sabe? Durante muitos anos senti-me ser inferiorizada por ser angolana, como se a terra onde nasci fosse “menor”, fiz-me mulher num sítio onde havia pessoas que me faziam sentir isso todos os dias…

É preciso ousadia de mostrar ao mundo que em Angola há angolanos dignos, sérios, capazes de bem-fazer…

Acho que tenho conseguido esse propósito através das nossas peças que ”gritam” a alma angolana, que provam ao mundo que os angolanos têm muito mais para dar, que vai para além da imagem que uma pequena elite criou.

Um dos projetos mais recentes e marcantes diz respeito aos Mussulus. Pode dar-nos a conhecer os Mussulus?

Os MUSSULUS, são fruto de todos os sonhos que fui tendo do colorido da minha terra enquanto geri, por um lado, as saudades e, por outro, a angústia de ver os meus pais “definharem” pela distância da terra que tanto amaram…

Os MUSSULUS são os chinelos orgulhosamente angolanos, pintados com a cor da nossa alma e da nossa esperança.

No auge deste projeto deu-se o início da exportação dos Mussulus para Portugal. Era algo que já ambicionava ou surgiu naturalmente?

O projeto “MUSSULUS” que, para além dos chinelos, engloba uma linha de praia mais alargada, (sacos de praia, saídas de praia, óculos de sol, bolsas, etc.) é um projeto ambicioso, que nasceu com a pretensão de calçar os pés de todos os africanos, e depois, os pés do mundo…

Curiosamente, a primeira oportunidade que surgiu, foi para exportarmos para Portugal, o que a mim me enche de duplo orgulho: é algo criado por mim na terra que me viu nascer, algo feito por angolanos que chega à terra onde me fiz mulher! Esperamos que no verão do próximo ano os MUSSULUS possam estar já por Portugal inteiro.

Isso pode significar que existem mais facilidades de trabalhar em Angola e que há maior abertura no apoio ao investidor nacional?

Significa que a Defendideias tem à frente alguém que tem tanto de empreendedor como de louco (risos), ou seja: trabalhar em Angola não é fácil, todos os dias temos desafios novos para serem ultrapassados, todos os dias surgem situações anómalas que noutros sítios seriam impensáveis, todos os dias há “barreiras” que surgem sem sabermos como… Então o segredo é, em 1º lugar ter a audácia de contornarmos as situações sem ferir suscetibilidades e em 2º lugar ter a capacidade de “denunciar “ e de ir junto das competentes entidades e fazermo-nos ouvir… eu faço isso quase todos os dias pois considero que só a boa vontade do Executivo em mudar as “regras do jogo” não será suficiente se não puder contar com o apoio de todos os empresários que têm vontade de trabalhar e de dar o seu contributo.

Compete a nós empresários ir chamando a atenção para o que não está bem, é necessário que haja mais e melhor fiscalização para que os projetos que se criam para apoio às empresas nacionais possam vingar. Digo isso em todas as reuniões para as quais sou convidada a participar: “sem fiscalização competente continuarão a ‘morrer’ empresas todos os dias”.

Estamos perante uma empreendedora revolucionária?

Não, de forma alguma. Recuso esse rótulo assim como recuso o rótulo de “destemida” como alguém já me chamou…

Sou só uma empresária angolana que respeita os seus colaboradores, o seu país, pagando os salários e os impostos sempre atempadamente e, por isso se acha no direito de reclamar as situações com as quais não concorda tentando assim dar o seu contributo para que o ‘slogan’ de companha eleitoral: «Corrigir o que está mal e melhorar o que está bem» se cumpra!

A única coisa que pretendo é conseguir exercer o meu trabalho cumprindo, através dele, a minha missão de vida que é a de mostrar ao mundo que ANGOLA FAZ E FAZ BEM!!!

Tem tido apoio do poder executivo no desenvolvimento do seu projeto?

Não sei bem ao que se refere quando fala em apoio, é assim: tudo o que fiz até aqui tem sido com capitais próprios e assim continuará.

Apoio moral vou tendo de algumas entidades que fazem parte do nosso executivo e que acreditam no meu trabalho.

Falemos da atribuição do Prémio IAE Frankfurt, atribuído pela instituição BID na categoria de liderança, qualidade, excelência e inovação. O prémio BID à qualidade é um indicador de excelência conquistado por uma empresa que procura a qualidade total nas suas atividades. E para si o que representa este reconhecimento?

É motivo de enorme orgulho pois sentimos todos que é a “coroação” de uma caminhada feita com resiliência, determinação e sempre com o  foco no trabalho, fazendo bem e com  qualidade! Tenho um grupo de trabalho que todos os dias se esforça por fazer melhor, que todos têm um orgulho enorme por fazerem parte desta equipa fantástica, a equipa do “VAMU LÁ” como gostamos de nos auto apelidar.

A empresa continua a crescer e a dar cartas no mercado. Prova disso é o início de relação comercial com a Shoprite, o maior retalhista do continente Africano. Que passos ainda faltam ser dados para consolidar a presença da empresa no mercado africano?

Ainda temos muito para fazer…A shoprite concretizou-se agora depois de muitos meses de negociações… isto é só o início… Estabelecemos o prazo máximo de dois anos para estarmos em todo o continente africano.

Tivemos contactos e reuniões com uma grande cadeia espanhola mas que houve necessidade imperiosa, da nossa parte, de não prosseguirmos as negociações pois não teríamos capacidade de resposta de acordo com os nossos parâmetros de qualidade, pela falta de espaço físico para trabalharmos… Infelizmente e, apesar das necessidades que o nosso país tem de dinamizar a sua economia, tivemos de abortar essas negociações.

Brevemente irá ser lançada uma loja online. É mais um passo conquistado para elevar e levar o nome de Angola aos quatro cantos do mundo?

A necessidade da loja online surge na sequência dos contactos que vamos tendo de pessoas de todo o mundo que, de alguma forma, vão conhecendo os nossos produtos e perguntam como podem adquirir. A loja no centro comercial Colombo em Lisboa onde se podem encontrar os MUSSLUS também tem sido uma “montra” para nós.

Têm projetado a construção de uma unidade fabril, é verdade? Para quando?

Sim, é verdade, estamos há dois anos a construí-la, a lutar com capitais próprios para conseguir concretizar aquilo que considero ser uma das maiores façanhas da minha vida. Teremos 2000 metros quadrados de área de produção, 500 metros quadrados para área administrativa e mais 500 metros quadrados destinados a balneários e refeitório. Não sei quando conseguirei concluir a obra e, finalmente, podermos trabalhar num espaço condigno e com capacidade de maior produção para não perdermos oportunidades como já aconteceu. Infelizmente os bancos não acreditam no nosso projeto… resta-me, pois, respeitar isso e continuar a trabalhar no sentido de concretizar os objetivos que são meus mas que acompanham os objetivos que o país precisa de alcançar para dinamizar a sua economia.

A DEFENDIDEIAS é descrita como uma empresa que nos transporta aos sons, cores e formas de Angola. Essas características continuarão bem presentes na nova coleção? Quando será o seu lançamento?

A nova coleção que, garantidamente, será apresentada este ano continuará a ter bem patente a identidade angolana.

Cilene Correia, natural do Seles – Kwanza Sul, é a mentora deste projeto. Quem é Cilene Correia enquanto mulher?

Uma sonhadora, uma amante da sua terra, uma ‘sentimentalona’ e… uma mulher furacão (risos)

E quem é Cilene Correia enquanto empresária, empreendedora e líder?

Sabe? Tenho um defeito: não consigo ser só empresária e “despir-me” da mulher que sou… às vezes poderá ser menos bom mas eu acho que é isso que faz de mim uma verdadeira líder.

É fácil ser mulher no mundo empresarial? Ainda existem entraves à ascensão das mulheres a cargos de topo?

Eu não sinto nem nunca senti entraves pelo facto de ser mulher… reconheço que não é fácil mas, por isso, temos de saber impor-nos pelo respeito e pela auto valorização do que sentimos ser e podemos fazer!!!

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