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Erdogan diz que decisão de Trump lança Médio Oriente para “círculo de fogo”

“Fazer isso é lançar a região para um círculo de fogo”, afirmou Erdogan, aos jornalistas, a partir do aeroporto de Ancara.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu na quarta-feira Jerusalém como capital de Israel, tornando-se no único país do mundo a tomar essa decisão que representa uma rutura com décadas de neutralidade da diplomacia norte-americana no âmbito do dossiê israelo-palestiniano.

“Trump, o que é que tu queres fazer? Os líderes políticos não estão lá para agitar as coisas, mas antes para as pacificar. Agora, com estas declarações, Trump cumpre as funções de uma batedeira”, disse Erdogan, aos jornalistas, no aeroporto da capital, perante uma multidão que exibia cartazes com mensagens como “Abaixo Israel” ou “Não te rendas, a nação apoia-te”.

“Os Estados não respeitam de todo as decisões da ONU. Até agora, além dos Estados Unidos e Israel, nenhum país violou a decisão da ONU de 1980”, afirmou o Presidente turco em referência à resolução das Nações Unidas que define Jerusalém como cidade ocupada e apela para que não sejam ali instaladas embaixadas até que o conflito seja resolvido.

“É impossível entender o que é que Trump pretende conseguir ao trazer novamente este assunto para a ordem do dia”, observou Erdogan, sublinhando que Jerusalém é uma cidade santa para judeus, cristãos e muçulmanos.

O Presidente turco recordou a convocatória de uma cimeira extraordinária de líderes da Organização para a Cooperação Islâmica, a ter lugar na quarta-feira na cidade de Istambul, para abordar a questão, indicando que se planeiam também “atividades depois” dessa reunião.

“Estou a chamar vários dirigentes, e não apenas de países islâmicos. Pedi para falar com o papa [e] iremos conversar esta noite ou amanhã, porque [Jerusalém] também é um templo para os cristãos. Falarei com [o Presidente russo, Vladimir] Putin, com a Alemanha, Inglaterra, França, Espanha”, salientou Erdogan.

“Se Trump pensa que é forte e, por isso, tem a razão, engana-se. Os fortes não têm razão, os que têm razão é que são os fortes”, concluiu o Presidente turco antes de partir para uma visita oficial à Grécia, a primeira de um chefe de Estado turco em 65 anos.

LUSA

Erdogan visita hoje a Rússia para confirmar reaproximação com Vladimir Putin

Esta visita, a primeira ao estrangeiro de Recep Tayyip Erdogan desde a dramática noite de 15 de julho, é resultado da reconciliação que se seguiu às desculpas do líder de Ancara pelo derrube em novembro de um bombardeiro russo pela aviação turca na zona de fronteira com a Síria.

Este incidente originou uma grave crise político-diplomática entre os dois países, mas a rapidez com que Moscovo aceitou as justificações turcas — que de forma velada admitiu que o avião russo não violou o seu espaço aéreo, o motivo para o derrube e a morte de um dos pilotos — não deixou de surpreender.

Erdogan apreciou a reação russa à abortada intentona militar de 15 de julho: Putin foi um dos primeiros dirigentes estrangeiros e telefonar-lhe para condenar o golpe, e sem surpresa não manifestou as reticências dos líderes europeus sobre a repressão que se seguiu e que não atingiram apenas os supostos seguidores do clérigo Fethullah Gülen, exilado nos Estados Unidos e acusado de mentor do golpe.

“A reação russa contrasta fortemente com a dos aliados ocidentais da Turquia”, considera Jeffrey Mankoff, do Center for Strategic and International Studies (CSIS), com sede em Nova Iorque, citado pela agência noticiosa France-Presse (AFP).

As relações entre a Turquia e a Rússia, dois países que disputam a sua influência nas regiões estratégicas do Mar Negro e Médio Oriente, nunca foram fáceis. No entanto, antes do derrube do bombardeiro russo, os dois países tinham promovido um “acordo tácito” face às delicadas questões da Síria e Ucrânia, para se concentrarem na cooperação estratégica: gasoduto TurkStream em direção à Europa, construção de uma central nuclear russa na Turquia, ou alcançar o objetivo de 100 mil milhões de dólares (90 mil milhões de euros) no comércio bilateral.

A aliança Putin-Erdogan foi construída na base de uma amizade entre os dois combativos dirigentes sexagenários, que conseguiram restaurar a dignidade dos seus países após duras crises económicas e contenciosos geopolíticos em particular com o Ocidente, mesmo que internamente à custa de uma degradação da situação dos direitos humanos. E após Erdogan ter manifestado o seu sentimento de abandono pelos Estados Unidos e a União Europeia, Moscovo não deixou de aproveitar de imediato essa oportunidade.

“Mesmo que [estas] relações conheçam as suas próprias incertezas, a deterioração das relações com as potências ocidentais poderá acelerar uma reaproximação”, sugere um analista do European Council on Foreign Relations, também citado pela AFP.

A Turquia pretende resolver com urgência os nefastos efeitos das sanções russas em particular na sua agricultura, construção civil e turismo. Os números do Kremlin indicam que as trocas comerciais recuaram 43% para 5,5 mil milhões de euros entre janeiro e maio, enquanto as chegadas de turistas caíram 93% entre junho de 2015 e junho de 2016. Desde então o turismo começou a recuperar, enquanto o projeto de gasoduto TurkStream, que deverá fornecer por ano à Turquia 31,5 mil milhões de metros cúbicos, e a central nuclear de Akkuyu, deverão ser retomados em breve.

Para o conselheiro de política externa de Putin, Yuri Ouchkalov, o facto de Erdogan se ter deslocado à Rússia tão rapidamente após o fracassado golpe militar demonstra a importância que Ancara concede às suas relações com Moscovo. Em declarações à agência noticiosa russa Tass, reproduzidas na segunda-feira pelos ‘media’ turcos, Erdogan considerou que a sua visita vai abrir “uma nova página”.

Num gesto de boa vontade, o portal na Internet de informação oficial russo Sputnik, bloqueado desde abril, voltou a estar acessível aos turcos. No entanto, e após uma crise muito aguda, será necessário tempo para reparar todos os danos. Moscovo está em posição de força face a uma Turquia que ainda importa da Rússia mais de metade do gás que consome.

A Rússia, a mais poderosa aliada do Presidente sírio Bashar al-Assad, um inimigo de Erdogan, também alterou as relações de força ao intervir militarmente na Síria desde setembro, uma decisão que colidiu com os planos de Ergodan face ao seu vizinho árabe.

“A única pessoa que Erdogan teme chama-se Vladimir Putin”, assinala Steven Cook, do European Council on Foreign Relations. E para Jeffrey Mankoff, do CSIS, as tensões entre a Turquia e o Ocidente suscitaram “uma ocasião de ouro para que Ancara se virasse na direção da Rússia”.

“O que vamos observar será uma relação mais duradoura mas de uma forma mais pragmática, que não será construída através de relação pessoal ou ideológica mas em torno de interesses práticos comuns”, prevê por sua vez Alexander Baunov, do Centre Carnegie de Moscovo.

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