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Jovem talento da Póvoa de Varzim no mundo da sétima arte

Iniciou o contacto no mundo das artes, aos quatro anos, quando começou a dançar e a tocar piano. Foi um gosto que cresceu com ela.

Photo Credit_ Chung AnimationAos 14 anos, depois de ter iniciado o secundário, em Portugal, surgiu a oportunidade para uma audição num colégio interno britânico de artes, Tring Park School for the Performing Arts. Agarrou a oportunidade e decidiu fazer a audição para a escola: um mundo novo, uma cultura nova, uma língua diferente, tudo fora da sua zona de conforto.

Sempre determinada, mas consciente das dificuldades e obstáculos com que se deparou neste percurso, em junho de 2010, com os pais, irmão e melhor amiga viajou para Londres ao encontro da audição tão esperada. A escola não hesitou em admiti-la e em setembro, do mesmo ano, embarcou assim numa nova aventura.

Maria revela-nos que este sonho não seria possível se não tivesse o constante apoio dos pais, moral e financeiro e uma bolsa de mérito oferecida pela escola.

Depois de provar o gosto pela representação em Londres, as ambições desta jovem cresciam cada dia.

Acredita acima de tudo que independentemente da vocação ou área de cada um, a oportunidade de uma educação a nível superior é uma mais-valia e uma prioridade. Com isto em mente fez várias audições para faculdades de teatro e cinema. A viver em Londres as escolhas eram inúmeras, no entanto, os seus sonhos falavam mais alto.

Algumas universidades americanas ofereciam audições em Londres para dar oportunidades a alunos estrangeiros de se candidatarem sem terem que se descolar aos Estados Unidos.

Depois, de mais uma dezena de audições, propostas e rejeições, Maria escolheu uma das várias universidades em Los Angeles que lhe ofereceram um lugar. Admite que enquanto indecisa entre duas escolas americanas, American Academy of Dramatic Arts e New York Film Academy, escolheu a que maior bolsa financeira lhe ofereceu.

Assim, em setembro de 2013, com duas malas e uma viagem de ida para Los Angeles, Maria embarcou numa nova etapa.

Foi com coragem, independência e determinação que entrou nos Estados Unidos, sozinha, pela primeira vez, e terminou a licenciatura, com distinção em maio de 2016.

Ensaio para Anuncio ´Purple One Studios´

Considera a Califórnia a sua segunda casa, mas Portugal é incomparável a qualquer outro lugar do mundo, é onde recarrega energias, reencontra as pessoas mais importantes e o apoio incondicional. Onde, ainda, se sente a menina de 14 anos que sonhava conseguir chegar à capital do cinema.

Atualmente, encontra-se a dar os primeiros passos na indústria de cinema americana, diz que o mais importante é estar sempre a trabalhar e a realizar novos projetos. Em menos de seis meses, na indústria, já contracenou em dois anúncios, e várias curtas. Confessa ter consciência da enorme competição, mas isso não a assusta, apenas alimenta a sua  motivação e relembra-a da maratona tão esperada que finalmente começou a percorrer.

Visite o seu site www.mariadesa.com

0 Ser europeu sem país e sem pecado no corpo

Falk Richter acordou a meio de uma noite e teve a ideia espaventosa de que a peça que se encontrava a preparar precisava, em absoluto, da imagem que lhe ocorreu naquele momento de hesitação entre a vigília e o sono. Eram quatro da manhã e, como se não tivesse interrompido o sonho que estava a ter, escreveu de jacto a cena em que um grupo de rapazes abusados no Vaticano forma uma boy band para superar o trauma e acaba por vencer o Festival da Eurovisão. No ano seguinte, como faz parte dos regulamentos, a Eurovisão teria lugar no Vaticano, a cerimónia seria dirigida pelo Papa em latim na Basílica de São Pedro e todos os países acorreriam ao mais pequeno Estado do mundo para participar num culto razoavelmente distinto do habitual.

É um momento de comic relief, explica o autor e encenador alemão Falk Richter ao Ípsilon. Porque se a coreografia de boy band decalcada dos movimentos ultra sexualizados que tomaram conta dos videoclips responsáveis pela propagação da música pop (e hip-hop) pelo mundo, levada aqui a um exagero por vezes paródico, proporciona uma bolsa de comicidade numa peça que tem o humor como arma sempre a postos, a verdade é queCittà del Vaticano nos aparece emparedada entre esse registo humorístico e o comovente, entre a piada (por vezes fácil), a crítica ácida e a confissão que, quando embrulhada em gargalhadas, apenas se torna mais pungente.


Neste comic relief, no entanto, Richter sabe bem que está a mexer, mesmo que a traço grosso, com uma “forma ultra conservadora de dividir homens e mulheres – homens musculados que habitualmente ficam para ali a falar da sua masculinidade, e mulheres sempre com ar de prostitutas”, como que lutando pelo máximo de explicitação sexual sem chegar a vias de facto. A dança de Città del Vaticano cita este universo, mas a partir de “objectos sexuais tímidos que tentam libertar-se, porque estes continuam a ser homens traumatizados e reprimidos”. Não sendo propriamente a chave para o espectáculo, reclama modelos para os caricaturar e recusar. E como diz o actor Gabriel da Costa (descendente de portugueses) no monólogo final, “há 10 mil formas de ser homem e 10 mil formas de constituir família e 10 mil formas de amar outro humano.”

Se há, na verdade, uma chave para Città del Vaticano, texto em que Falk Richter parte em busca de explorar a relação de uma geração nascida na União Europeia com, precisamente, o conceito de Europa e com a presença da religião nas suas vidas, será esse monólogo em forma de carta destinada a um filho-por-vir: “O papá e os amigos estão a planear um mundo complexo para ti e esperamos que gostes”, diz Gabriel em palco. A realidade, advoga Richter, é demasiado rica para ser reduzida a conceitos “vindos de pessoas que tentam categorizar tudo para ficarem menos assustadas”. “Isso vem tudo do medo, porque a humanidade pode ser muito assustadora, na sua variedade tão difícil de organizar.” Città del Vaticano vive, acima de tudo, de uma ideia de recusa da simplificação da sociedade.

É uma peça fundada no presente. Estreada no Festwochen de Viena, em Maio deste ano, ganha agora novas ondas de reverberação na sequência da votada saída do Reino Unido da União Europeia e do ataque dirigido contra a comunidade LGBT na discoteca The Pulse de Orlando. Mas foi vista pela primeira vez em Viena nos dias em que Norbert Hofer, candidato da extrema-direita, ficou perto de vencer as eleições presidenciais austríacas. O populismo de Hofer, com um discurso e receitas simplificadoras, colheria sobretudo votantes fora das grandes cidades, levando por isso Richter a falar de “uma acentuada divisão entre as metrópoles e as zonas rurais”, frisando que “Paris, Lisboa e Berlim estão hoje mais próximas e mais ligadas entre si do que com as províncias dos seus países.”

O exemplo extremo, admite, pode encontrar-se em Donald Trump como simplificador de tudo. “É alguém que nega as alterações climáticas, a complexidade da política mundial e vende soluções muito simples para uma sociedade complexa apenas para conseguir votos. Venho de um país que teve 12 anos de um fascismo muito destrutivo e é terrível ouvir os argumentos dos novos movimentos de extrema-direita, porque soam muito semelhantes àquilo que já correu muito mal há 70 anos. Não percebo como é que as pessoas podem novamente acreditar que isto funciona.” Por isso, defende que a carta de Gabriel, resultado de uma colaboração escrita entre os dois, é um texto em defesa da beleza na complexidade mas também “símbolo de uma nova Europa, uma Europa sem lutas constantes uns contra os outros, sem conflitos armados e com abertura de fronteiras.”

Religião, Europa, extrema-direita

A temática de Città del Vaticano começou por ser abordada emThe Complexity of Belonging, texto levado à cena no Festival de Melbourne. Nesse espectáculo, estreado em 2014, Falk Richter, em parceria com Anouk van Dijk, começou por se perguntar o que unia a população de uma antiga colónia europeia (a Austrália), o que fazia com que grupos e culturas, dos aborígenes aos descendentes dos criminosos ingleses para ali deportados e a toda a sorte de refugiados (os europeus em fuga da II Guerra Mundial, os asiáticos procurando colocar-se a salvo de vários cenários de guerra civil) constituíssem um país. Todas estas diferentes origens levaram Richter a questionar “o que significa ser australiano, como se encontram e quão importantes são as culturas de origem, venham do Vietname ou da Grécia.”

Ao regressar para a Europa, ele que é um dos encenadores da histórica sala berlinense Schaubühne, quis retomar a interrogação em relação à Europa. Retirado do texto final de Città del Vaticano, conta ao Ípsilon a actriz belga Tatjana Pessoa, sobrinha-bisneta de Fernando Pessoa (nasceu em Bruxelas, filha de mãe portuguesa e pai suíço), ficou por usar um excerto em que a Bélgica era também apresentada na sua improvável construção, puzzlefrancófono, flamengo e germanófono. “Isto, de alguma maneira”, diz Tatjana, “acaba por formar um país.” Esse conceito de nação, para alguém que fala cinco idiomas (Città alterna entre alemão, inglês e português) e viveu em vários países, é algo impreciso e de escassa utilidade. “Quando oiço alguém dizer ‘Vai-te embora para o teu país’ não percebo o que isso quer dizer. Espero nunca ter de escolher um país. Claro que posso escolher o sítio onde vivo e fazer parte da rede social e política desse lugar, mas isso é onde vivo, não é o sítio a que sinto que pertenço.”


Regressado então à Europa, Richter juntou 20 actores com idade entre os 25 e 35 anos, falantes de 14 línguas diferentes, num workshop integrado na Bienal de Veneza. E as ferramentas de trabalho que lhes deu foram as perguntas “como é que são constituídas as nossas famílias hoje em dia?” e “quão importantes são as crenças religiosas na actualidade?”. Ao escavar nas biografias de cada um foi-se fascinando com o possível retrato do que é ser-se europeu naquele intervalo etário, de uma geração para a qual o programa Erasmus se tornou um ponto de encontro tão fundamental quanto a certeza de que a vida se pode construir em qualquer cidade do continente sem que isso implique necessariamente uma emigração forçada pela falta de condições no país-natal.

Dessa semana de trabalho resultou o elenco que agora apresenta Città del Vaticano (8 e 9 de Julho, no Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa, como um dos pontos altos do Festival de Almada), e que num segundo momento se dedicou a trabalhar sobre a religião e a ascensão da extrema-direita. A ideia era clara: como aceitar a crescente influência de movimentos nacionalistas por parte daqueles para quem as fronteiras pouco dizem e o apego a uma nacionalidade frequentemente fragmentada é algo de bastante diluído? Da bateria de perguntas de Richter foi, aos poucos, surgindo um texto que cola respostas e biografias vincadamente pessoais. E com esse ponto de partida em que se encontravam expostos diante de todos os outros, criou-se entre os oito intérpretes uma cumplicidade explorada também fisicamente em palco, reflexo e extensão de uma intimidade em que os corpos se tocam e procuram num desejo de contacto, de estar próximo, e de procura de afectos que se seguia a discussões matinais sobre a religião, a infância e a Europa.

“Às tantas, o trabalho físico funcionava também como resposta às perguntas que fazíamos, e descobríamos que acabava por interferir no texto da mesma maneira que os materiais de pesquisa, como a longa conversa que tivemos com alguém que nos esclareceu sobre muita coisa da extrema-direita actual”, descreve Tatjana. E, para Richter, o corpo surge ainda como vítima da religião, na sua tentativa de controlar a sexualidade: “Tentaram desligar o corpo de nós dizendo que era o reino de Satanás e era maléfico, cheio de pecado. O corpo pode assustar-nos porque faz coisas estranhas [risos] e não se pode controlar totalmente. Mas isso criou imensos traumas.”


Falar de amor

Se a questão da família era central para Falk Richter dada a sua própria história pessoal – “venho de uma família dividida, metade na RDA, outra metade na RFA, em que não nos podíamos ver uns aos outros”, explica – e tudo isto se relaciona de forma muito directa com os ecos que o fechamento de fronteiras têm sobre o seu percurso, mais surpreendente acabou por ser o peso da religião. De tal forma que alastrou mesmo para o título da peça.

Convencido de que estes filhos da geração do amor livre teriam já uma ténue ligação à Igreja, descobriu em cada um dos rapazes do elenco uma história verdadeiramente traumática – desde situações de abuso sexual, participação em seitas de protestantes radicais ou passagem por repressivos colégios católicos. Mas a religião é convocada também porque Richter detecta uma discussão dos valores cristãos na Áustria e na Alemanha como “oposição à chamada islamização da sociedade e que é vista como uma grande ameaça para a humanidade”. Ao apontar para o Vaticano, “um Estado muito pequeno com um dos bancos mais corruptos do mundo”, quer, na verdade, fazer o que faz com cada um dos temas que emerge em Città del Vaticano: mostrar as suas fragilidades e denunciar a sua tentativa de impor modelos comportamentais ao resto do mundo (seja pela disseminação da culpa, seja pelo histórico de dizimação de outras culturas ao longo dos séculos).

“Claro que há uma enorme diferença entre os valores que o Vaticano promove e os valores pelos quais se rege”, resume. “E essa é uma grande diferença em relação aos actores que temos em palco, que falam daquilo que fazem, daquilo que estão a tentar, daquilo que falham, daquilo em que erram, mas não fingem nunca levar vidas perfeitas quando por detrás não passa de uma mentira.” E, de facto, isso está sempre no osso de Città del Vaticano: a possibilidade de viver uma verdade pessoal sem vergonha, culpa ou medo de que tal possa ferir as sensibilidades de terceiros. “Estamos sempre a falar de amor”, conclui Gabriel. “Temos de nos saber amar.”

O Ípsilon viajou a convite do Festival de Almada

O ator que nasceu num teatro

À beira de fazer 92 anos, morreu um ator cómico que nasceu no camarim de um teatro e começou a pisar o palco com cinco anos. Estava num hospital, em cuidados paliativos para atenuar a dor de dois cancros, um na próstata e outro nos intestinos. O seu nome era conhecido de gerações várias, umas que o acarinhavam desde os tempos do teatro, outras que foram conquistadas pelos seus programas televisivos.

É impossível, quando se fala em Camilo de Oliveira, presença televisiva desde a fundação da RTP, não recordar o quadro televisivo do programa “Sabadabadu”, “Os Agostinhos”, da autoria de César Oliveira e Melo Pereira, protagonizado pelo próprio e por Ivone Silva. As duas alcoolizadas figuras cantavam versos que começaram a ser repetidos nas ruas e nas casas portuguesas: “Este país perdeu o tino, a armar ao fino / Este país é um colosso, está tudo grosso, está tudo grosso”.

O seu protagonismo televisivo na finória Nação intensificou-se a partir dos anos 90 – com séries como de Camilo & Filho, Lda (1995) e Camilo a Presidente (2009 e 2010), ambos da SIC. Diga-se que da primeira, sucesso de audiências, já não estão vivos nem Camilo nem Nuno Melo, que fazia o segundo papel.

Morre assim mais um ator de comédia de travo marcadamente português e popular, daqueles que marcaram o humor nacional muito antes dastand-up comedy e das one-liners do Twitter. Um homem que falava para um povo que gostava que o lembrasse para sempre como um das figuras marcantes da comédia portuguesa – ao lado de João Villaret, António Silva e Vasco Santana. Eram esses nomes que referia quando era convocado para falar sobre a forma como desejava ser recordado após a morte. E outros com quem contracenou, como Raul Solnado, Ribeirinho e Beatriz Costa.

A estreia profissional aconteceu aos 15 anos na companhia itinerante da família, Salão Rentini, mas a popularidade iniciou-se depois de ter mudado de Buarcos (Figueira da Foz), para a capital e com a participação, em 1951, na revista “Lisboa é Coisa Boa”. Seguiram-se, além de 24 comédias, mais 46 revistas “com sal e pimenta” (título de uma delas, de 1962), cozinhadas à base de todas as características de malandrice verbal típicas do género.

Não faltavam, claro está, as alusões eróticas, uma das imagens de marca de um homem conhecido pela sua imoderada inclinação pelo género feminino (não por acaso, em 1973, fez parte do elenco de “Mulheres é Comigo”) e as sátiras à instituição eclesiástica (tornou-se famosa a sua personagem Padre Pimentinha).

Camilo, pai de dois filhos, teve três casamentos: com a atriz italiana Io Appolloni, com quem chegou a contracenar, com Maria Luísa Bettencourt e com a atriz Paula Marcelo. Homem de assumidas paixões, era do Sporting, clube que aliás escreveu um comunicado onde lamenta a morte da personalidade e do adepto que foi rugido de leão em 2008 e fez parte da Comissão do Centenário.

Na hora da morte, amigos e colegas têm recordado a sua capacidade em fazer com rigor e o seu profissionalismo mas também o seu ocasional feitio difícil, capaz de, nas palavras de Herman José, fazer “alguns inimigos de estimação pelas razões certas”.

Nuno Costa Santos, 41 anos, é escritor e guionista. Escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.

‘E se elas fossem para Moscou?’ abre hoje o Festival Alkantara

Até 11 de junho, o festival bienal vai apresentar projetos de áreas desde a dança, ‘performance’, teatro e vídeo, criados por artistas da Europa, Ásia, América Latina e Médio Oriente.

O espetáculo de abertura, da encenadora e cineasta brasileira Christiane Jatahy, é inspirado na obra ‘As três irmãs’, de Anton Tchekhov, transportada para o teatro e cinema.

O espetáculo é apresentado hoje, na quinta-feira e na sexta-feira, às 19:00 e 22:00, em duas sessões, uma num contexto teatral, a outra, numa outra sala, onde se exibe a versão filmada e editada, em direto, do espetáculo.

Com este espetáculo, Christiane Jahaty recebeu, no Brasil, o Prémio Shell 2015 para a melhor encenadora, e Stella Rabello foi galardoada com o prémio da melhor da melhor atriz.

Neste festival de âmbito internacional, os projetos portugueses são apresentados, entre outros, pela dupla de artistas Sofia Dias & Vítor Roriz, assim como Gonçalo Waddington, Cláudia Dias e João dos Santos Martins.

Arkadi Zaides (Israel), Joris Lacoste (França), Christopher Brett Bailey (Reino Unido), Faustin Linyekula (República Democrática do Congo) – Artista na Cidade, em Lisboa, este ano -, Takao Kawaguchi (Japão), Rabih Mroué (Líbano), Taoufiq Izeddiou (Marrocos), Pablo Gisbert (Espanha), entre outros, apresentarão também os seus projetos de diversas áreas, desde a dança, ‘performance’, teatro e vídeo.

Os espaços coprodutores que recebem esta 14.ª edição do Alkantara são o Teatro Municipal São Luiz, o Teatro Municipal Maria Matos, o Teatro Nacional D. Maria II, a Culturgest, o Centro Cultural de Belém e o próprio Espaço Alkantara, em Lisboa.

As novas Variações de António estão a caminho

Falta pouco para que António e Amália se cruzem no palco. Poucas horas até ao início do espetáculo, aquele que será um dos momentos mais importantes da vida do cantor. É esse encontro com Amália, inspiração maior, que serve de ponto de partida para a peça “Variações, de António”, que irá subir ao palco do Teatro Municipal de São Luiz a 24 de junho. Uma peça que “podia ser imensas coisas”, mas que é apenas “uma coisa simples”, como nos diz Sérgio Praia, o único ator do monólogo escrito por Vicente Alves do Ó e que está agora a preparar o papel. “Quisemos pegar num momento específico da vida dele, e que foi real. A Amália não gostou nada da versão dele do ‘Povo Que Lavas no Rio’, e ele ficou muito, muito triste. A Amália era uma grande referência.”

[“Povo que Lavas no Rio”, por António Variações]

Sérgio Praia começou a descobrir António Variações há vários anos, quando o realizador João Maia o convidou para protagonizar um filme sobre a vida do cantor. Mas a produção nunca chegou a andar para a frente e Sérgio ficou sempre com António na cabeça. O António que encontrou por trás do Variações, eternamente insatisfeito, solitário. Um homem de carne e osso. Isso levou-o inevitavelmente ao São Luiz.

“Quando comecei a descobrir a insatisfação dele durante o percurso que fez, comecei a envolver-me mais”, conta o ator. Um envolvimento que levou a uma vontade cada vez maior de explorar este António, a sua “insatisfação e a sua ‘inconcretização’”. “Comecei a encontrar uma ligação entre o percurso do António e aquilo que eu também procuro na vida, que é esta coisas de nunca estar estanque, esta constante procura. Essa procura torna-se muitas vezes num vício que nos leva a coisas más, mas também a coisas boas. Tudo tem um preço na vida.”

Como queria continuar a trabalhar o tema, decidiu convidar Vicente Alves do Ó para escrever o texto. “Pensei em várias pessoas”, confessa, mas o realizador tornou-se a escolha óbvia ao se aperceber da proximidade que este cria entre o público e o ator. “Tinha a ver com a proximidade do António com as pessoas, e interessava-me muito trabalhar esse lado.”

Um homem e a sua solidão

O que Sérgio Praia pretende com a peça é mostrar um lado diferente de António Variações. “A minha ideia é ir tentar buscar o homem e a sua solidão, que as pessoas não conheceram (ou que algumas descobriram através das suas letras) e mostrar o António enquanto pessoa, enquanto ser — enquanto ser humano, sozinho em casa, com as suas frustrações, procuras, como é que ele procuraria letras. Trabalhar esse lado e não o lado exterior e o de um homem que rasgou, apesar disso também ser importante.”

Sérgio diz que quando começou a “escavar este tema do António”, apaixonou-se. E isso é óbvio pela maneira como fala desse António que também já é um bocadinho seu. “Tudo tem uma razão de ser e acho que esta coisa da insatisfação foi o ponto que me tocou mesmo, ao ponto de querer fazer este trabalho. E também esta questão que continua a ser muito atual — a destes seres diferentes que tentam rasgar épocas e que abrem terreno para o que se irá passar depois.”

Há muita gente insatisfeita. Acho que, se não houver isso, sinto-me morto. E acredito que ele se sentia bem com isso, apesar de em parte ser doloroso. Isso é uma das coisas que mais admiro nele — ele sempre foi fiel a ele próprio. Acreditou sempre no seu caminho, nunca se juntou a grupos nem nunca o procurou fazer. Foi construindo o seu caminho.”
Por esse motivo, “Variações, de António” é também uma homenagem ao todos os artistas anónimos que, apesar da falta de reconhecimento, escolheram dar “a vida à arte”. “Tomam essa posição e acho que o António, do meu ponto de vista, tomou essa opção muito cedo. Ele entregou-se a isso e tinha consciência de que era uma peça fora do puzzle. Mas foi fazendo o seu caminho e perdurou.”

É por querer tanto mostrar a singularidade de António Variações, e ao mesmo tempo a sua solidão, que o ator decidiu fazer uma peça de um homem só. Mas isso não significa que não haverá canções. “Cantarei, mas a ideia é mostrar músicas que as pessoas não conhecem”, explica. Há ainda muita coisa por decidir, uma vez que a peça só irá estrear no final de junho, mas Sérgio Praia avança que “Variações, de António” poderá até vir a incluir algumas das músicas que Variações cantava em criança, porque ele “cantava muito quando era miúdo”.

Assim, o espetáculo acaba também por ser um regresso a casa, às origens. A Fiscal (Amares, Braga), a terra natal do cantor, e à mãe. “Quando é atraiçoado por uma doença, isso fá-lo regressar a casa. É um bocadinho como a canção que ele canta, ‘Adeus Que Me Vou Embora’. Podemos percorrer o mundo inteiro mas, quando morremos, há uma vontade mais forte do que tudo o resto de regressar às origens, de voltar a ver as flores que via quando era criança, a velhinha sentada não sei onde.”

Nós somos isso — somos seres humanos e às, vezes, há todo um embelezamento e esquecemo-nos do que é a base. A base ele nunca esqueceu.”
“Variações, de António” tem estreia marcada para dia 24 de junho, no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa. Estará em exibição até 10 de julho. Os bilhetes custam 12 euros e já estão à venda na Bilheteira Online.

Leiria aposta no teatro para integrar cidadãos com deficiência

O projeto é da companhia Leirena Teatro e envolve utentes de quatro instituições: Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de Leiria, Organização de Apoio e Solidariedade para a Integração Social (OASIS), Cercilei e Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral de Leiria.

“Sempre tentámos com as nossas peças chegar a toda a gente. Mas havia esta lacuna: as crianças, jovens e adultos com necessidades educativas especiais. Agora estamos a conseguir fazê-lo, neste projeto que procura aliar o teatro e terapia ao longo da formação e criação artística”, afirma Frédéric Pires, ator e encenador do Leirena.

Arte e Terapia é coordenado por dois atores da companhia e por uma terapeuta da fala, Cindy Zoeb.

Atualmente, trabalha com dez utentes daquelas instituições, que têm idades compreendidas entre os 11 e os 40 anos e patologias como autismo, trissomia 21, atrasos cognitivos ou problemas motores.

“Temos como exemplo a Crinabel, de Lisboa. Começou há muitos anos e hoje é uma companhia de teatro. Queremos fazer algo quase similar, mas com o fator terapêutico envolvido, intervindo diretamente e individualmente com os problemas de cada um dos elementos, conforma as suas dificuldades e patologia”, sublinha o encenador.

Para já, o grupo está a conhecer-se e a criar espírito de equipa. “É palhaçada pura, por agora. Depois das férias de verão, começamos a trabalhar o espetáculo”.

A estreia em palco deve acontecer em junho de 2017, mas até lá é preciso conhecer-se os futuros atores.

“Se vir que têm a motivação, o impulso, a força e a garra, podemos fazer Beckett ou Federico Garcia Lorca. Não há limites nem receios. Têm necessidades educativas especiais, mas são pessoas com capacidades. Podem ter uma deficiência motora, mas sabem falar, sabem pensar. Se vir que têm competência para pegar em Brecht, faremos Brecht”, promete Frédéric Pires.

A par do trabalho dramático, os atores de Arte e Terapia vão integrar a equipa do Leirena, numa perspetiva inclusiva: “Não vão fazer só trabalho de ator. Quando o Leirena tiver espetáculos em Leiria, vão lá estar a fazer a frente de casa, a entregar a folha de sala ao público. Vão estar ali connosco”.

Dentro de um ano, Frédéric Pires acredita que os utentes das quatro instituições envolvidos no projeto estarão diferentes.

“Imagino-os a mandar calar muita gente e a tomar iniciativas por si mesmos. Quero que tenham força para levantar a cabeça e dizer ‘posso fazer isto’. Têm de ser afirmativos. O teatro é afirmativo, não pode ser negação”.

 

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