A Estatística ao serviço da Educação

Artigo de opinião por Luísa Canto e Castro Loura, Diretora-Geral da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência do Ministério da Educação e Ciência

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Luísa Canto e Castro Loura

Melhores Dados, Melhores Vidas! É este o lema da segunda edição do Dia Mundial da Estatística. É um facto que, com o avanço da tecnologia, o processo de recolha de dados ficou extraordinariamente facilitado e há agora que canalizar um maior esforço para a sua organização e interpretação, tendo sempre como objetivo último contribuir com mais e melhor informação.

Imaginem as lições que não se poderão tirar de todos os dados que vão alimentando anualmente os sistemas de informação do Ministério da Educação e Ciência: dados sobre mais de 2 milhões de alunos – idades, escolaridade dos pais, apoios e bolsas, resultados escolares; dados sobre mais de 180 mil docentes – formação de base, horas letivas, horas para apoio e tutoria, horas para gestão. E, ainda, dados sobre percursos no ensino superior, percursos na investigação, níveis de publicação científica, despesa em I&D no Estado, nas Instituições de Ensino Superior e nas Empresas.

É este o grande desafio para a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência: os dados só são úteis quando se transformam em informação. E é aí que deverá entrar a Estatística enquanto “arte de fazer falar os dados”.

Mas, perante bases de dados de tão grande dimensão, como agilizar o seu tratamento estatístico? Como promover a utilização de metodologias estatísticas mais sofisticadas que permitam revelar padrões, fazer benchmarking e tornar estes dados efetivamente úteis às escolas, às instituições de ensino superior, às famílias e a toda a sociedade?
Estando o país num período de grande contensão financeira houve que apostar fortemente no desenvolvimento dos recursos internos da DGEEC: dotando as equipas técnicas de conhecimentos sobre as mais recentes ferramentas de exploração de bases de dados; desenhando um plano de formação que conduzisse a uma maior capacidade interna para desenvolver estudos estatísticos; organizando seminários e fóruns de discussão sobre os trabalhos em curso.

E houve também que tornar mais ágil o acesso às bases de dados por parte dos investigadores. O seu papel é absolutamente crucial nesta ambição de delas retirar o máximo possível de ensinamentos sobre o que determina a maior eficácia educativa e sobre o que estará subjacente a percursos escolares de sucesso.

A investigação estatística na área da Educação debate-se com uma questão de fundo que é característica das ciências sociais: a sua principal variável de interesse – o nível de conhecimentos adquiridos pelos alunos – não é passível de ser medida diretamente, classificando-se, por isso, como variável latente. Os valores que se obtêm após aplicação dos instrumentos de medida (testes/exames) estarão certamente correlacionados com os da variável latente de interesse mas a identificação da forma como se estrutura essa correlação está longe de ser uma questão de resposta imediata. Perante esta dificuldade de medição do nível de conhecimentos, a avaliação de todos os alunos através de um mesmo exame é a única forma que um professor tem para comparar o nível e progresso dos seus próprios alunos com o nível e progresso dos restantes alunos do país e, assim, ajustar e aperfeiçoar as suas estratégias de ensino.

Os exames nacionais têm, pois, uma importância chave na construção de indicadores que permitam mostrar a cada escola, não só os seus pontos fortes (por comparação com todas as outras) como, também, aqueles onde necessita de um maior reforço e atenção. Exemplo de um desses indicadores é o da “progressão relativa”, disponibilizado no portal Infoescolas (www.infoescolas.mec.pt). A “progressão relativa” foca-se nas disciplinas de Matemática e de Português e, em termos gerais, o que se calcula para cada uma das disciplinas é a progressão dos alunos da escola, face à média nacional, entre o 4.º e o 6.º ano de escolaridade, entre o 6.º e o 9.º ano de escolaridade e entre o 9.º ano e o 12.º ano de escolaridade. A média nacional serve de fasquia, igual para todos, avaliando-se, para cada aluno, a subida ou a descida em relação a essa fasquia entre o ano de entrada e o ano de saída. Agregando para todos os alunos da escola, estabelece-se assim um indicador que reflete, de algum modo, a capacidade desta em dotar os seus alunos de conhecimentos que lhes permitam ter resultados nos exames que os coloquem numa melhor posição relativamente à média nacional que aquela em que estavam à entrada.

Já para se tirar conclusões estatísticas sobre a eficácia das estratégias de ensino, uma simples comparação de médias é, em geral, insuficiente, pois há que ter em conta a diversidade dos pontos de partida dos alunos e os possíveis impactos do ambiente escolar, o que obriga ao desenvolvimento de modelos com um elevado grau de complexidade. O potencial para investigação é virtualmente ilimitado e, sendo disso consciente, tem a DGEEC dado prioridade à promoção de formas ágeis que permitam o acesso seguro aos dados por parte dos investigadores, garantindo o indispensável apoio técnico. Neste momento de comemoração de mais um Dia Internacional da Estatística, fica aqui o apelo aos investigadores para que apostem nesta área de indiscutível importância para o avanço da sociedade.