As mais-valias da Telemedicina

É já uma certeza inequívoca que a Telemedicina veio alterar paradigmas até então tidos como certos na área da saúde. Contudo, ainda pouco se fala sobre as mais-valias desta solução tecnológica no âmbito da medicina no trabalho. Foi no sentido de compreender este campo que a Revista Pontos de Vista conversou com Pedro Henriques, Diretor Executivo da Born2Score (B2S).

2722
Pedro Henriques

São pioneiros na Telemedicina adaptada à Medicina no Trabalho em Portugal. Que obstáculos enfrentaram e ainda enfrentam para promover esta tecnologia na vossa área de atuação?
A utilização de novas tecnologias traz sempre algumas preocupações e renitências por parte das pessoas ou dos grupos mais conservadores, que compõem ainda grande parte das nossas Autoridades Administrativas.
A telemedicina pode ser definida como o conjunto de tecnologias e aplicações que permitem a realização de ações médicas à distância e já se encontra hoje aplicada a praticamente todos os ramos da ciência médica, desde os mais complexos e minuciosos como a cirurgia ou cardiologia, como aos mais frequentes ou simplesmente de rastreio.
Reconhecendo as valências da mesma, o poder legislativo tem vindo a regulamentar com normativos legais, tanto da União Europeia, como em legislação nacional ou mesmo em diretrizes emanadas por Autoridades Administrativas Portuguesas.
No entanto, e mesmo reconhecendo as mais-valias do uso das novas tecnologias, ou mesmo estando regulamentada legalmente, existe ainda muita resistência. Sendo pioneiros nesta área em Portugal, temos vindo a desbravar um terreno árduo, contra mentalidades conservadoras, havendo necessidade de apelar muitas vezes à legislação nacional e europeia ou aos tribunais para ultrapassar obstáculos que se levantam diariamente.

Neste momento há ainda quem duvide da legalidade da Telemedicina nesta área da saúde. Esta questão cria constrangimentos no desenvolvimento do vosso trabalho? Enquanto empresa especializada nesta área, o que podem dizer a futuros clientes no sentido de assegurar a legitimidade deste método?
Respondemos quase diariamente a esta pergunta, suscitada quer por empresas que pretendem contratar os nossos serviços, quer por empresas concorrentes nesta área, quer mesmo por autoridades que questionam os nossos serviços e já tivemos mesmo que apurar responsabilidades das mesmas junto dos tribunais portugueses.
A telemedicina está regulamentada no seio da União Europeia, que solicitou aos Estados Membros que se adaptem às novas tecnologias no âmbito da saúde. Por forma a cumprir as recomendações europeias, em 2012 foi criado um grupo de trabalho em Portugal com vários ilustres representantes da medicina. Em 2013 e 2014, o Ministério da Saúde português emitiu despachos, decretando a utilização da telemedicina nas Instituições de Saúde. A Direção-Geral de Saúde emitiu já este ano uma norma orientadora para as Instituições do Serviço Nacional de Saúde que pretendem adaptar a telemedicina e até mesmo a Ordem dos Médicos dedicou um capítulo (Capítulo XII) ao mesmo assunto, atribuindo aos médicos a liberdade completa e independência de decidir se usa ou recusa a telemedicina (n.º 1 do art.º 95.º do Código de Deontologia da Ordem dos Médicos).
Face ao exposto, podemos afirmar a total legalidade da prestação destes serviços por meio da telemedicina.

Que mais-valias trouxeram à Medicina no Trabalho ao introduzirem a Telemedicina? Para o leitor que ainda não conhece esta fase evolutiva da medicina, como definem este vosso serviço?
A telemedicina veio solucionar alguns problemas práticos com que, por exemplo, empresas de recursos humanos em Portugal se deparam, por forma a conseguirem cumprir a legislação no âmbito da medicina do trabalho, sobretudo quanto aos exames de admissão que devem ser realizados antes da integração dos trabalhadores.
As grandes empresas de recursos humanos ou de trabalho de temporário que têm uma grande rotatividade de admissão de colaboradores em todo o território nacional, sempre com um prazo de resposta muito curto, tinham uma dificuldade muito grande para realizar os exames médicos antes de ceder o trabalhador na empresa cliente.
Estas empresas tinham que contratar dezenas de prestadores de serviços de medicina do trabalho, que lhes pudessem dar uma cobertura nacional e ainda contar com a disponibilidade dos mesmos para a realização dos exames médicos de admissão antes do início das funções dos trabalhadores.
Neste processo aconteciam atrasos, adiamentos, faltas aos exames e horas perdidas nas deslocações às clínicas, que nem sempre eram conseguidas no espaço temporal desejável.
Através da telemedicina a Born2Score veio revolucionar a realização dos exames de admissão nestas empresas. Desenvolvemos um software que permite fazer a gestão dos mesmos e receber antecipadamente a avaliação de riscos a que cada colaborador estará exposto. Através de equipamentos médicos preparados para a telemedicina, que são levados às empresas clientes, é possível realizar exames complementares de diagnóstico a partir do escritório das mesmas e transmiti-los eletronicamente ao departamento médico, que com o recurso a uma chamada de videoconferência realiza a consulta, como se presencialmente se encontrassem.
Com este método, além da nossa capacidade de resposta praticamente imediata, eliminámos as faltas aos exames, deslocações e horas de trabalho perdidas, podendo o trabalhador no dia em que vai assinar o contrato, realizar de imediato o exame médico de admissão e receber imediatamente a ficha de aptidão para ser assinada quer pelo trabalhador, quer pelo responsável de recursos humanos.
Tudo isto se traduz num aumento de produtividade que tanta falta faz ao nosso tecido empresarial, resolvendo um dos problemas com que se têm que deparar diariamente.

Através deste método tecnológico, realizam consultas a partir de Portugal para todo o mundo e, assim, promovem a admissão ao trabalho a cidadãos que não se encontrem em território luso. Esta é a grande vantagem da telemedicina?
Efetivamente as novas tecnologias permitem ultrapassar barreiras que até então eram intransponíveis, nomeadamente pela distância ou horários, podendo mesmo realizar exames a trabalhadores que se encontram destacados por empresas portuguesas noutros países.

A modernização constante das tecnologias é uma mais-valia fundamental na área da saúde e, nomeadamente, neste vosso setor de intervenção? O que mudou e mudará com esta evolução tecnológica?
Ao contrário do que se possa imaginar, a Telemedicina não é um conceito recente, fruto da imaginação de criadores de filmes de ficção científica. Conceptualmente é uma técnica antiga e que se tem vindo a desenvolver na sua forma de aplicação e alcance, a par da evolução dos meios tecnológicos de telecomunicação à disposição.
A primeira referência a cuidados de saúde prestados à distância aparece no século XIX, numa altura em que o principal meio de comunicação era o correio. Nessa altura, o médico trocava informações com os seus doentes ou outros médicos através de carta. Como se pode imaginar, a velocidade com que a informação se propagava nessa altura não era ideal. Alguns autores reportam-se a épocas mais longínquas considerando que a comunicação da existência de um surto de peste numa povoação através de fogueiras ou outro tipo de sinais também se pode considerar telemedicina.
Atualmente e com as mais recentes tecnologias de comunicação, é possível desenvolver sistemas de Telemedicina com maior qualidade e versatilidade. É de registar, por exemplo, a utilização de sistemas de transmissão de ECG e vídeo entre ambulâncias e o hospital para a prestação de cuidados em situações de emergência e catástrofe. Sistemas de TeleRadiologia e TeleCardiologia que permitem a realização de exames em locais remotos do planeta e a sua visualização e análise de exames por especialistas em centros de referência.
A massificação da utilização da Internet tornou-a um meio poderoso de disseminação da informação clínica. Tornando possível o desenvolvimento de sistemas de informação e sistemas de educação e sensibilização da comunidade.
Não conseguimos, portanto, prever o futuro, mas sabemos que o mesmo continuará a trazer evoluções tecnológicas que permitirão a melhoria contínua da ciência médica.

No âmbito dos serviços prestados, a Born2Score não se foca apenas na Telemedicina. Em que outras áreas a marca utiliza as novas tecnologias no sentido de melhor exercer as suas funções?
De facto, a B2S não se limita apenas à prestação de serviços de telemedicina. Além deste departamento, temos várias áreas de ação, como por exemplo, a contratação pública com serviços especializados para dar resposta à necessidade do cumprimento no âmbito da medicina do trabalho aos Organismos Públicos e a medicina do trabalho convencional, (idêntica às restantes empresas certificadas), onde já prestamos serviços a cerca de um milhar de empresas.

Afirmam adequar os vossos serviços às necessidades práticas de cada ramo de atividade e especificamente de cada cliente. De que modo se comprometem com este objetivo?
Este é um dos nossos lemas, de que cada cliente é um cliente com especificidades próprias. E como tal, devemos apresentar uma solução personalizada às necessidades de cada um. Esta é a visão de trabalho partilhada por todos os colaboradores da Born2Score que tem permitido a garantia de satisfação de cada um dos nossos clientes e, simultaneamente, a motivação de cada pessoa que colabora connosco.

O vosso trabalho é suportado por profissionais experientes e altamente qualificados. Como definem a vossa equipa?
A nossa equipa é realmente composta por profissionais altamente qualificados e extremamente motivados no trabalho que têm vindo a desenvolver, tendo sido selecionados quer pela componente prático-científica que apresentam, quer pela motivação para ingressar numa empresa jovem, dinâmica e inovadora, quer pela disponibilidade que apresentam na aposta de uma constante melhoria dos serviços que a B2S vai oferecendo. Cada um dos profissionais que colabora com esta empresa tem contribuído para um crescimento sustentado e inovador e sem eles não seria possível termos chegado onde chegamos nem almejar chegar onde todos pretendemos chegar.
A Born2Score conta com uma equipa de profissionais com provas dadas em vários ramos, desde médicos do trabalho altamente experientes a um departamento de enfermagem exigente, mestres e engenheiros em segurança no trabalho, técnicos de segurança alimentar, gestores, advogados, formadores, etc. Todos com intensa paixão pelo trabalho que têm vindo a desenvolver, transmitindo essa alegria aos clientes.

São estas questões, abordadas ao longo da nossa entrevista, que possibilita o fator diferenciador relativamente a outras empresas ligadas a esta atividade?
Julgo que sim. O nosso fator diferenciador é a aposta em profissionais que acreditam na potencialidade das novas tecnologias e se esforçam diariamente para que, por meio destas, possamos responder com qualidade às especificidades de cada cliente.

Que planos têm delineados para a Born2Score no sentido de continuar a fazer parte da evolução da Medicina no Trabalho? A internacionalização é já uma realidade no âmbito da Telemedicina, mas será integrada no contexto de outros serviços da marca?
Temos objetivos bem delineados para a Medicina do Trabalho e para toda a componente que envolve estes serviços, como a sensibilização para hábitos saudáveis no ambiente de trabalho, a ergonomia, a segurança e higiene no trabalho, a segurança alimentar, entre outros.
Temos vindo a dar passos seguros quanto à internacionalização dos nossos serviços, assim como à criação de outras valências no âmbito nacional, que permitirão revolucionar outras áreas que não só a medicina do trabalho e que brevemente se tornarão público.

Num balanço final, um dos vossos objetivos é sensibilizar para a importância da saúde no trabalho. Esta tem sido uma missão facilmente concretizável?
Nunca é demais a sensibilização das empresas e dos empresários para a importância da saúde no trabalho e para fazer entender o fundamento que está por trás das prerrogativas legais que levaram à criação deste instituto (a medicina do trabalho). A nossa tarefa nunca é fácil, tendo em conta que não nos conformamos com o facto do cumprimento destes serviços apenas porque é legalmente obrigatório. Mas, fazendo um balanço final, julgo que estamos no caminho certo, continuando esta luta diária de sensibilização empresarial e, nalguns casos institucionais, tem trazido resultados positivos.