Portugal e China, uma relação sem distâncias

Todos os dias surgem novas e aliciantes oportunidades que devem ser agarradas. Criada em 2012, a Associação de Jovens Empresários Portugal-China (AJEPC) tem protegido os interesses dos seus associados, fortalecendo as relações entre estes dois países. Estar presente em mais uma edição da MIF- Feira Internacional de Macau era, por isso, incontornável. Foi à margem deste evento que a Revista Pontos de Vista conversou com Alberto Neto, Presidente da AJEPC.

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Todos os dias surgem novas e aliciantes oportunidades que devem ser agarradas. Criada em 2012, a Associação de Jovens Empresários Portugal-China (AJEPC) tem protegido os interesses dos seus associados, fortalecendo as relações entre estes dois países. Neste trabalho de aproximação, desenvolvimento e investimento nos dois mercados, que balanço é possível fazer?
Pode se fazer um balanço positivo, tendo em conta os vários contatos estabelecidos, missões empresariais e inversas realizadas, projectos concretizados e as diversas oportunidades que ainda estão a ser exploradas, quer no eixo Portugal – China, quer nas triangulações entre os países de língua portuguesa, Macau e China a nível empresarial. No entanto, temos consciência que devido ao nosso carácter como voluntários temos muitos pontos fortes, mas também algumas lacunas que temos vindo a aprender e a melhorar dentro da nossa organização. Com a experiência, humildade, dignidade e força de vontade dos nossos membros temos conseguido superar diversos desafios e realizado diversas acções que inicialmente pareciam muito mais difíceis mas que em conjunto conseguimos superar.
Entendemos que temos feito um trabalho institucional interessante junto ao AICEP, IPIM, HK Invest, Beijing Invest e CCPIT de várias regiões da China, sendo que temos realizado diversas acções conjuntas, desde sessões de esclarecimento a organização de missões empresarias e eventos sectoriais.
A AJEPC apoiou o nascimento de diversas associações, sendo também fundadora da Federação Sino-PLPE, que foi criada no início de 2015 em Macau e que promove as relações entre os diversos países de lingua Portuguesa, Espanhola e a China, promovendo triangulações comerciais e de investimentos através do fomento da cooperação empresarial e institucional, troca de contactos e validação de interlocutores de parte a parte.

A Associação utiliza a plataforma Macau para a organização e promoção de eventos na China, tal como a China e Macau podem contar com AJEPC para os mesmos fins no mercado Europeu e nos PALOP. Efetivamente, como descreveria este trabalho de parceria? O que tem sido possível fazer?
A AJEPC tem diversos acordos de colaboração entre associações de Macau, China, dos PLP e de alguns países da União Europeia. Estes acordos permitem uma maior interacção entre as várias associações e uma maior dinâmica entre os seus membros. Existe partilha de agendas de trabalho, calendários de eventos e maior transparência na informação passada entre todos. Este tipo de trabalho permite também identificar entre os diversos membros os que têm projectos ou produtos que podem complementar os pedidos de outros empresários de associações distintas. Acaba por ser uma rede de networking com benefícios mútuos, que permite juntar mais valias e pessoas interessadas da mesma área sempre que surja uma oportunidade. Deste modo temos crescido cada vez mais em termos de membros honorários (grande parte, presidentes de associações homólogas), o que nos permite trazer mais “experiência” ao nosso grupo de membros! Como aconteceu no Fórum Empresarial dos PLP e da China que se realizou entre 20 a 22 de Outubro em Macau, pode-se ver uma grande dinâmica e entre-ajuda entre diversas associações portuguesas, macaenses, chinesas e dos restantes PLP que estiveram presentes. Foram apresentados conceitos, ideias, projectos que envolvem Macau e China, mas que por vezes existe um trabalho conjunto de mais que um PLP! É neste tipo de trabalho que Portugal e Macau acrescentam valor! É nas relações e cooperação nas diversas áreas que nos distinguimos pela diferença, criando “links” entre os diversos povos e culturas e acrescentando serviços, know-how e cultura fundamentais para tornar possível a triangulação.

Alberto Neto
Alberto Neto

Da cultura à gastronomia, são muitas as caraterísticas que distinguem estes dois povos. De um modo geral, o que aproxima e o que afasta Portugal e a China?
Existem diversas características culturais que distanciam os dois povos, mas essas mesmas diferenças, bem trabalhadas podem ser transformadas em pontos positivos. Existem diferentes métodos de trabalho, negociação e criar uma oportunidade de negócio depende muito da capacidade de espoletar curiosidade e interesse no potencial parceiro! Duma forma geral o sector agro alimentar acaba por ter uma grande oportunidade que deve ser explorada ao máximo pois desta forma estamos a exportar “gastronomia e cultura”, que se bem promovida poderá apoiar também o turismo e investimentos em Portugal, pois estamos a dar conhecer o nosso país.

Nesta aproximação dos países lusófonos à China e a Macau, tanto a nível económico como cultural, o que continua a ser premente fazer? Em contrapartida, o que falha?
Falha a realização prática de projectos concretos. Por vezes não há um rumo, uma estratégia. Já não estamos no tempo das caravelas que entramos no barco e vamos à procura de algo que ainda “não existe”! Devemos sim, continuar a entrar nas caravelas, mas saber exactamente para onde queremos ir! Mudar constantemente de estratégia não é estratégia! Indecisão não é uma oportunidade nem mais valia! Como tal temos de vir à China com ideias bem concebidas e planeamento a médio longo prazo. Temos de entender que nesta caravela temos de estar dispostos a viajar em conjunto com os nossos “irmãos” de Cabo Verde, Angola, Moçambique… Desta forma temos maior força e podemos fazer a diferença.
Acredito que Macau seja uma porta de entrada, e que está a trabalhar exactamente para isso. É agora necessário inovar nos eventos, ser mais dinâmico, nomeadamente para poder ser o trampolim para os PLP para a China, e mesmo da China para os PLP.  Existem fundos de investimento para a cooperação que não estão a ser usados e que podem ser canalizados através de Macau. Como tal, Macau tem de promover a formação e a passagem de conhecimentos, promover sessões de esclarecimento mais profundas em matérias que poderão fazer a diferença num futuro próximo! O mesmo na área de trading, a relação com Zhuhai e Hangqin deve ser de aproximação! O ideal seria que no futuro os produtos importados dos PLP para Macau, possam transitar para a China continental, estimulando o comércio tradicional de Macau e criando mais uma oportunidade de mercado aos PLP, senão continuará a ser feito por HK ou directamente para a China Continental, onde historicamente e culturalmente perdemos a nossa vantagem, por isso é do nosso interesse apoiar sem hesitações a plataforma Macau. Temos conhecimento de algumas iniciativas muito interessantes no âmbito online no entanto está tudo ainda no campo dos planos e não existe ainda uma plataforma online que funcione efectivamente.

Em termos promocionais, a estratégia de Macau tem passado, sobretudo, pela divulgação do seu património histórico e por um fortíssimo impulso à indústria do lazer e do turismo de negócios. Que potencialidades existem e que podem ser aproveitadas pelos empresários portugueses, em particular pelos mais jovens?
Penso que neste âmbito Macau tem algum potencial no mercado local, mas deve ser visto como um trampolim para novos mercados. Logicamente ainda se pode fazer muito em Macau, nomeadamente a nível de eventos, mercado agro-alimentar através de aproximação dos grandes centros de consumo, desenvolvimento de plataformas de high tech e e-commerce. Acredito que as agências de viagens de Portugal devem estreitar relações com as de Macau e criar parcerias para criar rotas específicas e mais interessantes para um mercado chinês cada vez mais exigente e competitivo. Mas é preciso ter atenção que o processo de internacionalização deve ser visto como um processo complexo e que se deve dar um passo de cada vez. Caso contrário damos crédito ao nosso vizinho, também não o devemos fazer a um recém contato, que não temos muita informação sobre o mesmo! Como tal, Macau por ser um meio pequeno, pode ser também uma mais-valia para quem quer entrar no mercado, pois entra com alguma segurança e pode procurar o apoio institucional quer do IPIM na apresentação de contactos válidos, como pode contar com a AICEP para validação e acompanhamento dos mesmos.

Por ser membro da União Europeia, fundador da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, por ter uma ligação muito especial com África e com a América Latina e por possuir uma história que o tornou conhecido por todo o Mundo, Portugal tem uma reconhecida importância. Na China, é deste modo que olham para o nosso país?
Acredito que Portugal é bem visto por praticamente todo o mundo. Como empresário viajo pelos diversos continentes e presencio a importância que é atribuída a Portugal. Nos últimos anos foi feito um enorme trabalho para divulgar Portugal em países que historicamente tinham relação mas estava adormecida, importante o trabalho institucional quer da Presidência quer dos diversos Ministérios que visitaram e abriram portas, quer da AICEP ou Turismo de Portugal, alargando o espectro das novas oportunidades de negócios. Tal aconteceu em número extremamente interessante com o Ministério da Agricultura e do Mar que permitiram o desembargo de diversos produtos e referências em diversos países. De salientar a postura dos nossos diplomatas que tem feito um grande trabalho de promoção cultural e económica. A escala do nosso país e respectivos orçamentos de promoção internacional são naturalmente limitados, nomeadamente quando os comparamos com os nossos concorrentes, no entanto batemos qualquer um no campo das relações pessoais. É bom chegar a um país novo e termos ótimas referências da comunidade local sobre quem nos representa. Trata-se de um trabalho de continuidade, um trabalho que tem de ser continuamente realizado. E não de trata de um trabalho exclusivo de ninguém; é sim um trabalho de todos nós, pois todos somos pequenos embaixadores do nosso país. É uma missão que as diversas associações e câmaras de comércio devem entender que temos obrigação de realizar, e bem feito pelo nosso país e sustentabilidade dos nossos negócios.

Para investir é importante conhecer o sistema legal e a realidade nacional. O que é imperativo saber antes de avançar para o mercado chinês?
Esta questão é extramente importante e debatida em praticamente todas as sessões de esclarecimento que realizamos em Portugal, Macau e China. São essencialmente sessões de trocas de experiência que podem ajudar e muito a perceber determinadas realidades. É importante percebermos como funciona, como nos protegermos, o que fazer em situações difíceis, como resolver. Para tal, é importante estarmos esclarecidos! Envolver a banca, advogados, contabilistas e em casos concretos empresas de logística, para sabermos mais. Quanto melhor a qualidade da informação, melhores ferramentas teremos para tomar boas decisões.

Acredita que Portugal e a China, sendo dois países com culturas tão distintas, estão a atravessar um período próspero em termos relacionais? De que forma Portugal pode sair deste período conturbado com a ajuda da China, um país já com um lugar cativo no cenário económico internacional?
Em termos relacionais Portugal e China têm demostrado serem parceiros estratégicos, não apenas no papel mas sim em acções e desenvolvimentos concretos. Portugal pode beneficiar e muito deste novo ciclo económico, nomeadamente com a relação com a China, sem pôr em causa os interesses e as gerações futuras, antes pelo contrário. Creio que nos devemos valorizar não só pelo potencial que temos como nação, pelos recursos humanos, o clima ou a localização estratégica, mas também pela capacidade de interacção com outros povos e capacidade de acrescentar valor nas relações humanas. Saber aproveitar os investimentos estrangeiros para recuperação da nossa economia e do nosso património e direcioná-los para áreas estratégicas que beneficiem ao máximo o interesse nacional é um desígnio nacional. É importante continuar a atrair grandes empresas a investirem em Portugal, mas também o é atrair empresários estrangeiros a investirem em projectos menores que precisam de se alavancar ou de algum apoio inicial, como são os projectos de muitas start-ups, que têm ideias brilhantes e só precisam de um empurrão. A crise que se sentiu obrigou-nos e bem a arranjar soluções, a sair da zona de conforto e não ter medo de arriscar ou procurar oportunidades. O mesmo acontece com algumas empresas mais maduras que estejam a passar dificuldades económicas e necessitam de investimento externo sem o conseguirem obter na banca. Muitas vezes a injecção de capital resolve o problema do fecho iminente dessas empresas enquanto a abertura aos mercados de origem do investimento estrangeiro resolve o problema da sustentabilidade das respectivas indústrias. Não devemos esquecer que algumas destas empresas têm até grandes responsabilidades sociais, nomeadamente os trabalhadores que empregam e famílias que garantem o seu sustento. O investimento nas empresas e mercado português, seja nacional ou estrangeiro deve ser sempre incentivado, através das reformas estruturais que se demonstrem necessárias para competirmos internacionalmente pela captação de investimento estrangeiro com outros países.

As relações entre Portugal e a China comemoram 36 anos e há quem defenda que entram agora numa nova era. A crise vivida em Portugal acabou por estimular o reforço deste relacionamento bilateral? Cada vez mais os chineses olham para o nosso país como o melhor a nível europeu para investimentos?
Quanto mais damos a conhecer o nosso País mais investidores olham para nós, mas repare que não são só os chineses que olham para Portugal. Mesmo dentro da Europa temos cada vez mais franceses, ingleses, alemães e suecos a investirem, já para não falar dos norte-americanos. Os chineses dão mais nas vistas, por serem chineses. Mas na realidade o número maior de investimentos registados em Portugal, vêm da Europa, e depois sim chineses, russos e brasileiros. Portugal é um País muito completo. Infelizmente por vezes devíamos ter mais gente a viajar para dar valor ao Portugal que temos. Em infra-estruturas, saúde, ambiente, segurança, turismo o nosso País é extremamente rico. Depois temos ainda a acrescentar as benesses naturais do clima e a qualidade dos recursos humanos, que somos nós Portugueses. Sabemos receber, gostamos de interagir e somos um povo que cria soluções; temos história e uma cultura riquíssima; temos um País prático ao nível do investidor estrangeiro que cria condições de investimento interessantes.

Para o futuro, sob a bandeira do relacionamento entre Portugal e a China, o que se pode continuar a esperar da atuação da AJEPC? Que objetivos pretendem ver brevemente concretizados?
Como associação continuaremos a apoiar a relação económica, social e cultural de Portugal – Macau – China, desenvolver acordos e aproximarmo-nos de outras associações homólogas, desenvolver e realizar missões empresariais, missões inversas, acções de speed dating, eventos paralelos e marcar presença em diversas feiras e exposições que tragam visibilidade aos produtos portugueses. Continuaremos a apoiar os jovens, que são o nosso futuro e serão os próximos líderes e tomadores de decisões, e que quanto melhor estiverem preparados e melhores relações tiverem com outros países melhor poderão apoiar os seus países e relações internacionais. Quanto aos objectivos mais imediatos gostaríamos de ter um consulado português inaugurado até final deste ano e um voo directo entre a China e Portugal durante o ano de 2016. É igualmente necessário maior intercâmbio de estudantes e professores entre as universidades portuguesas e chinesas, nomeadamente nos cursos ministrados em inglês. Será interessante reforçar a posição de Portugal como País premium no turismo, mas não apenas no tradicional como alavancar o EnoTurismo, Turismo Rural e Turismo Saúde onde reunimos todas as condições para dar cartas e ser bem sucedidos.